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TEIXEIRA DE PASCOAES, CAMÕES E D. SEBASTIÃO: SAUDOSISMO, MESSIANISMO E LUSITANEIDADE

«Tenho às vezes saudades do futuro,
Como se ele já fora decorrido…
Misterioso sentimento obscuro
De quem antes da vida houvesse já vivido.»
Teixeira de Pascoaes
ISABEL ROSETE
O “Saudosismo” de Teixeira de Pascoaes apresenta-se-nos como um conceito complexo, de intento universal, ilustrativo da mundividência singularmente lusíada. Trata-se de “movimento” poético-filosófico, pelo qual o autor pretende fazer reviver o Espírito próprio da “Raça” portuguesa[1] adulterada – segundo afirma – após o período camoniano, em virtude da invasão do estrangeirismo desnacionalizador, responsável por tornar o género nacional amorfo, a partir do momento em que o fez imergir numa indecisa matéria inerte. Urge, para o poeta-filósofo, fazer renascer um Portugal “caracteristicamente” português, o único que poderá conferir algo de novo à civilização europeia e ao povo lusíada, tão desgarrado da sua “Alma-Pátria”[2] destituída, por sua vez, da identidade nacional que lhe é própria: é necessário extrair das fontes originárias da vida portuguesa os elementos que conferem ao povo luso uma postura estritamente original no seio dos povos de todo o Mundo. Esses elementos – de natureza sentimental – reúnem-se numa mística e divina palavra, cuja intraduzibilidade vocabular é reiteradamente professada pelo autor, mas onde, porém, o perfil e o génio especificamente lusitano emergem na sua nudez originária. Essa palavra é a “SAUDADE”, na qual habita a Alma da “Raça” portuguesa. O “Saudosismo” pascoesiano surge, sem dúvida, como um movimento nacionalista que pretende repor, em actividade, as qualidades originais da Alma-Pátria-Lusa, superiormente reunidas no termo “Saudade”, qual força divinamente espiritual que encerra, em si mesma, a síntese primacial da caracteriologia lusitana, embora entoada no perfil de (um) “sonho”, de (uma) profecia: «esta divina palavra – afirma Pascoaes -, contendo o sonho da nossa raça, o seu íntimo e transcendente móbil messiânico e redentor, por isso ela é intraduzível, portuguesa, e explica os nossos grandes acontecimentos históricos, a alma dos nossos grandes homens, e criará o nosso sonho de futuro, uma Aspiração nacional, que una os portugueses de aquém e além-mar.»[3]
A Lusitânia é, inegavelmente, a terra desta nova profecia onde Camões, a maior força saudosa desenvolvida sobre a face da Terra, cantou a “Saudade”, a “Virgem Mãe” deste nosso divino povo, o génio ardente da nossa Língua, um idiomatismo tipicamente português, a “palavra-mãe”, um símbolo linguístico onde se condensa a espiritualidade dos lusíadas. A “Saudade” surge, pois, como a verdadeira energia impulsionadora, como o elemento Dinâmico que prevede a alma do nosso povo, e que, ao mesmo tempo, o fez aventurar-se na vastidão encoberta dos mares, difundindo o seu perfil de ser-em-essência. A “Saudade” é, sobretudo, a instância redentora, a mãe da Misericórdia e da Esperança, a “entidade” anunciadora vida eterna, da imposição do Espírito perante a face negra da morte.
Esta dimensão misteriosa da “Saudade” perscruta-se num conjunto de palavras igualmente “intraduzíveis” – “ermo”, “luar”, “medo”, ou “sombra” –, as quais deixam transparecer o carácter único da nossa Língua, naturalmente a nossa “Mátria”. Pela análise psicológica destes termos, irmãos gémeos da “Saudade”, poderemos visionar, para além de toda a fenomenalidade, a tendência da Alma portuguesa para o mistério e para religiosidade: são «palavras sagradas da nossa língua», representam a «feição original do génio lusitano e não encontram, por isso, noutros idiomas, vocábulos que lhe correspondem»[4]. A importância conferida, pelo poeta-filósofo, a determinados vocábulos não advém somente da sua potencial facilidade de conferirem a um determinado povo o perfil próprio da sua identidade, mas nasce, fundamentalmente, a partir do momento em que tais vocábulos são entendidos como a própria Alma das coisas a que correspondem e que significam, que nomeiam, que dizem, que des-velam na sua essencialidade: como as palavras (também) são seres-vivos, estão impregnadas de uma profunda vida, tornando-se, assim, meios/modos de nos facultarem o conhecimento da verdadeira natureza do que, realmente, existe, quer nos esteja mais próximo, ou mais distante. As palavras são divinas e, como tal, encontram-se ao lado da Verdade; são a autêntica luz iluminatória do espírito humano ao fazerem brilhar, na sua nudez primacial, os entes que referenciam. “As palavras – sublinha Pascoaes – são já o Verbo modelado, a interrogar-se na existência, a realidade a emergir do seio da ilusão”[5]. Ou seja: as palavras não são meros nomes convencionalmente instituídos para designarem as coisas que são, mas as próprias coisas dadas a conhecer linguisticamente.
A Alma portuguesa “perde-se”, efectivamente, no seio de uma língua fortemente povoada por palavras exclusivamente nacionais, as quais funcionam como o

