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A PRESENÇA DA VIDA NA MORTE

REGINA SARDOEIRA
Acabo de chegar de um velório. 
A palavra está impregnada de conotações mórbidas e contudo pode ter a sua origem na palavra vela; e acendemos velas para iluminar, para encher de perfume o ambiente, para festejar, para aceder a rituais de prazer. Velório também pode ter origem no verbo velar. E por velar entendemos cuidar de alguém que dorme, ou está enfermo e achamos ser necessário assistir, despertos, ao seu estado. Com velas, sim, ou às escuras, na penumbra ou em plena luz, o acto de velar implica intimidade e companhia. E assim entendi hoje o sentido da palavra velório. 
A pessoa a quem velei durante algum tempo tinha morrido; estava, por isso, deitado e de olhos fechados, não mexeu um único músculo, não mudou de expressão, e as mãos mantiveram-se cruzadas, certamente tal como o artífice destes rituais as colocou. Poderia pensar-se que a pessoa daquele corpo já não estava ali, que dele se havia evolado algumas horas antes: o que torna manifesta a absoluta inutilidade do velório e da presença daqueles que velam. Contudo, enquanto me sentei à frente do homem que fui velar e o olhei, na sua imobilidade de estátua, percebi que a pessoa continuava presente, ali. Percebi que a morte é um fenómeno ainda obscuro e que não ocorre, mesmo fisicamente, no momento em que o último suspiro é soltado e o coração pára de bater e o médico declara a hora exacta do óbito. Não, esse momento exacto não existe, efectivamente e, nas horas que seguem o cessar das batidas do coração, há uma vida ainda a decorrer no corpo inanimado. Uma vida que não tem o mesmo significado ou a mesma aparência daquela a que associamos movimento, calor, fome, sede, dor, mas que ainda o é e pode sentir -se – caso estejamos atentos. 
Durante algum tempo, fiquei atenta ao homem deitado à minha frente e soube que estava a fazer companhia à pessoa que conheci, viva de outro modo, mas ainda assim, viva para mim, enquanto o olhei. 
Pela primeira vez tive esta experiência de quase diálogo com uma pessoa que, para os outros, nem sequer estava ali, enquanto tal. O ambiente era religioso, quero dizer, havia velas acesas, um altar, uma cruz, o sítio era a casa mortuária de uma igreja; e contudo por ali não flutuava a alma liberta daquele corpo que, segundo a crença, estaria já desprovido de significado, tornando, nessa medida, absolutamente inútil estar ali. Falo do corpo deitado num esquife, de mãos entrelaçadas, do corpo que durante noventa anos deu sentido à vida daquele homem e que havia sido declarada extinta; nada sei da alma dele e tenho a certeza que ninguém sabe. Se ela era a companheira invisível daquele corpo inerte que hoje velei, eu afirmo que ali continuou durante todo o tempo em que me mantive, silenciosa, à sua frente. 
Se alma é “anima” e se o que está animado permanece vivo, eu digo que estive perante um homem vivo, mesmo frio, imóvel e silencioso. Não é necessário estar quente, ou agitado ou ruidoso para que, com estes atributos, possamos perceber que alguém está vivo. E foi assim que eu soube que o homem a quem fui velar e oferecer algumas flores estava ainda animado de um sopro de vida – mesmo que ele próprio e todos os outros ali presentes não tivessem disso a mínima noção. 
Não faço ideia por quanto tempo ainda vai permanecer, deste modo vivo, o homem que estive a velar. Não irei seguir-lhe o caixão fechado e ver como o afundam num buraco à medida e o cobrem de terra para, por fim, lhe porem em cima uma laje de pedra. Sei que acabará desintegrado no subterrâneo onde o irão depositar e que se amalgamará à terra numa nova condição. Ou, pelo menos, julgo saber. Mas, a ser verdade esta condição, em que o homem sepultado, estabelece uma unidade com a terra que alimentará novas vidas, então o que eu senti enquanto velei o homem declarado morto adquire um significado profundo. 
Nada mais posso dizer sobre este assunto ( tão humano e tão radical), pelo menos por enquanto; poucas horas passaram ainda sobre aqueles momentos inefáveis em que senti a presença da pessoa, mesmo sabendo que os critérios humanos o haviam declarado morto e que por causa disso, já não havia pessoa. E é por força deste escasso intervalo temporal, entre o que senti e o que depois pensei, que assim termino, agora, a minha crónica.

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