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DEFUNTOS, NÃO FINADOS

JOÃO TEIXEIRA
1. Para quem tem fé, 2 de Novembro não é dia de finados, mas dia da comemoração dos fiéis defuntos. Finado vem de fim, ou seja, indica alguém que se finou, alguém que acabou para sempre. Ora, nós acreditamos que quem morre continua vivo, na eternidade. Já defunto vem do verbo fungor, que quer dizer cumprir. 
2. Defunto é, portanto, o que cumpriu: o que cumpriu a etapa terrena da vida e já está na fase eterna da existência. No meio disto tudo, reconheçamos que as palavras são o que menos importa. Contudo, podem ajudar-nos a perceber o que está em causa. E, com efeito, todos nós sentimos que os nossos mortos não estão mortos. Eles sobrevivem. Sobrevivem em Deus e sobrevivem em nós.
3. Desde tempos muito recuados, a Igreja fez eco deste sentimento geral. No Ocidente, a partir do século VII, havia o costume de dedicar um dia à oração pelos defuntos nos mosteiros e em muitas outras igrejas. 
4. No século IX, um liturgista chamado Amalário Simpósio (ou Amalário Fortunato) promoveu os ofícios dos mortos logo a seguir aos ofícios dos santos. Foi, entretanto, o abade de Cluny Sto. Odilon quem decidiu colocar, talvez no ano 998, a comemoração dos fiéis defuntos a 2 de Novembro. Tendo começado pelos mosteiros desta ordem religiosa, esta celebração foi-se estendendo a toda a Igreja entre os séculos XIII e XIV.
5. Este é, pois um tempo em que o tempo como se auto-suspende para nos fixarmos para lá do tempo. De facto, os nossos familiares e amigos não estão sob a terra, mas além do tempo. 
6. Daí que este seja o tempo em que o tempo se senta. Só a eternidade parece voar. Há uma espécie de permuta: o tempo aloja-se na eternidade e a eternidade como que decide acampar no tempo.
7. Já o Antigo Testamento assegura que é «um santo e salutar pensamento orar pelos mortos»(2Mac 12, 46). Assim sendo, aproveitemos estes dias também — e sobretudo — para rezar. Os outros necessitam e nós também precisamos. Os outros necessitam de sufrágio e nós precisamos de conversão. 
8. Na oração, os vivos como que se enlaçam com os mortos e os mortos como que se entrelaçam com os vivos. Os mortos ficam mais vivos sem que nós, os vivos, nos sintamos antecipadamente mortos.
9. Afinal, a morte não é o fim. Muito termina com a morte, mas muito também começa com a morte. É a fé que tudo muda. É na fé que tudo se transfigura. Na fé, nem a morte é o fim. 
10. A morte é como uma porta: fecha a vida terrena e abre-nos para a vida eterna. Na fé, nem o fim é fim. Como dizia Hans Urs von Balthasar, Cristo é «o fim sem fim». Em Jesus Cristo, a morte não é morte. A morte de Cristo foi uma morte morticida, uma morte que matou a morte, uma morte que foi vencida pela vida.

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