primeiro e último argumento a favor da originalidade do génio lusíada e, portanto, do “Saudosismo” ou “Panteísmo saudoso”. É preciso frisar, todavia, que o “Saudosismo” lusitano teorizado por Teixeira de Pascoaes não é uma simples criação do seu espírito, mas uma criação da “Raça” portuguesa, que por ele atinge a sua máxima expressão poética e filosófica. O autor descobre-o pela perscrutação efectuada no seio do génio popular e de alguns poetas, entre os quais Camões se apresenta como um caso particular por nele ter encarnado a Alma-saudosa deste Pais. O “Saudosismo” é, portanto, a expressão viva da alma lusíada que, pela voz deste espírito metafísico, se fez notar.

O “Saudosismo” lusitano, de cariz essencialmente messiânico, preconiza o levantamento e a redenção do povo português. Este movimento filosófico, iniciado por Pascoaes e levado ao seu limite extremo por Leonardo Coimbra, tem por base a “Saudade”, «a alma da Raça portuguesa, escolhida por Deus para a sua nova encarnação», qual força radical e originariamente criadora/redentora, que sobre a Lembrança de um passado remoto, veio gerar o Desejo de uma ardente redenção sobre as sombras onde está mergulhado o presente português.
A “Saudade” lusíada, onde radica o nacionalismo pascoaesiano, emerge como uma figura ideal, divinamente concebida, onde encarnou a figura trágica do homem lusitano, apresentando como missão primordial a anunciação de um novo-mundo. Este “Saudosismo” nacionalista e messiânico enraíza-se, nebulosamente, na figura de D. Sebastião, esse vulto enigmático que guarda, em si mesmo, a Esperança do futuro, a esperança lusíada, no qual o povo vê desabrochar a luz de um novo-dia, esse vulto emblemático proclamador de uma vida rejuvenescedora, onde a “Saudade” encontrou a forma mais perfeita e elevada da sua personificação: D. Sebastião é uma vaga existência divinizada; a sua acção é futura, sendo a Esperança que move a sua encoberta postura na mente portuguesa.
Se a “Lembrança” é a alma deste messianismo saudoso, a “Esperança”, com as suas faces voltadas para o futuro, é a carne e o sangue vivo do seu corpo, o símbolo eternizado da confiança num destino superior. Por intermédio deste espírito, compete à Pátria portuguesa realizar a missão da eterna renascença espiritual que lhe está, desde Alcácer Quibir, destinada.
O “messianismo” personificado e deificado na oculta figura do Rei português é, por sua vez, a realização da aventura espiritual do nosso povo, a perfeita realização da Pátria-Lusa: D. Sebastião é aquele que vem resgatar o destino dos homens e do mundo. Integração perfeita do homem no mundo, por perfeitamente integrado no seu ocultamento transcendente, o jovem Rei, cognominado de “Encoberto”, é a exemplificação do desejo oculto da Alma-Pátria, o representante da face velada de uma realidade que só o futuro poderá revelar a este povo quixotescamente inserido neste pequeno canto da Ibéria. D. Sebastião é a “Pedra Filosofal”, o princípio de integração e transmutação da Pátria lusitana. “Encoberto” e “Saudade” são, assim, partes integrantes de um mesmo princípio uno, salvador e nacional. “Sebastianismo” e “Saudosismo” lusitanos, interpenetrando-se mutuamente, são, para o autor, as forças enérgicas de transmutação que prevêem o ser deste povo eternamente esperançado.
