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BREXIT: "O CANTO DA SEREIA"

TIAGO CORAIS
Há 3 meses o Reino Unido escolheu sair da União Europeia e apesar de uma “sereia” dizer que BREXIT significa BREXIT, a verdade é que significa muitas mais coisas, que tentarei neste artigo dar a minha perspectiva não só do que significou, mas também do que significa e do que poderá significar verdadeiramente o BREXIT para o futuro do Reino Unido.
Cameron, depois da vitória do UKIP nas eleições ao Parlamento Europeu, jogou todo o seu futuro político nas eleições ao Parlamento Britânico em 2015, prometendo um Referendo sobre a continuidade ou não do Reino Unido na União Europeia em 2017. “Cantou” com “feiticeiro” Nigel Farage e o UKIP a “serenata” contra a Imigração e a livre circulação de pessoas no espaço Europeu. Foi tão longe na demagogia política, que ameaçava apoiar a saída do Reino Unido da UE, se não fosse aceite o seu “caderno de encargos”. Com esta postura, ele conseguiu ter maioria absoluta no Parlamento Britânico, mas deu muitos argumentos a quem apoiava o BREXIT. Antecipar o referendo, não deu tempo sequer de desmontar as “cantigas de embalar” que ele e os apoiantes da saída da União Europeia andavam a “tocar”. 
A União Europeia, errou em ceder no acordo com o Reino Unido antes do Referendo. Sou da opinião que os pontos negociados deveriam ter sido feitos depois do Referendo, pois não só agora o Reino Unido e a União Europeia teriam uma “porta de escape” e num 2° Referendo, os Britânicos teriam noção do que foi negociado, coisa que segundo sondagens demonstram que no referendo a maioria dos eleitores, não tinham conhecimento do acordo feito pelo Cameron. 
No entanto os líderes Europeus, não negociaram o que deveriam ter negociado, ou seja, quem poderia votar neste Referendo. Este ponto seria importante, não com o objectivo de “manipular” o resultado, mas por uma questão de dar coerência à consulta popular. A maioria que está a ler este artigo não sabe, mas os Britânicos que moram há mais de 15 anos fora do Reino Unido não puderam votar, o que está mal, pois numa decisão desta importância excluir Cidadãos não faz nenhum sentido. Já os residentes no Reino Unido com a nacionalidade dos países membros da Commonwealth votaram!
Eu até não discordo que os Cidadãos não Britânicos pudessem votar, mas então deveriam ser todos, os 3,3 milhões de Europeus a viver o Reino Unido também deveriam ter sido escutados. Para mim um Imigrante chega a uma altura que deixa de ser Imigrante e passa a ser um Residente e por isso deve ter em sua posse todos os seus direitos, especialmente os de Cidadania e ter voz através do voto.
Este ponto, é muito relevante e contraria o discurso na Conferência Anual dos Conservadores, no qual a “nasty” Theresa May, “enfeitiçada” pelo BREXIT, “cantou desafinadamente” que o resultado do Referendo Europeu realizado foi claro e que tinha dado à nova Primeira-Ministra “nomeada” um “cheque em branco” para implementar a linha dura do BREXIT. 
Vamos aos factos que contrariam esta visão fundamentalista e cinzenta da mulher que lidera o Reino Unido:
1- Não há dúvida que 52% dos que votaram e podiam votar escolheram a saída da UE, mas também é verdade que o resultado demonstra uma grande divisão entre os Britânicos sobre este assunto. Na Escócia e na Irlanda do Norte, os seus cidadãos votaram a favor da manutenção na União Europeia e Brexit significa também acautelar os interesses dos Escoceses e Irlandeses, sobre risco de desintegração do próprio Reino Unido. 
2- Também nas cidades onde existem mais Imigrantes, como Londres, Oxford e Cambrigde, mais de 70% da população votou a favor da UE. Estes resultados confirmam algumas conclusões sobre este tema na revista The Economist, que nas localidades onde a imigração é alta não preocupa os Britânicos, mas nas localidades onde existe um aumento significativo da imigração num período curto, cria tensão e revolta. Oxford, por exemplo esta semana criou a Oxford European Association, como resposta ao BREXIT e para dar voz a todos os Europeus. Foi com muito orgulho que participei na reunião fundadora desta associação e acharia muito interessante que mais cidades Britânicas seguissem o seu exemplo. É uma mensagem muito positiva e agradável recebida por nós Imigrantes e que acordará os Britânicos “enfeitiçados” pelo BREXIT. 
3- Existem cerca de 5 milhões de Emigrantes Britânicos (1,2 milhões vivem na UE) e pelo menos a 3 milhões não lhes foi dado a oportunidade de escolher numa matéria tão importante para o futuro da sua Cidadania e não é justo que agora são os seus direitos de Cidadania Europeia serão “a moeda de troca” em negociação no BREXIT.
4- Foram aproximadamente 1,4 milhões de Cidadãos dos países membros da Commonwealth que votaram no Referendo e se é verdade que não formam um bloco no voto, que a sua maioria tem uma visão do Mundo e certamente optaram a favor da continuidade do Reino Unido na UE, também é uma realidade que muitos deles sentem-se injustiçados porque para viverem no Reino Unido precisam de ter um visto e os Europeus não, ou seja, o sentimento de igualdade no tratamento esteve presente em alguns destes eleitores. 
5- Outro aspecto não menos relevante, é o facto de que os mais novos, que serão o futuro do Reino Unido, segundo sondagens votaram expressivamente a favor da UE e as pessoas mais velhas votaram pelo BREXIT. Não sendo minha intenção valorizar o voto pela idade, os interesses dos mais jovens também têm que ser acautelados. BREXIT tem que significar o FUTURO.
6- Segundo a sondagem feita no dia do referendo feito pela empresa Lord Ashcroft, 49% dos apoiantes do BREXIT responderam que “a principal razão da sua opção foi que as decisões sobre o Reino Unido deveriam ser decididas pelo Reino Unido”, enquanto 33% respondeu “que sair da União Europeia seria a oportunidade de o Reino Unido ter controlo sobre a imigração e as suas fronteiras”. Ou seja, a soberania foi a p

