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A PROPÓSITO DA EVOLUÇÃO

REGINA SARDOEIRA
Não deixarei de escrever só porque certos arautos da banalidade anunciam o fim do livro. Percebo que a internet substituiu, parcialmente, a necessidade de compulsar dicionários e enciclopédias, uma vez que ali encontramos quase toda a literatura, a arte, a ciência, a filosofia (…); e, se precisarmos de ganhar tempo – por mais estranho que seja este ganho, na prática – resolvemos, num ápice, as dúvidas que, antigamente, poderiam demorar meses a ter solução. 
Não sei se os tais arautos do carácter obsoleto do livro, a curto prazo, terão feito um anúncio acertado. Continuo a ver as livrarias repletas de livros, continuo a notar que vão saindo novos livros e que se vão fazendo edições e reedições, que há tops de vendas e best-sellers e que, enfim, o livro, materialmente falando, que pode compulsar-se e pôr na estante, ainda não dá sinais de extinção. 
Regressando ao início da minha digressão mental, afirmo a minha resistência; e continuarei a escrever livros e a publicá-los – em papel. 
Há muitos anos, quando fiz a prova de filosofia de ingresso à universidade, uma das questões era a seguinte (aproximadamente): “Antero de Quental escreveu que a humanidade não poderia subsistir sem a música. Concorda com esta afirmação? Justifique.” 
Eu concordei e justifiquei prolixamente. Não faço ideia do que escrevi na altura, mas salientei, sem dúvida, o carácter imprescindível da sonoridade harmónica que pré – existe à criação da música humana, com instrumentos e pautas, pois flutua no vento, no trinado das aves, na melopeia das águas do mar, no sussurro da terra; e os homens, desde os primórdios, vão seguindo a natureza, criando os meios de a reproduzirem, e aos seus recursos, artisticamente. 
De igual modo, questiono: poderá a humanidade subsistir sem o livro? Erradicada a literatura do mundo dos homens, serão ainda homens aqueles que ficarem? 
Não sei a resposta, como é óbvio. Porém, afigura-se-me desolador um cenário social de onde as artes tiverem sido arredadas em absoluto. Sei bem que o processo demolidor do mundo artístico está em acção e que poucas famílias incentivarão os seus filhos a seguirem as artes, em exclusividade, mesmo que eles evidenciem o necessário talento e forcejem, a todo o custo, fazer da arte a sua vida. Dizem-lhes que “não dá” , ou seja, que esse caminho não será rentável e que mais vale ser médico ou engenheiro; por outro lado, afastam-nos das humanidades – letras são tretas – e dizem-lhes que as palavras não constroem o mundo, já que qualquer vento as leva sem deixar sombra ou rasto. 
Já vemos este fenómeno implantado nas escolas, embora continue a haver livros, manuais e bibliotecas; mas raramente os livros são eleitos como o hobby por excelência dos lazeres dos jovens; e nem vale a pena referir os instrumentos que os substituíram. Antevejo o dia em que o professor não tem que ensinar a escrever, letra a letra, palavra a palavra, frase a frase, com lápis e papel: para quê se existem teclados (ainda por cima inteligentes)? Para quê se basta encostar levemente o dedo à superfície de um aparelho e ver nascer a letra, a palavra, a frase, o texto inteiro, sem esforço de maior, como se de um acto miraculoso se tratasse? 
Não tenho qualquer objecção a opor, de facto, a semelhante utopia de um futuro, provavelmente já instalado. Eu própria escrevo muito pouco à mão e uso o teclado inteligente para minha vantagem. A questão é que eu treinei o meu cérebro na aprendizagem de desenhar as letras, traço a traço, de aperfeiçoar -lhes os contornos até se tornarem inteligíveis; e a seguir continuei a treiná -lo, unindo as letras na construção de palavras. Foi assim que descobri a escrita e a leitura e o meu cérebro apreendeu a lógica da interligação dos símbolos, ao mesmo tempo que a minha sensibilidade, em pacto coeso com as estruturas neuronais despertadas e optimizadas, se foi deleitando com as letras. Quando chegou a máquina, percebi que se tornava mais fácil e fluente esta função. E servi-me dela. Acrescentei, deste modo, novas competências ao meu intelecto, pois lido com todos os teclados – comecei com a máquina de escrever – e uma tal apreensão deu-me versatilidade e rapidez. 
O meu processo de escrita acontece antes de a palavra ser traçada, sempre assim foi; e, como correr os dedos em teclas é mais rápido do que desenhar letras em papel, o texto emerge com uma fluência e uma velocidade maiores. Logo, sou uma privilegiada porque, no início, treinei zonas do cérebro específicas pelas quais desenhei caracteres e construí, com eles, edifícios textuais organizados; quando tive acesso à tecnologia, estava de posse dessas competências que foram a pedra de toque para a aquisição das outras. O meu cérebro é hoje muito mais versátil do que era antes e responde a múltiplos desafios com grande facilidade. 
E não, não se trata de eu ser um génio ou qualquer coisa parecida: simplesmente fiz o percurso razoável (ou considerado assim, durante séculos) e comecei pelo início, na idade adequada. 
O que vejo agora é as crianças, quase recém-nascidas, a compulsarem aparelhos de alta tecnologia que lhes dão tudo já feito; o que eu vejo agora é um ensino absolutamente dependente de máquinas de escrever, de ler e de pensar. Vejo, ao mesmo tempo, que esta é uma forma de evolução e que os cérebros das crianças não terão o desenvolvimento que acontecia no passado, pois serão sujeitas a outros estímulos tendentes a tornarem obsoletas as capacidades ancestrais; mas vejo, ao mesmo tempo, que foram exactamente estes os percursos que trouxerem o homem desde a animalidade até à racionalidade, ainda que usando processos diversos. 
Música, literatura, arte fazem parte da caminhada do homem, desde as cavernas, até aos dias de hoje, ainda que possamos ter dificuldade em chamar pintura ou literatura aos símbolos produzidos então e a música pudesse ser uma espécie de cacofonia. Os modos de aceder a tais manifestações não têm cessado de se transformar; mas é neles e por eles que ( e repito) o homem mantém a sua humanidade. 
Concluindo (sem concluir, de facto): estamos a viver, exactamente, um marco na
evolução da humanidade, estamos a conviver com os pequenos artífices do homem do futuro e não adiantará muito tentarmos deter o que seguirá, irreversivelmente, o seu rumo inapelável.

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