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SOBRE O ROSTO DO CORPO

TERESA ALMEIDA SUBTIL
“Conta-me as histórias dos livros que lês”, era o tema do serão na Biblioteca Escolar da EBS do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro. Foi este o momento adequado para apresentar a mais recente obra de Álvaro Giesta, de que deixamos um apontamento: 
“Sobre o rosto do Corpo”, é um título que desde logo me provocou, uma obra que me permitiu uma dialética permanente, uma viagem com paragens, apeadeiros e excursões em vários pontos, uma viagem com um aporte de imagens marcantes e influenciadoras, direi mesmo em expansão: uma sementeira de pontos de interrogação, lembrando Unamuno..
Álvaro Giesta, pseudónimo de Fernando A. Almeida Reis, nasceu em Foz-Côa em 1950. Autodidata, é poeta e ficcionista. Viveu em Angola entre duas guerras – a colonial e a civil – entre 61 e 75. Aos 16 anos fundou o jornal académico “O Baluarte”, no liceu Norton de Matos, Nova Lisboa, de que foi editor durante um ano. Colaborou nessa época, com o pseudónimo Moraes de Mello, no jornal académico ” O Grito”, extinto pela Ex PIDE/DGS ao fim de três meses de vida. 
Tem desde 2000 colaboração dispersa em várias revistas e jornais literários do país e do estrangeiro. É cronista residente da Revista BIRD Magazine (on-line). Fundou em 2013 a Revista Literária “A Chama” que editou e dirigiu durante dois anos onde divulgou vários nomes de poetas da língua portuguesa.
ALVARO GIESTA
Vero ativista, sobretudo no domínio da Poesia, para além dos tomos individuais que se indicam, tem vasta produção dispersa em mais de vinte antologias, bem como através da sua participação ativa nas redes sociais.
Gere a página “Este Ofício da Escrita” em https://www.facebook.com/oficinadapalavra.ag/
e o blog “Visionário” em http://alvarogiesta.blogspot.pt/
Produções em livro:
Onde os desejos fremem sedentos de ser (poesia), Corpos Editora, Porto
Meditações sobre a palavra – um tributo a Ramos Rosa (poesia), Temas Originais, Coimbra
Há o silêncio em volta – uma poética sobre a guerra (poesia), Edições Vieira da Silva, Lisboa
O Retorno ao Princípio – uma dialética Vida-Morte (poesia), Calçada das Letras, Lisboa
Um Arbusto no Olhar (poesia), Calçada das Letras, Lisboa
Entre nós, Cumplicidades (conto) Calçada das Letras, Lisboa
Oblíquo é o Tempo – um poema para os povos do sul (poesia), Edição Autor
O Discurso dos Pássaros (poesia), Edição Autor
Sobre o Rosto do Corpo (poesia), Edição Autor (bilingue Português-Castelhano)
É, como vemos, um escritor multifacetado. Em teatro de guerra interiorizou a poesia da falta, da raiva, do medo e continua a farejá-la nos fragmentos de vida em que tropeça. Pratica o exercício da mente e, tendo sempre como alvo o leitor, deixa passar na escrita o seu mundo de inquietação e desassossego. Não estarei em erro se disser que Fernando Pessoa fez uma sementeira profícua. Devo dizer que li os poemas mais do que uma vez e, em cada leitura, descobria novas perturbações. O autor costuma mesmo falar no ofício de poetar e, nessa medida, trabalha, depura a palavra e liberta-a no seu estado sublime, afirmando que o poema se cria a si mesmo. Uma obra em que se inventa e reinventa procurando a sequência, o equilíbrio, uma obra que se apresenta em segmentos, com o corpo de um único poema: um metapoema. É a voz que emerge como se estivesse aprisionada no silêncio do corpo e o corpo fosse o mundo inteiro que se esvai sem espaço e sem tempo, em que os contrários se aglutinam e explodem, com o desiderato de descortinar mais um ponto de luz. 
E já que hoje e aqui se fala de livros, poderei dizer que o livro da minha vida terá sido “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera. Era muito jovem quando o li e marcou-me de tal maneira que lhe pressinto a alma em bons escritores, não em termos de plágio, mais de estilo, de aprofundamento e de suporte filosófico. A ideia do eterno retorno também a pressenti no pensamento de Álvaro Giesta. As palavras geram-se umas às outras, é verdade. 
Transversal a toda a obra é a criação, mais especificamente o momento em que o poema, a partir da desordem e do caos, ganha vida própria, identidade. Há um ponto, no dizer do autor, em que a sombra e a luz confluem, como se sobre o círculo da vida apenas existisse o sopro. Depois o poema é energia, é o corpo inteiro, como se as suas mãos fossem o altar de algo sagrado, da palavra pura. O autor refere mesmo uma certa embriaguez dos dedos quando a palavra lhe é sussurrada. 
Percebemos, assim, que toda esta leveza é fruto de um trabalho musculado, com os “nervos em frangalhos doloridos e teimosos”. Inteiramo-nos de uma certa fome compulsiva de dizer, de escrever, como se a escrita fosse o seu cavalo libertário.
São palavras que transpiram, que perscrutam silêncios e vazios, que traduzem o rumor, o apelo e a melodia – linguagem fascinante e telúrica, onde o poeta se perde e se encontra. “… a mão que move o cinzel dá forma e religiosidade à luz…

”, ideia que nos remete para a vida que Miguel Ângelo perscrutava na pedra que pretendia trabalhar. 

Uma obra, “ um canto épico”, do meu ponto de vista, singular e fascinante, em que o autor parece desencarnar-se para que o poema seja:
“O único tempo a que ele tem acesso /
é o momento frágil em que as diminutas mãos /
se erguem à inteligência e à luz /
num movimento de fora para dentro. //
Como a terra virgem sedenta do arado /
espera a semente para germinar, /
como a fome alerta de goelas escancaradas /
anseia a mão que escreve alucinações, /
como a rugosidade da pedra espera o cinzel /
para dar a substância que a outra face oculta, //
assim o poema cresce de dentro para fora. //
Enquanto a palavra descansa na sombra /
tal nuvem que encobre o sol até dar a melhor luz, /
assim o fruto amadurece na solidez do tempo /
e do pó. É o tempo do poema. //
É o momento da doação!” //.

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