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A RITUALIZAÇÃO DA MORTE

ARTUR COIMBRA
Na semana passada, milhares de pessoas voltaram aos cemitérios para cultuar e homenagear os seus ente-queridos, como sempre acontece pelos dias 1 (Todos os Santos) e 2 de Novembro (Fiéis Defuntos).
Por estes dias, a prioridade é mesmo a memorialização dos mortos, de recordação profunda dos que nos foram mais queridos e já partiram para outras paragens.
Os vivos enfeitam as sepulturas dos mais lindos arranjos florais, acendendo velas encarnadas, carpindo as mágoas anuais junto dos seus, às vezes hipocritamente, num ritual que se repete em cada início de Novembro. 
A imensa maioria das pessoas que se deslocam ao campo santo, fazem-no todavia com toda a profundidade da dor, da memória e da saudade.
Por muito que custe à nossa cultura contemporânea, a morte sempre fez e tem de fazer parte da vida, mais até no passado do que no presente, quando se expirava no seio do lar, com a família em volta. 
O culto da morte está, desde logo, intimamente associado à religião que cada família ou comunidade professa. Historicamente assim é.
O paganismo adoptava os seus rituais perante os mortos, com o recurso à incineração dos cadáveres, acompanhado da colocação de oferendas votivas, para que o espírito do morto não voltasse à terra, a prejudicar a vida aos vivos, ou da prática de banquetes rituais junto à sepultura.
O cristianismo, sobretudo a partir da sua proclamação como religião oficial do Império Romano, pelo imperador Teodósio, no final do século IV, também adoptou os seus rituais funerários, em contraponto dos anteriores.
A nova religião veio introduzir novos paradigmas ao nível do ritual funerário, do culto ao morto e da orientação e implantação da sepultura. O que, na época, como hoje, também tinha a ver com o estatuto económico e social do defunto. A partir daquela altura, passa a banalizar-se a inumação dos corpos, ou seja, o seu enterramento, um ritual que se demarcava da época anterior e que tinha subjacente a crença na Ressurreição da alma e na vida eterna. Na Idade Média, o ritual funerário tinha a duração de três dias, que incluía a visita dos familiares e vizinhos, a lavagem do corpo para o purificar e o cortejo fúnebre, num andor de madeira, até à sua deposição no sepulcro, de barriga e cabeça para cima, para “olhar o Céu”, braços ao longo do corpo e sem o acompanhamento de qualquer objecto. Nesse período, o branco era a cor do luto, ao contrário do que hoje sucede, o que se deve ao facto de os tecidos mais pobres da época, os sudários, serem esbranquiçados. Só na Idade Moderna, se veio a adoptar a cor de preto como o símbolo do luto.
Em lugar das oferendas que os pagãos colocavam nas sepulturas para auxiliar os mortos na sua viagem para o Além, ajudando-os a encontrar o rumo mais certo, os cristãos realizavam (e realizam) orações, missas e preces com o mesmo sentido, normalmente em dias determinados, como o sétimo, o trigésimo ou o aniversário da morte. Com as suas orações, os vivos pretendem favorecer a salvação eterna dos defuntos e evitar que se transformem em “almas penadas” que venham infernizar a vida dos que cá ficam.
Como refere o historiador José Mattoso, “os rituais do culto dos mortos destinam-se a captar a sua benevolência, mas ao mesmo tempo a marcar uma fronteira tão intransponível quanto possível entre o seu reino e o reino dos vivos”.
Enquanto os pagãos não se preocupavam com a orientação das sepulturas, os cristãos adoptam normalmente a orientação Oeste-Este, pelo facto de a cidade de Jerusalém se localizar a Oriente e assim o defunto poder, nessa posição, “olhar” a Cidade Celeste.
Quanto ao momento da morte, na Idade Média era um momento público, em que o moribundo falecia em casa, rodeado pelos seus familiares e amigos, o que contrasta com o que hoje em dia mais acontece, em que muito frequentemente se hospitaliza a morte, fazendo com que os doentes se finem na cama dos hospitais, ou dos lares de idosos, ligados às máquinas, solitariamente, quase desumanamente, sem afecto nem carinho familiar.
Quanto aos locais de enterramento, sabemos que, na Idade Média, as sepulturas eram escavadas muitas vezes em rochas, onde se esculpia a forma do corpo (antropomórficas), juntando-se em pequenas necrópoles ou permanecendo isoladas, junto às propriedades, aos caminhos e mais modernamente às igrejas paroquiais ou ao centro das aldeias. Mas como sempre aconteceu, a qualidade das sepulturas tinha a ver com a categoria social ou económica dos defuntos, pois também aparecem sepulturas mais “populares” e até sarcófagos de uma única pedra.
O homem sempre quis evidenciar a sua importância, riqueza e posição social mesmo para além da morte.
Os cemitérios (palavra que significa “dormitório”, “lugar de repouso”) apenas apareceriam por meados do século XIX e dariam azo a revoltas populares. Anteriormente, os enterramentos eram feitos no interior das igrejas (os padres eram enterrados na capela mor) e capelas e nos seus adros, em função da importância social do defunto. A inumação nas igrejas ou nos mosteiros tinha a ver com a crença de que alcançariam a glória das almas aqueles cujos corpos jazessem na companhia das imagens dos santos, dentro dos templos sagrados. Quando ressuscitassem, a proximidade física seria bem maior. As famosas leis higienistas de Costa Cabral (1844), proibindo essa prática e instituindo os cemitérios, tinham claramente em vista a defesa da salubridade e da saúde púbicas, mas não foram bem aceites pelos populares que aproveitaram outras leis para se rebelarem num conjunto de motins e tumultos que ficaram conhecidos como a Revolta do Minho ou da Maria da Fonte. Surgiram depois as capelas nos cemitérios para que os corpos ficassem numa igreja em miniatura…
Lugar neutro, do ponto de vista religioso, o cemitério está disponível para receber todo o tipo de cidadãos, de qualquer idade ou condição, por isso é um espaço absolutamente democrático.
Um cemitério, campo santo ou chão sagrado, é um universo de símbolos e um lugar de sentimentos e de expressões que evocam a viagem de regresso ao pó de onde emergimos.
O cemitério é um pouco uma “cidade dos mortos” feita à imagem e semelhança da “cidade dos vivos”, como espaço de memória e homenagem. Isso porque muitos cemitérios ostentam peças de arquitectura, azulejaria, estatuária, ferro e cantaria que são autênticas obras de arte, de grande riqueza estética e simbólica. Autênticos mostruários de expressões artísticas!

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