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A QUE SOAM OS AMORES?

SÉRGIO LIZARDO
Havia uma casa.
E, na casa, havia pai, mãe, filho mais velho, filha do meio e filha mais nova.
E veio a haver depois a sogra, que era também mãe, avó e criança, já viúva.
Havia também um cão no terraço, 
um terço de madeira pendurado na parede de um quarto
e uma figueira no quintal.
A casa, feita por medida, encheu. Tornou-se depois pequena 
e, depois… oh, como cresceu…! (Esvaziou!).
Foi, sem regresso, a avó. No ano seguinte o pai, e o cão, que se desgostou.
Veio a mulher do filho mais velho e, a seguir, o filho destes, também neto,
e, pouco depois, foram embora, para outro país, estes três.
Os figos da figueira perderam o mel, como os olhos da mãe
e então secou, antes de ir, sem regresso, a mãe também.
A filha do meio emigrou e a filha mais nova tirou da parede o terço – descreu.
A casa definhou: o telhado abateu, como cabisbaixo;
a pintura da parede estalou, como rugas de velho;
e as janelas embaçaram, como alma perdida nos olhos. – Chorou até, pelos canos.
A filha mais nova ficou, e acudiu: reformou, remodelou, limpou e redecorou.
Levou a ela marido e depois três filhos. 
Acolheu a sogra, viúva, que trouxe cão e aceitou o terço. Plantaram outra figueira.
Emigraram todos, depois – a irmã do meio convenceu-os a ir. 
O país definhou, e não havia como encontrar telhado tão grande para ele
nem cimento para tapar buracos de zeros a mais
e havia pouco que ver pelas janelas do tempo a ir até eles.
Encontram-se todos na casa, duas vezes por ano. São até felizes:
memórias boas são incubadas nos peitos, 
são ridas,
choradas,
e a casa escuta (que saudades!).
Sérgio Lizardo, in “A que soam os amores”, 2014

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