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Solarização / Dessalinização de solo em estufas

JOÃO PAULO PACHECO
Necessidade de desinfecção dos solos
            A desinfecção de solos e substratos é hoje uma prática muito vulgarizada, fruto da necessidade, provocada pela intensificação a que os terrenos hortícolas estão sujeitos, em particular aqueles onde são praticadas culturas em estufa.
            Por outro lado, os trabalhos intensos de melhoramento de sementes realizados em todo o mundo, levam a que cada vez mais se trabalhe com sementes híbridas certificadas de elevado custo para o agricultor, que devido a esse facto não se pode dar ao luxo de perder qualquer semente ou plântula em viveiro. Os estudos no campo da fitopatologia dizem-nos também que grande parte das viroses podem ser transmitidas por diversas espécies de organismos como nemátodos e artrópodes do solo, razão pela qual o controlo das suas populações se torna imperativo.
            Em conclusão, a desinfecção de solos e substratos é hoje uma obrigatoriedade para qualquer horticultor que tenha a sua exploração minimamente intensificada, o que no nosso País, sobretudo no litoral norte, é muito vulgar devido à predominância do minifúndio, isto é, a pequena dimensão dos nossos terrenos hortícolas e respectivas explorações em que se inserem.
            No entanto, além dos problemas sanitários, orgânicos, o solo poderá também estar com excesso de salinidade, o que se reflecte na sua condutividade eléctrica, e cujos valores extremos causam sérios problemas na absorção de nutrientes pelas raízes; para resolver estes dois problemas em simultâneo existe um método cujos resultados são bastante satisfatórios e que passamos a descrever.
Desinfecção de solos de estufas pelo método da Solarização
            Um método físico, biológico e eficiente de desinfectar o solo de uma estufa é praticar a solarização que consiste em elevar gradualmente a temperatura do solo de forma a que numa primeira fase se provoque a germinação ou eclosão de todas as formas de resistência dos patógenos (infestantes, fungos, nemátodos e artrópodes) existentes no solo; após esta primeira fase os seres que provocam desgaste e estragos nas culturas deixam de ter a capacidade de resistir aos agentes externos. A temperatura do solo, continuando a subir, vai provocar a sua morte numa segunda fase.
            Mas como fazer isto, na prática?
            A solarização do solo de estufas faz-se durante cerca de seis semanas, escolhendo uma época do ano em que seja garantida a existência de altas temperaturas (na nossa região isto poderá ser de meados de Junho até ao início de Setembro). Deve-se fazer do seguinte modo:
             – Lavrar e fresar o terreno da estufa e rolá-lo por forma a que fique com a sua superfície perfeitamente alisada. Eu aconselho, com o objetivo de conseguir melhores resultados, a aplicação de 50 gramas de Enxofre molhável por cada metro quadrado de solo antes de efectuar a passagem com a fresa. Esta última prática tem-se mostrado compensadora e aconselha-se a executá-la, já que o preço do Enxofre é baixo.

(Fresar o solo de forma a incorporar bem as 50g de enxofre por metro quadrado)
  2º – Regar à capacidade de campo e cobrir com plástico de 40 micra de espessura. Este plástico, pela sua fina espessura vai aderir completamente ao solo encharcado constituindo por isso uma película vedante que vai impedir que se dê a evaporação da água do solo; este facto, para além de manter o solo encharcado durante as seis semanas evita que o solo possa arrefecer por efeito da evaporação da água. É sabido que o efeito letal da temperatura é muito superior em meio húmido que em meio seco. Por este motivo devemos proceder de modo a que a água nunca se possa evaporar, para o que teremos de unir com um fio de óleo todas as sobreposições de filme PEbd (o óleo poderá ser um qualquer vegetal, alimentar, não tóxico, de baixo custo e como não se evapora garantirá que não haverá evaporação pela junta durante o tempo de solarização). Para sabermos qual a quantidade de plástico que necessitamos de comprar deveremos atentar na informação de que a densidade do Polietileno de baixa densidade (PEbd) utilizado na fabricação destes filmes plásticos é aproximadamente igual à da água, ou seja, para cobrir um metro quadrado de terreno precisaremos aproximadamente de 40 gramas de filme plástico de 40 micra. (Para quem trabalhe com muito grandes áreas deixamos aqui o valor exacto de 36,8 gramas para que não haja muitas sobras, embora possam sempre contar com o valor densidade igual a 1, pois ficará já garantido o plástico necessário às juntas). Aqui deixamos então uma regra generalizável a todos os filmes de PEbd: por cada metro quadrado de PEbd de espessura igual a micra este vai ter o peso aproximado das mesmas x gramas.


(Aspecto geral da estufa após colocação do PEbd transparente de 40 micra)
               – Fechar bem a estufa e aguardar cerca de seis semanas.

(Aspecto geral da estufa após as 6 semanas de solarização)
              4º – Após as seis semanas de solarização terem decorrido deve-se retirar o plástico de cobertura do solo. Devido aos movimentos efectuados pela água do solo durante as seis semanas é provável que ocorra uma acumulação de salinidade junto à superfície do solo, pelo que, antes de qualquer outra mobilização se deve lavrar a terra de forma a

que esta camada superficial vá para o fundo (o movimento de passagem da aiveca deverá dar uma volta de 180º ao torrão de solo em que pega, ainda com o solo húmido para permitir uma meia volta perfeita). Só depois se deve trabalhar o terreno e regar. Se o terreno fosse fresado e regado de imediato ir-se-iam misturar os sais na parte arável do solo, o que poderia vir a provocar problemas em futuras culturas. Se só se regar o terreno após a lavoura os sais já se encontram à profundidade dessa lavoura, sendo este um método de os arrastar para o fundo – não existe mais nenhum método de desinfecção de solos que nos permita provocar este arrastamento de sais para o fundo, tão importante para quem pratica horticultura forçada em estufas.


(Após retirado o plástico é notória a acumulação de salinidade na superfície do solo)
             
  Este método é muito interessante e eficaz porque quando o processo de solarização se inicia, as temperaturas do solo muito húmido (Capacidade de Campo) são relativamente baixas, entre 20 e 25 ºC. Ao longo dos dias essa temperatura vai subindo lentamente, passando pela gama de valores que favorece a germinação de sementes (infestantes), esporos (fungos), conídeos (bactérias),quistos (nemátodos), enfim, todas as formas de resistência existentes no solo tendem a vegetar, ficando assim muito mais vulneráveis às temperaturas que se atingirão no decorrer das próximas semanas. Este é o grande segredo da solarização, este aumento gradual da temperatura, sempre com elevada humidade, que permite que desapareçam, por “eclodirem vegetativamente”, muitas das formas de resistência dos parasitas no solo.
As temperaturas poderão atingir valores extremos da ordem de 60 a 80ºC, suficientes para provocar, a húmido, uma verdadeira pasteurização do solo.
Os fungos, em especial, são também fortemente abalados pelos efeitos do gás sulfuroso libertado no solo devido à aplicação de 50 gramas de enxofre molhável por metro quadrado de solo à capacidade de campo, muito húmido.          
NOTA: Todas as imagens foram tiradas no decurso de um curso de empresários agrícolas promovido pela HOPOZIM em 2004, e que decorreu na Aguçadoura, Póvoa de Varzim, especialmente dedicado a jovens horticultores profissionais.

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