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SOFRIMENTO ATROZ

ELISABETE SALRETA

O pobre vive num sofrimento atroz.

Nem sei como explicar. Entretém-se de janela para janela em busca de coisa alguma. Valem-lhe os vizinhos que param para um dedo de prosa. Conversa puxa conversa, o tempo vai passando ligeiro. Sempre se distrai, mas eu sei quem ele procura. Aquece o seu corpo franzino ao sol, como se este lhe desse o tão necessário alimento. Embrenha-se em cada diálogo como se nada mais houvesse para fazer. Mas eu vejo que o seu olhar vai sempre mais além. Procura o horizonte, para lá de onde o sol nasce. Perde-se naquele firmamento numa busca sem fim.
Muito me admira que não salte para a rua e contente-se com a brisa que o beija. Poderia aproveitar mais o tempo e o calor que resta neste outono que já vai longo. Poderia seguir os seus passos e saber onde ela vai. Poderia acercar-se dela e tentar um abraço. Mas não. Simplesmente contenta-se em olhar quando ela passa, admirando a forma como a luz toca naquele corpo esbelto.
Quando alguém se mete com ele e calha ela a passar, a sua cabeça parece uma ventoinha, procurando o seu olhar. Por vezes canta. Não sei se os seus males espanta, mas faz de um tudo para a cativar.
Ela não lhe devolve o olhar, continua o seu passeio. O pobre, muito triste e agonizante o seu penar, entrega-se a um fado louco, muito triste, mas de encantar.
Todos param e o admiram, mais que não seja, pela devoção. Como pode um ser tão único, despertar tamanha paixão?
É assim a sua vida, de janela em janela. Procurando o seu amor, ou apenas a troca de um olhar dela. Ela segue o seu caminho sem pressas, sem nunca para trás olhar, e ele continua no seu posto, firme, hirto, tal qual um militar.
Esta história de amor já virou lenda, por tanta gente dela falou. Não há ninguém que não saiba, que o vizinho que passa a vida à janela, e que tanto canta e encanta, assim o faz porque se apaixonou.
Tem um coração vadio, que foge junto com ela, apenas fica o seu corpo, ali perdido à janela. Seja noite, seja dia, ele aguarda no seu posto. Pobre vizinho que um dia terá um desgosto.
Lá vai ela e quando passa, faz de propósito, eu sei. Sabe que existe um peito que ama e a paixão que por ela tem. Rebola a matreira, sensual, rua fora lá vai ela. E ele canta baixinho a sua mágoa.
E os vizinhos que por ele passam sabem muito bem desta vida. Todos esperam que um dia…. Seja dia e ele corra atrás dela!
Uma homenagem que faço ao gato do vizinho que passa todo o dia à janela e aspira de amores por uma gata-preta de rua que se deita em cima do contentor do lixo que fica mesmo em frente. Ela rebola-se, ao sol. O pobre mia desesperadamente como se a chamasse. Mas não tem coragem para saltar a janela do rés-do-chão. Todos os que passam por ele fazem-lhe festas que retribui alegremente e por vezes com umas dentaditas amistosas.
Mas um dia… um dia pode ser que ganhe coragem e corra rua abaixo atrás dela!

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