rincipal razão de quem optou pela Saída da UE, apesar da imigração também ter sido um dos factores relevantes nessa opção. 

Resumindo, se é importante respeitar os resultados do referendo, é preciso ter a noção que a diferença foi de apenas de 1,27 milhões de pessoas, que a 3 milhões de Britânicos não lhes foi dada a oportunidade de escolha nesta matéria e como foi dito anteriormente, é preciso ter a consciência que os critérios de quem deveria votar numa decisão tão importante como esta, no mínimo foram muito duvidosos e subjectivos. O Reino Unido está muito dividido e o risco de se desintegrar é sério, o INTERNACIONALISMO e o MULTICULTARISMO estão no ADN dos Britânicos e é preciso serem contemplados no significado semântico do BREXIT. 
Por outro lado, se é verdade que as empresas não votaram e espero que nunca votem, é importante que numa decisão a este nível haja um diálogo saudável com o tecido económico, que contribua para que exista um ambiente favorável, integrador, próspero e sustentável. Quando ouvimos que empresas do sector financeiro, das telecomunicações e outros importantes sectores poderão deslocalizar-se para Paris, Irlanda, Amesterdão ou para outro País da UE, se o Reino Unido não usufruir do mercado único. Quando também ouvimos a indústria automóvel, que emprega directamente mais 800.000 pessoas e que exporta 80% da sua produção, em coro falar nos riscos para o sector em caso do Reino Unido seguir a “linha dura” do BREXIT, em que o exemplo mais flagrante é o da Nissan, que se reuniu com a Theresa May para que lhes dessem garantias que os investimentos para a produção do novo Qashqai SUV nas suas instalações em Sunderland, fossem bem sucedidos, é demonstrativo como o BREXIT significa “O CANTO DA SEREIA” e é preciso perceber que a imigração se for integrada e valorizada contribui para a CONSTRUÇÃO DE UMA NAÇÃO UNIDA, ABERTA AO MUNDO, MULTICULTURAL E PRÓSPERA.

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