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DA OBRA "À JANELA DO TEU CORPO" DE JOAQUIM MONTEIRO

[para que serve o corpo senão / para amar outro corpo]
Queria copular-te de maneira inédita e original
beijar a rosa de maneira que o rosa, vermelho ficasse.
Beijar teus erectos seios de forma que o sangue dos lábios
se misturasse com o leite derramado da ausência,
quando as montanhas eram o lugar aprazível, onde
o verde e o ar se misturavam no puro movimento
com que as abelhas esvoaçam no teu ventre, e
colhiam o pólen da flor aberta a toda a abstracta claridade.
Queria dizer-te que o meu Sul é o teu Norte
e que navegássemos à deriva no mar encapelado
de meu corpo, pelos ventos que me sopras aos ouvidos,
como o Adamastor às naus do Gama, e depois, viesses
sereia: agrinaldar-me a fronte e cobrir-me a pele
com as algas mais doces e aromáticas do Sal, que penetrando
narinas dentro, inebriassem neste velho marinheiro
os sentidos que trouxera da velha pátria Lusitânia,
e náufrago, me agarrasse a teu corpo de alabastro.
©Joaquim Monteiro, À JANELA DO TEU CORPO, ed. Modocromia, 2014
CRÓNICA DE ALVARO GIESTA
Este é um dos poemas que aparece quase a fechar a segunda parte da obra “À Janela do Teu Corpo”: é, dos

poemas que tenho lido à Mulher, e em verso livre, dos mais belos de todos os tempos. Talvez o mais belo poema de sempre! Todo ele é a poesia de Joaquim Monteiro. Nele está contido o “Sul”, ânsia de calor e sol do amador, que transmite o “Norte” à coisa amada: ponto de convergência – o amor que vence todas as adversidades da vida; estas (as adversidades) nas oposições do “Adamastor”, aquele (o amor), na vontade e na força intrépida das “Naus do Gama”… depois, a paz final na melodia encantatória da “Sereia” e o sabor da vida no “Sal” (como no baptismo) a que o poeta, náufrago, se apega. Este poema tem as características mais importantes do verso livre para ser poesia: ritmo e o essencial da sua significação – a imagem. Como dizia Drummond «sob a pele do poema há cifras e códigos» que se articulam entre ritmo e imagem para fazer pulsar o sangue que circula nas veias do poema: a poesia. Ritmo e imagem, verdadeiros valores poéticos da poesia.

