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DESTINO E MORTE DAS PALAVRAS EM VERGÍLIO FERREIRA

«Mas como dizer aquilo mesmo que julgamos dizer, o que em palavras comuns enunciamos? (…) Como dizer “morte” à superfície deste vocábulo “morte”? (…) Mas o mesmo vocábulo esgotou sem esgotar toda a rede infinita que o prende. Escrevo a palavra «morte» e como admitir que nela tenha esgotado a perturbação que me toma, até porque nem sempre me toma? Escrevo a palavra “luz” e como conceber que ela ilumina toda a minha alegria para que outrem ou eu próprio a reconheça?»
Vergílio Ferreira
ISABEL ROSETE
Quando nos referimos a este homem de Melo, de ar calmo, absolutamente sereno, olhando para o Mundo ao mesmo tempo que observa o interior de si-mesmo, jamais poderemos deixar de o mostrar como uma excepção: no seio da Literatura Portuguesa assumiu a difícil e ingrata vocação de denunciar a morte da palavra, a arte do homem no pensamento contemporâneo. Remou contra a maré como os profetas. A sua voz isolada – apesar do anúncio da morte de Deus e da morte do Homem – não se olvidou de afirmar o valor do ser humano e a grandeza das suas manifestações, erguendo, no entanto e sempre, a dúvida, postura que o tornou particularmente incómodo entre os intelectuais portugueses.
De resto, o que evocará Vergílio Ferreira que não esteja já na profunda admiração pela sua obra? A sua vida pertenceu-lhe, inteira, em cada livro. A sua vida (e, também, a sua morte) está toda, inteira, na sua obra. De um certo ponto de vista, é lídimo afirmar que o autor escreveu uma única e grande obra, a qual atravessa todos os seus livros. Devemos perspectivar os sinais que nos deixou em cada um deles como um lamento por um mundo que desaparecia lentamente e, em simultâneo, por uma relação perdida entre os homens e a felicidade. Este homem sombrio, que às vezes escreve com acentos graves de pitonisa anunciando catástrofes inconcebíveis, este perscrutador de mistérios e obscuridades, nunca foi capaz de aceitar pacificamente esta verdade tão simples: que só a força intrínseca da sua obra, a um tempo, fremente e sólida, o poderia salvar. Aquela inverosimilhança que o autor de “Aparição” atribuiu à morte, cobra, de facto, um outro sentido. Tudo na sua luz se transfigura: a voz do amigo desaparecido, os seus gestos, o rosto que nos serve de espelho de uma vida e, até os seus textos, que foram a sua verdadeira vida e com ela se mesclam. Textos sempre ligados ao sonho e à paixão que os criou, coligidos com uma espécie de solidão de ninguém, como a das estrelas. Em última análise, é assim que muitos autores o imaginam e poucos o terão transposto para esse espaço invulnerável, onde o rumor da vida e das feridas, que dela purgam, já não se ouvem ou não sangram, como na alma deste escritor que nos ficou “para sempre”.
Vergílio Ferreira quis envolver-se com a voz da solidão, que cedo o habitou com o peso do excesso, de tal modo que, nem a obra toda glosando-a com uma obsessão intensa, pôs cobro: “Só” é uma pequena grande palavra que caracteriza toda a sua vida/obra, quiçá a vida e as obras de todos os seres humanos; “Só” – o mais curto dos nomes – deu à radical vivência da condição humana, como ele a sentiu e viveu, o mesmo brasão do amor fraterno. Sentimos em cada acto da escrita virgiliana um ostensivo culto da tristeza, qual incansável reiteração da evidência das evidências, coessencial à nossa existência como finitude. Em torno deste “lugar-comum” ergueu uma elegia fulgurante, quiçá narcisista, ou se preferirmos, complacente música sobre a sua finitude, a sua morte e não sobre a intrínseca e anónima mortalidade, como defenderia Beckett. Neste percurso, encontramos o fantasma da própria morte do escritor, tal como Rilke o invocou. E, por esta via, está naturalmente presente, suportando sobre a sua realidade da sombra, o peso e o esplendor do que chamamos mundo e vida.
Se enveredarmos por uma outra atitude hermenêutica, talvez seja uma injustiça encerrar a sua temática da solidão metafísica do homem no mero círculo da subjectividade. Em termos da ficção, a Morte comparece como o acontecimento empírico de espécie única. Se retirarmos o fantasma da morte dos nossos horizontes, não há ficção, pois toda a ficção não é senão o resultado dessa necessidade intrínseca de contornar o problema, de integrar simbolicamente a morte na realidade que ela subverte pela sua irrupção. Note-se que a morte foi durante muito tempo, nos romances de Vergílio Ferreira, a morte dos mais próximos: do Pai e da Mãe. Nestas, o narrador – sempre o duplo do autor – descobre e é posto em presença da forma sensível da ausência pura – aquela que faz parte de nós – restabelecendo-a na sua “hora zero”, obrigando-se a inventar-se neste mundo onde tudo perde, de súbito, significação e realidade. Não é, por isso, Vergílio Ferreira que descobre a solidão, mas a solidão que o descobre.
Começou a sua luta pessoal em volta do Anjo que, como para Malraux, terá o rosto da ausência ofuscante a que chamamos Morte. Combate sem fim que supõe um cavaleiro imortal, um Eu que não tem outra essência da presença de cada um a si mesmo, aquilo a que chamamos Vida – a nossa vida. Eis a grande novidade/inovação temática da escrita virgiliana: a vida que nos entretece nos limites necessários do seu entretecer-se, sem aquém, nem para lá. Mas a nossa vida é A Vida, que se acelerou até à vertigem, embora o corpo retardador nos atropele a ordem e a sucessão. A vida que «está cheia do milagre vertiginoso. Tão cheia, que a tua capacidade de espanto se pode executar diante de um simples verme. Porque olhas um verme sem estremeceres?»
A literatura contemporânea de Vergílio Ferreira, não se alimentava de preocupações ou obsessões deste género – informa-nos Eduardo Lourenço num texto escrito em Coimbra, em 8 de Março de 1996. A sociedade com os seus conflitos sociais, a História com os seus dramas, a vida individual com o labirinto das suas ambições e paixões, eram o vasto campo da transposição romanesca. Os temas dominantes dos romancistas seus contemporâneos – principalmente aqueles amplamente explorados por José Régio – não deixam de estar presentes na obra de Vergílio Ferreira, obsessivamente atento às peripécias do mundo, ao desenrolar do seu destino, ou à procura por um sentido da História e da Vida, cada vez mais improvável. Como diria Kierkegaard, filósofo a que o escritor tantas vezes se refere nos seus ensaios, todos estes temas serão sempre os arredores de uma «única questão»: restaurar e reiterar sem cansaço a evidência das evidências, a de um Eu, ao mesmo tempo contingente, porque “produto” de uma cadeia de causas em cada momento da nossa genealogia, improváveis, e absoluto na sua pura presença em volta do qual se organiza aqui

