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MUDANÇA DE IDENTIDADE

PEDRO BASTOS
Uma das primeiras informações que transmitimos aos outros, direta ou indiretamente, é o que fazemos, a nossa profissão, aquilo que estamos qualificados para fazer: a pessoa A é professora, a pessoa B é comerciante, a pessoa C é operária, médico, agricultor, economista…
Uma das perguntas mais frequentes que se fazem a uma criança é o que quer ser “quando for grande”. E a resposta esperada, invariavelmente, é a de qual será a atividade/profissão que esse jovem humano gostaria de exercer quando chegar à idade adulta.
Mas as mudanças que se vão operando no mundo em que vivemos têm-nos levado a alterar a forma como nos “percebemos”: em poucas décadas passamos de uma cultura em que se entendia o processo de aquisição de conhecimento para o exercício de uma profissão como algo que ocorria na juventude, sendo depois explorado e rentabilizado ao longo do tempo de vida adulta, para um paradigma diferente: o da formação contínua, da adequação a novos contextos que chegam muito rapidamente, da “mudança constante”.
Confrontados com um acelerar dessas mudanças, introduzidas por inovações tecnológicas, começamos a ver posto em causa o nosso papel: enquanto há uns anos a nossa “componente produtora” nos fornecia uma corrente constante de recursos para alimentar a nossa “componente consumidora”, hoje vemos a primeira a ser substituída por máquinas que se vão tornando cada vez mais “inteligentes”, a ponto de desempenharem tarefas cada vez mais complexas, que julgávamos apenas executáveis por mãos e cérebros humanos.
Como resultado, para além da fluidez das exigências, é o próprio valor do trabalho humano que tem caído, derivado do excesso de oferta.
No entanto, a segunda componente (consumidora) sai a ganhar destas alterações: nunca foi tão barato colocar no mercado bens e serviços. A tecnologia tem vindo a substituir muitos processos físicos por processos digitais, desmaterializando-os, reduzindo assim as necessidades de trabalho e capital. Nunca tivemos tanto por onde escolher.
A grande questão é que o robô que constrói um smartphone ou um automóvel não o compra, e a pessoa que os deseja ou necessita comprar começa a não ter acesso aos recursos para o fazer, porque todo o edifício social e económico existente lhe “diz” que sem trabalho não há outra forma de os obter.
As soluções que se apresentam para este dilema, em que um excesso de oferta de bens e serviços ocorre ao mesmo tempo que existe um défice crescente de fontes de rendimento que lhes permita aceder (na tradicional forma de trabalho), são desconhecidas apesar de se começarem a vislumbrar pistas quanto às mesmas.
Será que uma das soluções é tentar atrasar ou fazer parar esta mudança? Criando barreiras e tentando replicar em circuito fechado uma realidade que já não existe?
Ou será dando um passo em frente, assumindo que é preciso responder de forma diferente a uma nova realidade? E como testar as respostas, para saber quais as que obtêm melhores resultados?
Se a resposta definitiva estivesse num qualquer algoritmo, numa máquina que nos indicasse o caminho, seria simples. Mas não está. Está na nossa visão e conceção do mundo, no receio das consequências daquilo que temos vindo a criar, e que nos impede de adaptar a um novo contexto.
Talvez porque temos uma enorme dificuldade em nos tornarmos seres que não se definem pelo que fazem.
É natural que assim seja: crescemos a querer ser e fazer algo quando “fossemos grandes”.

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