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JETA – UMA ILHA DE ESPERANÇA

JOANA BENZINHO
Na Guiné-Bissau, mais de 80 ilhas e ilhéus bordam a costa Atlântica deste bonito país da África Ocidental. Algumas das ilhas, cerca de um terço, são habitadas por uma população que se dedica essencialmente à pesca artesanal e a uma agricultura de sobrevivência. É o caso Jeta, uma ilha muito próxima da costa noroeste do país e habitada essencialmente pela etnia Manjaca.
Visitar Jeta não é coisa fácil. Aliás, raros são os guineenses ou estrangeiros que conheço que alguma vez se deslocaram até ali. E, no entanto, é uma ilha a pouco mais de meia hora de barco da costa e com uma extensão de cerca de sete quilómetros de areal de cortar a respiração. A partida do “porto” de Caió é feita com a maré alta e a passagem pelos labirínticos canais de tarrafes enche-nos desde logo os sentidos com as cores e os sons dos pássaros que se cruzam connosco. 
Em Jeta, não há cais ou rampa de embarque e a saída do barco exige alguma perícia e, claro, alguma lama. Posto que está o pé em terra, a deslocação na ilha tem que ser feita com recurso à boleia de uma das duas pequenas motas com atrelado que se encontram ao serviço do centro de saúde da ilha. Entre alguns solavancos e ressaltos chega-se à praia em pouco mais de 15 minutos. E é aqui que o tempo pára e o azul do mar em contraste com o branco do areal numa paisagem totalmente selvagem demonstram que vale a pena a deslocação.
Abutres e gaivotas partilham ávidos o peixe que lhes chega à costa e pouco ou nada se preocupam com a nossa presença ali mesmo ao lado, onde as águas são tentadoramente quentes e convidam a um mergulho.
Em Jeta, a vida corre serena nas Tabancas (aldeias) mas nossa presença é motivo de curiosidade geral dado que a nossa presença tem o intuito de levar até esta Ilha uma descascadora de arroz que irá servir toda a população. Actualmente, o arroz produzido em Jeta é sujeito a uma de duas formas de descasca: a forma manual, que exige quatro a cinco horas diárias de trabalho duro que é feito essencialmente pelas mulheres e meninas. Ou a descasca feita numa máquina existente em Caió, o que exige uma deslocação de piroga até à parte continental da Guiné Bissau e, naturalmente, acarreta gastos de transporte e um dia perdido entre ida e volta.
No encontro com a população, percebemos pela boca do Régulo (poder máximo tradicional) e da representante das mulheres da Ilha que esta pequena máquina vai mudar o quotidiano e melhorar substancialmente a qualidade de vida da população: as meninas passarão a poder ir à escola no tempo que lhes era tomado pela descasca do arroz e as mulheres poderão dedicar-se a outras actividades que irão aumentar os magros orçamentos familiares.
Visitar esta ilha de Jeta é entrar num mundo onde a esperança no futuro para os filhos da terra é a palavra chave. Aqui a população vibra com a demarcação da nova escola que vai ser construída e vai permitir às suas crianças aceder a um ensino com condições mínimas de dignidade, mostra-nos orgulhosa o pequeno centro de saúde onde uma jovem enfermeira faz um trabalho incrível com o pouco ou nada que tem para servir a população e deixa-nos, na partida, com a reconfortante sensação de que é possível ser feliz, mesmo na adversidade.
Ainda há sítios onde a dureza da vida se contorna com um brilho no olhar e um franco sorriso nos lábios. Jeta é um exemplo.

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