É (quase) um risco avançarmos que este poema fala por todo o livro de Joaquim Monteiro. Talvez até nem seja… embora possa haver leitores que arrisquem dizer que é menos justa a afirmação aqui produzida; aqueloutros (os menos atentos mas que se julgam os mais descobridores ou astutos) que avaliam a obra pela consulta que fazem ao índice e assim descobrem uma parte (a última) que o autor, incompreensivelmente, designa por “Outros”. Ora, este livro marcadamente sensual, não apenas pela natureza forte dos poemas das três primeiras partes em que o autor divide a obra mas, também, tão elucidativo pela imagem da capa (que, infelizmente, em tantas outras obras de tantos outros autores não casam as imagens da capa com o conteúdo poético), nele não há margem para dúvidas de que o objecto poético é a “Mulher”; assim, nenhum leitor deve arriscar, classificando-o de outro modo sem o ler no seu todo. Por outro lado, e aqui em certo desabono do autor, à crítica de quem o leu, e por várias vezes, do princípio ao fim, cabe a pergunta: porquê tal capítulo (o último designado por “Outros”) se nos poemas que o compõem é tão etéreo o amor dedicado ao objecto cantado – a Mulher – como nos três capítulos antecedentes; e referem-se “capítulos” ou “partes” e não “temas” porque o único tema cantado na obra é a Mulher: no Corpo, pelo Amor e no Amor, pelo Corpo.
Este poema, que me serviu de intróito para o artigo, é a marca de todo o objecto poético a que aspira o eu-lírico. Escalpelizá-lo, dando-o por isolado na obra, não é essa a intenção. É, outrossim, e depois de dizer do poeta, que conheço, mas sem prejudicar a imparcialidade com que falarei da obra, analisá-la amplamente no seu todo significativo, porque ao linguísta – que não sou – cabe tentar descobrir o “como e o porque” das duas faces dos signos linguísticos: do inteligível significado e do sensível significante, com que evoca o corpo feminino nas (tais) três partes – como se fossem principais – em que divide a obra “Mulher, Amor, Corpo”, e reflectir sobre elas para chegar ao entendimento do texto a partir da análise do eu-lírico. Assim, direi do poeta e, depois, da obra:
Publicamente, ou seja, para um grande auditório como é o da Rádio ou da Imprensa escrita, já falei do poeta Joaquim Monteiro três vezes – ou antes, já escrevi, porque falar dele como poeta de topo faço-o muitas vezes; ainda em 2015 o fiz, em directo, no programa de rádio que rege Conceição Lima, em Vizela. A primeira vez, numa longa recensão a uma antologia poética escrita por 12 autores, um dos quais era Joaquim Monteiro (Rio de Doze Águas, edição Coisas de Ler, 2012); a segunda, em prefácio a este mesmo livro de poesia À Janela do Teu Corpo, edição Modocromia, 2014; a terceira vez, na revista literária impressa A Chama, de que fui editor, publicando-o em duas longas páginas A4 como poeta convidado, em 2014.
O que tenho a dizer dele como homem: simples, tímido, recatado, que foge das luzes da ribalta – próprio dos homens de saber; como poeta: é um desenhador da palavra escrita que burila com mestria própria e sabedoria. Mais que poeta é um filósofo da palavra que nos dá muito que pensar com o que escreve nesta poesia imagética e que escreve ainda mais para nos fazer pensar. Noutro contexto escrevi de Joaquim Monteiro que verte sabedoria casando-a com a poesia que escreve: é um desenhador da palavra que enaltece quando a transporta “para lá / da substância palpável”. Um poeta prolífero: escreve como quem respira, todos os dias a todas as horas. Aliás, escrever é o seu respirar. No livro “À Janela do Teu Corpo”, como dizia no prefácio, que sobre ele escrevi, Joaquim Monteiro bebe a “sede” na “bebedeira azul” do corpo da mulher. Venera-a em toda a sua obra. Desenha-lhe o corpo com a sensualidade das palavras transpostas para o corpo feminino, como um tocador de guitarra explora o tanger das cordas. A evocação ao corpo feminino – tendo como charneira o Amor – é sublime (transforma-se o poeta no corpo que ama) como em Camões se transformava “o amador na coisa amada”.
A poética em «À janela do teu corpo» bebe a “sede” na “bebedeira azul” do CORPO DA MULHER que venera, em toda a sua obra (ao fim e ao cabo em toda a obra composta de quatro partes), se bem que nas suas três primeiras partes – a Mulher e o Corpo, servindo-lhe de charneira o Amor – seja, onde ele converte, com total magnitude, o ventre da mulher em pão, que canta em verso, sobre quem talha a obra numa extensa ode a ela e ao amor. Ela, a mulher, como “romã aberta no (e ao) delírio dos (seus) lábios” é a “água inicial” da vida do poeta que dá luz à noite e ilumina a casa, que sara as feridas abertas e regressa, depois, ao “ponto original da febre” esperando “que o amor a afague, sonhando um novo dia”. A sua evocação ao corpo é de tal ordem sublime, de tal forma contemplativa que a força do ser amado faz transformar o poeta no corpo que ama – transforma-se o amador na coisa amada – transformando o profano (que canta) no sagrado (que diviniza) “na noite de todos os prodígios”. É o acto da entrega que se purifica no absoluto “da raiz” do corpo que é seios, olhos, mãos, saliva, lágrimas, “segredo partilhado e enlaçado” “nas marés do corpo”, “ventre (que) toca o céu / numa explosão de gritos, murmúrios e silêncios.”.
As três partes principais da obra: “MULHER”, “CORPO”, “AMOR” – Mulher que canta; Mulher que inventa para cantar; Mulher que almeja possuir “de maneira inédita e original”; Mulher que diviniza; Mulher de quem conhece a alma e o corpo. Corpo que sublima e engrandece; Corpo que venera; Corpo que é espaço – o espaço que o consome, consumindo-se; Corpo plasmado no Amor, charneira a selar as margens: MULHER-CORPO. É a Mulher-Corpo o leit motiv da sua magnífica obra; digo, é o corpo feminino tornado (como ele diz) na “Sintaxe mais perfeita na gramática reinante” onde “todos os astros se confundem” quando se dá “na forma mais pura da entrega”.
O poeta Joaquim Monteiro no desbravar do corpo feminino “nu e azul” faz trinar as cordas da sua guitarra de loucura no melodiar da voz dos pássaros que arde clamando o amor. É nessa altura que o Corpo – da palavra, aqui em forma da Mulher que canta – se molda ao sabor das horas, que os novos trilhos se abrem com o sabor “da saliva de sal”. Sal: um indicativo dum saber purificador, dum futuro de sabedoria, ainda que por dizer, mas que se augura promissor no Amor. Num contexto bem mais amplo e que abrange toda a sua obra, a expressão “Saliva de Sal”, é aqui tomad

