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PORNOGRAFIA

MANUEL DAMAS
A Pornografia democratizou-se e caiu na rua, tendo-se tornado mais fácil o acesso mas, eventualmente, demasiado. Assim, à distância de um clique, seguindo os 3 A’s de Cooper (Affordable, Anonimous e At Low Cost), a Pornografia generalizou-se na Aldeia Global a que, ainda, chamamos Mundo. Também por virtude ou culpa da Internet…
Perguntarão, alguns aliviados e outros irados…”Mas é contra a Pornografia?”, ao que respondo de imediato…Claro que não! 
Até porque, para nós Sexólogos, os verdadeiros e não os produzidos por algumas revistas cor de rosa e canais televisivos generalistas, a Pornografia é um prático método de trabalho em circunstâncias específicas. 
Permite, entre muitas outras situações, a desconstrução de uma libido fraturada por tabus, fantasmas e traumas e a sua posterior reconstrução. 
É de extraordinária utilidade na tentativa de recuperação nos casos de ejaculação prematura ou precoce especificamente naqueles sem parceiro ou parceira fixa. Podendo tornar-se complementar à aplicação da técnica do “Stop and Go”.
Pode ser usada como complemento de erotização nas tentativas de recuperação de situações de abuso sexual ainda que com muito atenta monotorização.
Pode ser usada como complemento, ainda que não de total substituição nos casos de solidão, nos mais idosos e/ou até nos cidadãos portadores de deficiência motriz. 
E estas são algumas das situações clínicas em que a Pornografia se apresenta de incontornável validade…entre muitos outros casos e circunstâncias. 
Pode ser, até, material a utilizar no sentido de estimular e favorecer o auto conhecimento, a aprendizagem do conhecimento do próprio corpo assim como das estratégias e métodos para proporcionar prazer, muito na linha de que “conseguirei proporcionar mais e melhor prazer a outrem quando conhecer profundamente o meu próprio corpo e as diversas formas de o estimular no sentido da prossecução do prazer”. E ser usado, inclusive, como método para conseguir controlar temporalmente a ejaculação.
Todavia a Pornografia constitui-se como problema quando se torna e erradamente, veículo de uma por demais ausente Educação Sexual. Apresenta-se, assim, a Pornografia, errada e desadequada quando cria e propaga um conjunto de estereótipos, de mitos e, inclusive, de errados Papeis de Género. 
Senão reflitamos sobre alguns dos estereótipos mais errados mas também mais divulgados pela Pornografia…
A Mulher não se resume a um par de Mamas (designação anatómica), a umas Nádegas e a uma Vagina. Encontrando-se tudo desmesuradamente hipertrofiado.
Assim como e simultaneamente o Homem não é apenas um Tórax robusto, uns Biceps proeminentes, umas Nádegas e um Pénis que tem que ser grande e grosso.
Não. 
Não é esta a realidade humana. 
O binómio Mulher versus Homem vai muito para além de um conjunto de estruturas musculo esqueléticas hipertrofiadas e adequadamente posicionadas para uma câmara de filmar.
Acresce que nem todos os Orgasmos são extensos, ruidosos, prazerosos e com foguetes e estrelinhas, a fazer lembrar uma celebração de Passagem de Ano numa qualquer capital mundial. Nem sequer, na maior parte das vezes, provocam verdadeiros tsunamis de prazer…não deixando, todavia, o prazer de estar presente mas na devida conta, peso e medida…Há-os, até, que silenciosos e quase inertes são profícua e profundamente prazerosos.
Mas e no que aos Papeis de Género se refere…
Nem a Mulher tem que estar sempre disponível.
Nem o Homem tem que estar sempre ereto. Nem sequer a ereção tem que ser rápida, acessível, túrgida e duradoura…resulta, fisiologicamente, do aporte de fluxo sanguíneo que, depois, é sustido, num tubo constituído por corpos cavernosos que retém o sangue, nos micro recetáculos que os constituem. E resulta, para além do fluxo sanguíneo conducente à consequente tumescência, de um conjunto de estímulos, circunstâncias, memórias, experiências, sensações e múltiplos prazeres para os quais o Cérebro e em especial a Libido contribuem massivamente.
Estes são alguns dos errados estereótipos que a Pornografia vende à exaustão.
Mas e acima de tudo a grande omissão no que à Pornografia concerne é a ausência total de referência aos Afetos…
Onde ficam o Afeto?
Onde fica o Amor?
E onde ficam as naturais dificuldades epifenoménicas da Vida que, circunstanciando e condicionando o desempenho, na Pornografia acabam por aparentar serem inexistentes ou irrelevantes? Basta pensar quem consegue estar disponível para o prazer sexual se estiver ameaçado, por exemplo, por despedimento ou a ser vítima de crise económica.
São estas e muitas outras as realidades vivenciais que desnudam a Pornografia e a relativizam, legitimamente.

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