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A POBRE VIDA DOS POBRES

LUÍS CUNHA
A bem dos sociólogos e dos escritores convém que não se confunda sociologia com literatura. É bem verdade que em ambos os casos se produzem narrativas e que estas tanto refletem quanto desconstroem o mundo em que vivemos, não havendo, nesse particular, uma especial diferença. Talvez possamos dizer que o critério de objetividade e o exercício de imaginação se doseiam de forma desigual nas narrativas que sociólogos e escritores produzem. Isto não significa, naturalmente, negar a existência de uma escrita sociológica mais ou menos imaginativa, tal como ninguém pode negar que alguma literatura tem um indiscutível valor sociológico. Deixarei de fora, nesta ocasião, a imaginação sociológica, que ora se inspira para nos mostrar o que o nosso vício no senso comum esconde, ora se atrofia em demandas circulares que nada acrescentam. Escreverei, isso sim, sobre essa estranha alquimia que por vezes transmuta a prosa literária numa verdadeira lição de sociologia. Quero eu dizer, uma prosa literária que não apenas nos mostra a realidade tal qual ela é mas que vai além disso, ganhando asas para vislumbrar o futuro e lucidez para iluminar o presente em benefício do leitor.
Quero convocar aqui um «clássico», habitualmente arrumado na chamada «literatura juvenil», que, do meu ponto, de vista cumpre o critério que defini. Falo de «Oliver Twist», obra publicada pela primeira vez em 1838, na qual Charles Dickens nos oferece um retrato expressivo, sensível e ao mesmo tempo rigoroso, de uma dinâmica e agitada sociedade inglesa, que era, por aqueles anos, o coração do sistema capitalista em expansão. O valor do livro não se esgota na fidelidade do retrato dessa época histórica, já que ele nos dá a possibilidade de «vermos» o mundo para lá da temporalidade concreta que descreve: a «virtude sociológica» desta peça literária reside na sua capacidade de nos mostrar como a persistência da pobreza é condição necessária e indispensável ao funcionamento da «máquina capitalista». Neste sentido, «Oliver Twist» elide a distância temporal, revelando-se como uma narrativa extramente atual: o que descreve parece-nos distante mas ao mesmo tempo útil para pensarmos os tempos que vivemos. 
Apenas quatro anos antes da publicação deste livro, fora aprovada em Inglaterra a «Nova Lei dos Pobres», questão candente e preocupante, sendo justamente dessa pobreza, regulada pela lei e alimentada pela expansão capitalista, que Dickens se ocupará em «Oliver Twist». Não era uma questão nova, diga-se de passagem. No caso da Inglaterra, a legislação sobre a pobreza tinha já uma longa tradição, reportando-se pelo menos ao século XVI, em resposta às preocupações de Isabel I, a Rainha Virgem. Porém, a «Nova Lei dos Pobres» marcava a diferença. Inseria-se na visão «mercadológica» de um mundo novo, sustentando-se em teorias que defendiam que o desemprego seria impossível numa situação de mercado eficiente. A «eficiência», já então como hoje, era a palavra mágica para o mantra do sucesso. Defendiam os teóricos que tudo dependia do ajustamento «natural» do salário ao mercado. Em termos práticos, os pobres não deveriam ter alternativa ao trabalho, o que faria com que os salários baixassem tanto quanto necessário para que o mercado lhes achasse utilidade. O segredo do pleno emprego estava, portanto, em impedir alternativas ao trabalho, como podiam ser a mendicidade ou casas de acolhimento que oferecessem um mínimo de bem-estar. 
Com esta nova lei os pobres deixavam de o ser. À força de fome e de maus tratos, ficaram reduzidos à qualidade de mão-de-obra disponível, acantonada em lugares pouco recomendáveis, esperando por um qualquer trabalho, pago por qualquer salário ou mesmo por salário nenhum. Isto fica bem demonstrada logo no começo de «Oliver Twist», quando o jovem se atreve a pedir mais comida no orfanato: 
« – Senhor Limbkins… queira desculpar… mas Oliver Twist pediu que lhe repetissem a dose!
Em todas as faces se estampou uma surpresa misturada de horror. 
– Isso é verdade? Acalme-se, Bumble, e explique-se cabalmente. Quer significar que Oliver Twist pediu mais papa depois de ter comido a ração que o regulamento lhe prescreve? 
– Sim, senhor, foi isso mesmo. 
– Esse desgraçado ainda acaba na forca – observou o homem do colete branco. 
Ninguém protestou contra esta predição. Começaram a discutir vivamente e resolveram, por fim, encarcerar Oliver. Então, por meio de um aviso colado à porta, ofereceram uma recompensa de cinco libras a quem se comprometesse a levar o pequeno do asilo e a tomá-lo como aprendiz». 
Oliver Twist cresceu num lar para órfãos, sendo estes apenas umas das formas de depósito de mão-de-obra disponível. Por força da lei, todos aqueles que não possuíam meios suficientes para subsistir podiam recorrer a uma única ajuda: as «workhouses», a que alguém chamou as Bastilhas dos pobres. Casas de acolhimento de pobres e desvalidos, impunham um regime espartano e cruel aos residentes, que, em contrapartida, deviam mostrar-se disponíveis para trabalhar a qualquer preço. A ausência de um mínimo de conforto e bem-estar não resultava tanto da escassez de meios como da vontade de disciplinar o corpo, vergando-o ao trabalho e à submissão. Também Oliver Twist é testemunho desta regra disciplinar, por exemplo quando a sua patroa lhe dá a comer a carne que guardara para o cão da família, generosidade julgada excessiva pelo responsável do orfanato, que se apressa a censura-la: 
«A senhora tem-no alimentado bem de mais. Fez com que nascesse nele um espírito completamente deslocado num rapaz da sua condição. Os pobres não precisam disso. A nossa tarefa é apenas de lhes conservar a vida do corpo. Eis o que dizem sempre os membros do nosso conselho diretivo, os quais são sábios na sua maioria. Se houvesse dado somente papas de aveia ao seu aprendiz, nada disto [a manifestação de rebeldia de Oliver] teria sucedido». 
A «Nova Lei dos Pobres» só foi completamente abolida em 1948, acreditando-se, então, que não se voltaria a nada de semelhante. Dir-se-á que assim foi, que estamos hoje longe daqueles sombrios tempos que Dickens tão be

m retratou. Será realmente assim? Ou será, pelo contrário, que a máquina disciplinadora funciona ainda do mesmo modo, com o mesmo apetite e com a mesma necessidade de ajustar a dignidade do trabalho à lógica do mercado? Tenha lido ou não «Oliver Twist», que cada um faça o seu juízo.

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