lo que para nós é o que nos existe, como fonte de exaltação ou de frustração.

É claro que desde “Aparição”, Vergílio Ferreira instala-se na figura de “mensageiro” desta revelação, conquistando o seu lugar como voz epifânica, a única que permite distinguir a vida como existência sonâmbula ou inautêntica, e a existência acordada ou existência autêntica, sem, contudo, que ninguém esteja certo de viver a sua vida como ideal de vigília: os próprios Apóstolos, sempre atentos a todos os passos de Cristo, também adormeceram na hora solitária do Mestre. Mesmo que afirmemos que foi a sua vocação naturalmente poética, os seus dons de lírico ou a sua vocação para a mitificação das ideias e da mais banal experiência quotidiana que tornaram Vergílio Ferreira romancista, não poderemos obnubilar que a sua obra é a encenação de uma única história e essa história é a lenta emergência, depurada de livro em livro, do eterno conto de “amor e morte”, tão similar ao de Tristão e Isolda.
O que foi vivido pelo autor traz a marca de uma elaboração estética profundamente exigente, através da qual acabou por hospedar no lugar da solidão original, o Anjo da solidão que o consolou de tudo e o assistiu na hora impensável da sua própria morte, o Anjo que, sem embargo, é sempre do domínio do terrível. O autor de “Para Sempre” (1983), de “Até ao Fim” (1987), de “Em Nome da Terra” (1990) e de “Na Tua Face” (1993), ou do final, quase póstumo, de “Cartas a Sandra” (1996), está a iniciar o caminho do regresso, querendo, no entanto, «perseguir até ao fim achar o mar». É por isso que estes livros se nos afiguram com uma força inaudita, desmedida, e-norme, face à nossa tão notável pequenez. Tendo lutado contra a inevitabilidade da morte, adivinha a sua morte física, mas assume-a com serenidade. Sem dúvida que também com relutância, com o desejo de a adiar por mais algum tempo. No entanto, sabe que não a poderá adiar: é um estádio que se instaura de acordo com um regulamento invisível, cósmico, inexorável. Essa serenidade afirma-se quando o leitor começa a aperceber-se de que, afinal, não estava sozinho no Universo. O deslumbramento é a consequência, não apenas da situação existencial que aí é revelada, mas também da própria palavra, veículo absoluto de revelação, forma suprema de epifania, que constituiu a própria vida e obra do autor.
Mas, o que faz de Vergílio Ferreira um dos autores mais representativos da recente literatura e reflexão filosófico-estética portuguesa hodierna? O que é que nele permite o pressentimento de que estamos perante uma voz universal? O que é que nele se adivinha de eterno? Justamente a palavra. No início de “Para Sempre”, citando Saul Dias, escreve:
«A vida Inteira para dizer uma palavra!
Felizes os que chegam a dizer uma palavra!»
A Palavra, pois! A Palavra! Porém, não se trata apenas de pensar a Palavra como forma/meio de verbalizar um pensamento. Trata-se, sobretudo, de fazer da Palavra a essência de um pensamento onde nada está a mais. Sentimento e pensamento poético conjugam-se, unificam-se, de modo a ascenderem ao seu intrínseco princípio da criação. Conquanto, neste universo inextricável das palavras, onde repousa, a um tempo, a grandeza e miséria do homem – como diria Hölderlin – resta-nos, mesmo nas mais nobres e dignas circunstâncias, amar o silêncio, ou seja, o que ficou por dizer, o que se disse sem se ter pronunciado uma única letra. Mas, amar o silêncio por entre as vozes que tudo e nada insinuam. Eis, talvez, uma das grandes mensagens impressas na escrita virgiliana, em época de abuso do verbo, do ilusionismo feito com as palavras já gastas pela inevitável massificação e consequente vacuidade da linguagem.

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