A “Saudade”, em toda a sua dimensão poética e nacional, detendo o Mistério possuído e revelado pelos Poetas – esses seres divinos que alcançam os píncaros da essência da vida, esses seres interiores a tudo, onde as coisas se tornam imanentemente reveladas à consciência – assume, em Pascoaes, um nível sagrado, salvador e eminentemente profético. A “Saudade” traz à Raça lusitana a revelação final, ao manifestar o sentido da sua existência colectiva:
“Eu sou a tua eleita, a virgem:
E vim rasgar as névoas, desvendar
Este antigo segredo da Natura
E o sagrado mistério da tua raça.”[6]
“Eu sou a tua Virgem. No meu ventre,
Cresce o nosso menino, que virá
Transfigurar o génio deste Povo,
E estes campos incultos lavrará.”[7]
Com o “Messianismo”, a via saudosa surge na vida portuguesa como um elemento de realização total do ser humano, ao permitir a ultrapassagem da sua condição ou natureza, pelo desejo de união com uma Realidade que se espera, ansiosamente, que o futuro traga. É inegável que a poesia saudosa de Teixeira de Pascoaes é, igualmente, poesia messiânico-profética. O modo como o poeta exprimiu esta íntima relação entre “Saudade” e “Profecia” é manifestamente evidente. O sentido saudoso e o sentido messiânico-profético, encarnados na lenda sebastianista e transmitidos pelo “Saudosismo” pascoaesiano, implicam uma radicação universal, são modos extremos de significar o tempo passado, presente e, mormente, futuro, assim como a mundividência particularmente consagrada a este povo. A “Saudade” é, em suma, a «divina sede de perfeição e Redenção, o eterno Sebastianismo da alma portuguesa e a sua transcendente e poética atitude perante o Mistério infinito! Eis a saudade que é nossa, que é intraduzível, que é da nossa Raça.»[8]

[1] Por “Raça” entende-se «um certo número de qualidades electivas (em sentido superior) próprias de um povo, organizado em Pátria, isto é, independente sob o ponto de vista politico e moral. Tais qualidades são de natureza animal e espiritual, resultantes do meio físico (paisagem) e da herança étnica, histórica, jurídica, literária, artística, religiosa e mesmo económica. Uma Raça possui os caracteres de um ser vivo, e como tal a devemos considerar.», Teixeira de Pascoaes, “Arte de Ser Português”, pp. 18-19.
[2] A Alma Pátria lusitana, que por definição é o conjunto integrante das qualidades próprias de um povo, emerge como o resultado da fusão de sangues de dois tipos de civilizações específicas que lhe conferiram a sua caracteriologia: a civilização ária ou pagã que criou o «culto da Forma, a Harmonia Plástica, o Paganismo»; a semita ou cristã que promoveu o «culto do Espírito, a Unidade divina, o Cristianismo que é a suprema afirmação da vida espiritual.», Teixeira de Pascoaes, “O Espírito Lusitano ou o Saudosismo”, in “Filosofia da Saudade”, p. 23.
[3] Teixeira de Pascoaes, “O génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa”, in “Filosofia da Saudade”, p. 70.
[4] Teixeira de Pascoaes, “O génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa”, in “Filosofia da Saudade”, p. 45.
[5] Teixeira de Pascoaes, “O homem universal”, p. 196.
[6] Teixeira de Pascoaes, “Marános”, p. 6.
[7] Teixeira de Pascoaes, Idem, p. 103.
[8] Teixeira de Pascoaes, “Os meus comentários às duas cartas de António Sérgio”, in “Filosofia da Saudade”, p. 67.

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