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GEADAS E SINCENOS

JOÃO PAULO PACHECO
Há uns anos, algures no Entre Douro e Minho, foi necessário plantar umas Strelitzias num terreno onde haviam estado, em anos anteriores, plantados morangueiros. Assim, após preparar muito bem o terreno e transplantadas as plantas para o seu local definitivo, decidimo-nos aproveitar os restos do filme PE preto do morango e aplicá-lo em cobertura de solo nas Strelitzias, sempre se evitavam umas ervas. E estávamos por épocas de S. Martinho, a entrar na estação fria. O plástico não foi suficiente para toda a plantação de flores e só metade teve direito a cobertura do solo. Entretanto o Inverno foi chegando e numa noite de céu limpo o frio acentuou-se, seco e persistente; de manhã, fomos dar com as plantas bastante afectadas pelo frio, mas não todas! Somente as que tinham plástico no solo tinham sido afectadas, as de solo descoberto estavam muito bem. Os filmes negros de polietileno de baixa densidade (PEbd) são opacos a grande parte da luz, nomeadamente à luz visível e aos raios infravermelhos, que são os que mais calor transmitem. Assim, o que sucedeu foi uma conjunção de factores que podem levar ao congelamento das folhas das plantas, pois quando falamos de geada (geada negra, na expressão popular) o que realmente acontece é que o conteúdo líquido da célula vegetal congela; ao congelar, tal como uma garrafa de água no congelador, cristaliza e aumenta de volume podendo mesmo rasgar a membrana celular e quebrar a parede. Ao descongelar, pela manhã, os tecidos celulares destruídos vão começar a perder líquido e dá-se o emurchecimento da folha com o consequente enegrecimento (que deu origem ao nome geada negra). No caso acima referido, as Strelitzias que tinham o solo coberto com PEbd negro viram-se numa numa noite de céu aberto, seca e muito fria e desprovidas da radiação de infravermelhos que vem do solo, pois a Terra devolve à atmosfera parte da radiação que absorveu durante o dia. O que aconteceu teria sido diferente se tivéssemos usado um filme de PE transparente em vez do negro, mas nada melhor que um coberto vegetal.
(Sinceno – concelho de Mogadouro)
Em oposição à “geada negra”, que provoca estragos irreversíveis, a geada branca é muito menos preocupante, se não mesmo favorável. E o que é a geada branca, essa que vemos sobre as folhas de couve com aspecto de neve? É o resultado da conjugação do abaixamento de temperaturas com elevadas humidades: o ar está fresco e húmido e durante a noite a temperatura desce, fazendo subir os valores da humidade relativa até aos 100%, o ponto de orvalho, em que se dá a condensação da água contida no ar com a formação de nevoeiro. Esse nevoeiro acaba por pousar nas folhas das plantas criando uma espessa camada que congela, ficando com um aspecto semelhante ao da neve. Esta camada de “neve” sobre as folhas vai ajudar a planta no caso de as temperaturas do ar continuarem a descer, mesmo muito abaixo de zero já que, tal como uma placa de esferovite, também aquela “neve” tem um efeito térmico enorme, isolando o interior da folha em relação ao ambiente exterior. Por este motivo, a aspersão de água é usada para proteger certas culturas, como o kiwi, da ocorrência de geadas – um sistema de rega por aspersão, com um sensor de temperatura e humidade que, ao identificar valores de risco, acciona automaticamente os aspersores durante poucos minutos, o suficiente para molhar as folhas.
Quando a geada é muita e o frio persiste, a camada branca sobre as folhas pode persistir duns dias para os outros, acumulando-se sem que as plantas sofram qualquer dano provocado pelo frio. É conhecida a beleza dos campos do planalto transmontano quando ocorre o “sinceno“.
Em culturas de ar livre, como se faz muito com a alface, podem-se usar mantas térmicas para baixar o risco de geadas. A manta térmica, também usada para evitar insectos portadores de viroses, é uma malha têxtil muito leve e frágil, semelhante à entretela que se usava no interior dos fatos. A sua utilização permite ao agricultor ter a planta protegida do frio e das pragas aéreas e simultaneamente podendo regar e mesmo aplicar fertilizantes foliares sem precisar de retirar a manta, o que agiliza em muito a sua utilização. Também são utilizadas nas estufas para protecção de plântulas recém-transplantadas no Inverno, como se faz no caso do pimento (ver imagem).
(Plântulas de pimenteiro em estufa protegidas com manta térmica – Estela PVZ) 
Em estufas de cultivo de plantas ornamentais utilizam-se atomizadores de água, conhecidos pelo nome de “foggers”, por criarem um nevoeiro persistente dentro dos abrigos evitando assim o abaixamento das temperaturas a valores negativos que poderiam congelar as células vegetais com efeitos irreversíveis. No caso das plantas ornamentais qualquer mácula nas folhas, ainda que ligeira, deprecia imenso o valor comercial e a qualidade do produto final, pelo que estes investimentos se podem justificar.
(Fogger em acção em estufa de azálias e respectivo sensor climatérico – Mira)

Passado o frio nocturno, e com os primeiros raios da manhã, a geada acumulada durante a noite sobre as plantas acaba por derreter. Algumas couves agradecem o choque de frio e amanhecem mais tenras que nunca, sendo muito apreciadas por esse motivo. 

(Derretida a geada as couves ficam mais tenras que nunca – Bruçó, Mogadouro)

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