a no sentido purificador do Princípio (começo de todas as coisas e do Universo) e purificador do Amor (o sentido de união) que é, afinal, o significado bíblico do sal: aquele que impede e afasta toda a decomposição, toda a sujeira moral e espiritual que será, se não fulminada, pelo menos decantada pelo fogo que cresce na e com a palavra em toda a sua obra. O símbolo da palavra do poeta se firma descobrindo-se na “secreta vocação da luz” espalhando-se na “planície” do seu ventre com a força de quem ama.

Selam-se as duas margens da parte principal do corpo da obra: Mulher que canta, Mulher que inventa para cantar, Mulher que diviniza nunca esquecendo o real enquanto a canta, Mulher que possui, Mulher de quem conhece a alma e o ser. MULHER-CORPO que sublima e engrandece, que venera, porque o poeta o constrói na perfeição do seu espaço e no domínio do seu tempo, com o seu rosto que lhe habita o Corpo, que lho consome consumindo-se, com o plasmarem-se no AMOR (a selar as margens da MULHER-CORPO), símbolo mais alto e nobre da perfeição. Direi, de toda a perfeição da obra. E no outro corpo se transfigura o poeta, que nos diz: “(…) o corpo que me cobre / (…) deixa-me transfigurado num coma de sentidos / partindo para lá de mim, ao encontro dessa mulher”, quando ao outro se abraça na “noite como se fora dia.” E acrescenta, és “água, (que) desces ao fundo de mim, / para que com a tua sede / possas medir a intensidade / de minhas profundas e inalienáveis águas.”
É a MULHER-CORPO, o motivo poético da sua obra: “procuro nos teus seios o mote do meu poema” e o poeta o constrói com “as palavras que o (…) ventre dita.” É o corpo feminino tornado na “sintaxe mais perfeita, na (…) gramática reinante (…)” de toda a lírica de Joaquim Monteiro. Uma lírica suave onde se plantam fortes metáforas e significativas imagens que são, afinal, o suporte da obra que se quer literária, que se quer e se preza de ser talhada a rigor no labor da forja oficinal para que, um dia, conste dos anais da literatura contemporânea. É que, a não ser talhada com o rigor que o modus literário exige, a obra não iria além de “mais um livrito de versos para entretenimento lúdico do veraneante sentado num banco de jardim à espera que o dia passe”. Mas não!
A obra de Joaquim Monteiro, “À Janela do teu Corpo”, é isso mesmo: a força das “fontes (…) / sobre o corpo da matéria”, quando “o corpo” se transforma em cinzas que “já nem a terra as quer”, mas “o oceano purificado do fogo (…) as deseja”. É a força e a perfeição da palavra que canta a MULHER-CORPO em que o AMOR é o elemento aglutinador, é o eixo-força da razão e do sentir, que busca a sabedoria mesmo que esta se esconda nas “trevas”. Estes três panos da mesma cor e temperatura – a poética de Joaquim Monteiro é duma sensualidade forte, nunca ultrapassando a fronteira do sensual que não fere, jamais entrando na esfera do desembestado amor erótico – dão-nos sempre como corpo poético a MULHER, numa poesia de imagens fortes e inquietas, marcadamente complexa mas perfeitamente entendível, requerendo, contudo, alguma ginástica mental e profunda reflexão a quem se afoite a ir para além da simples leitura e o faça numa perspectiva de interpretação da obra, vendo-a no seu todo significativo, indagando o “como” e o “porquê”, refletindo sobre o texto, em análise ao eu-lírico, vendo e descrevendo o que contribui para o texto ser literário, mas nunca prescrevendo o que gostaria de ver.
É isto que pode contribuir para a diferença entre esta obra fazer ou não fazer literatura: ficar eternamente adormecida nas prateleiras daquele que afirma que o poeta não escreve para ser interpretado, mas o faz para ser ouvido e para ser sentido, ou esperar que alguém a descubra e, sem se ficar pelo mero acto de avaliador, esgote, no seu estudo e interpretação, todas as possibilidades de investigação do texto-autor fazendo-a subir ao patamar seguinte – morar nos anais da literatura.

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