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MENINOS DA GUINÉ BISSAU

Fábio a fazer o estudo do desenho da Biblioteca
Conheci os dois meninos nos corredores do hospital. Um com 14 anos, outro com 8, logo após o golpe de estado que atingiu a Guiné-Bissau em 2012. Pouco se poderia imaginar em comum nestas idades que os fizesse andar sempre juntos, mas era assim que os cruzava diariamente. Muitas vezes de mão dada ou abraçados para se apoiarem mutuamente na razão que os segurava ali. Um problema grave numa perna que os impedia de caminhar direitos e sem dores. Internados no hospital há meses, tinham apesar de tudo sortes diferentes. O mais velho, com a mãe em Bissau, conseguia ter diariamente o carinho e a visita que não coube em sorte ao mais pequeno, do sul do país e com familiares em segundo grau “responsáveis” por lhe dar acompanhamento na capital, mas que por vezes se esqueciam.
Além da doença, descobri que os unia a paixão pela pintura e pelo desenho. Daí a cumplicidade a que assistia nas minhas idas ao hospital. Andavam sempre à cata de uma folha de papel, de um marcador ou de um motivo para reproduzir naquela natureza tão limitada e pobre entre os muros do hospital. 
Um dia, quando se tinha já criado alguma confiança entre nós, convidei-os para um passeio de jipe, com o objetivo de os levar a conhecer uma biblioteca recentemente aberta e assim poderem inspirar-se para fazer umas pinturas para decorar esse mesmo espaço. Munidos de papel, caneta, tintas de guache e lápis, lá os metemos com muita cautela no carro para não gerar mais dor nas suas pernas que não lhes dão descanso.
“Bacaré a ler o seu primeiro livro”
CRÓNICA DE JOANA BENZINHO
Entre os buracos do alcatrão, das lombas e do trânsito infernal da capital, os saltos e gritinhos de alegria que vinham do banco de trás deram-nos a entender o que mais tarde viemos a confirmar com os dois – era a primeira viagem que faziam de carro. E como estavam felizes. Até ali, tinham experimentado unicamente o toca-toca, o tradicional transporte publico coletivo, muitas vezes sem portas, sem janelas e com bancos corridos onde cabe sempre mais um, entre baldes e alguidares com legumes e frutas para vender no mercado, porcos, cabras e galinhas. 
Chegados à biblioteca foi vê-los vestir a capa profissional e fazerem rabiscos em papeis, alguns deles inicialmente impercetíveis, mas que percebemos rapidamente ser o esboço em perspetiva do espaço da biblioteca. O mais novo, cedendo à idade e à curiosidade, confessou que nunca tinha pegado num livro. Dei-lhe um para as mãos que folheou encantado, ficando depois imóvel junto de mim enquanto lhe contava a história.
Voltámos ao final da manhã para a cidade e parámos num restaurante, para enganar os estômagos, já a dar horas. Nova estreia para estes meninos. Mas aqui, num sitio público, a vergonha apoderou-se deles e foi difícil escolher o que queriam. Acabámos por pedir para cada um bife (o primeiro das suas vidas, reconheceram) que saborearem demorada e delicadamente até meio e perguntaram timidamente se podiam levar o resto para jantar no hospital.
Voltaram à “casa” que lhes coube por sorte cansados, mas radiantes com um passeio que lhes ficou até aos dias de hoje na memória. Deste dia, ficou-nos por presente, um quadro feito pelos dois que acolhe os leitores na biblioteca e deixámos em troca telas, tintas, papel, lápis de carvão e canetas para lhes preencher os dias de espera pela tal evacuação que nunca chegou. Ofereceram-me também um quadro com a fachada do Hospital Nacional Simão Mendes em Bissau, feito com um realismo que só quem lá vive poderia incutir numa folha de papel. Tenho-o em lugar de destaque nas paredes de casa para me lembrar todos os dias da fragilidade humana que nos rodeia e de como é possível construir sonhos mesmo sobre percursos de vida acidentados.
Hoje, cada um está em casa de familiares com uma perna que não tem esperança de ser tratada, mas para a qual desejam ainda, e acima de tudo, a sorte de não ter que ser amputada. O mais velho continua a pintar, a desenhar com uma mão e uma arte que encantam, decora cabaças, colares e ganchos para o cabelo que ele próprio faz em madeira e junta todos os tostões que consegue para poder pagar os estudos e ajudar a família. O mais novinho vive com uns tios na capital, o Sul e a casa dos pais são uma opção difícil para a doença, e continua a desenhar tudo o que vê e a pintar com as cores que vai conseguindo juntar no seu estojo.
Estes meninos muitas vezes sem nome, são muitos na Guiné-Bissau. Não apenas os que sofrem de doenças controláveis e curáveis no mundo ocidental e que ali se confinam a paredes de um hospital que não lhes pode dar qualquer esperança a não ser a perspetiva de tratamento no estrangeiro. Mas também são muitos os que apesar das contrariedades da vida continuam a procurar o melhor da vida, a sonhar com um futuro melhor e a lutar por ele. 
Nesta história real que aqui partilho, os meus pequenos heróis são o Fábio e o Bacaré e a doença que os uniu a osteomielite.

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