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A ORDEM DO CAOS (OU VICE-VERSA)

REGINA SARDOEIRA
Não faço a menor ideia sobre o que vou escrever hoje, nesta minha crónica. Vai ser um perfeito acaso e uma surpresa também ( principalmente para mim) se conseguir organizar, num todo coeso, um conjunto de pensamentos, traduzidos em palavras, que venham a ter, por fim, algum significado. 
Estou sozinha em casa, no silêncio, silêncio voluntário e consentido, porque não liguei aparelhos de som; e logo que a palavra sozinha me escapou, percebi que estava a ser falsa e injusta: tenho, de facto, duas companhias, as minhas gatas, e sinto que elas apreciam, ao seu modo particular, este companheirismo que, juntas, estabelecemos. 
Estar sozinha e em silêncio, acompanhada destes dois animais que não falam a minha linguagem, a esta hora da noite, nem tarde, nem cedo, é o culminar do meu dia: ou o intervalo para outras actividades que realizarei um pouco mais à frente. Efectivamente, eu não sei estar quieta, e multiplico as acções do meu quotidiano a um ponto tal que aceder, voluntariamente, a uns minutos de relaxamento completo é um bónus que dou a mim própria. Mas sei perfeitamente que, daqui a pouco, vou estar saturada desta quietude e darei voltas e mais voltas em busca de acção. 
Confesso que nem sempre coordeno bem as horas do meu dia. Dou comigo a correr em direcções opostas, a chocar comigo mesma, a ficar embaraçada num certo torvelinho. E, quando procuro fazer a síntese do dia, percebo que o tempo produtivo, traduzido em obra executada, é exíguo. De imediato decido, no meu foro íntimo , estabelecer um cronograma para o dia seguinte e para todos os outros, de modo a estabelecer nexo neste caos e tirar mais partido do meu tempo. Mas, apesar da decisão, continuo a actuar de improviso. 
Creio que este modo de viver se torna perfeitamente evidente nos espaços que habito. Eles têm a minha marca e são, por isso, uma outra maneira de ser eu, por eles deambula uma corrente de cores e de estruturas indicadoras de um ser em contínua mutação, ávida que sou de construir, destruir e reconstruir. Parece que nunca nada está feito: e as paredes já exigem novas cores e texturas, e o chão necessita ser raspado e envernizado ou pintado de outra cor e os móveis ganham um dinamismo que sou eu que lhes vou imprimindo e pelo qual os arrasto daqui para ali ou então os desmonto e suprimo, cansada do seu estar ali. 
Nunca nada está feito de uma vez por todas, há sempre pontas soltas, espaços vazios ou de transição, hiatos a suscitarem a vontade de serem preenchidos ou, simplesmente, a reclamarem o desejo de permanecerem assim mesmo – hiatos. 
Falo do espaço que me circunda e comigo se funde, a tal ponto, que eu própria me reconheço nesse mundo transitório a querer definir-se mas, decerto, não o querendo de facto. Porque a verdade é que estar inacabado é um sinal de vitalidade e de abertura ao novo, ao que há -de vir. Se, eventualmente, sofro com esta perene sensação de incompletude que me conduz a uma permanente busca de mim, se muitas vezes me percebo confundida com esta voracidade pelo novo, pelo destruir para construir, numa época da vida em que a maioria já se encontrou – ou desistiu da procura, mergulhando em variados solipsismos – outras, apraz-me perceber que o que verdadeiramente me constitui como pessoa é este mergulho quotidiano na voragem e na incerteza. 
Há certas noites em que vivo a experiência da insónia. Julgo que tenho sono, preparo-me para o repouso e depois, assisto à vigília absoluta dos meus sentidos, à acutilância do meu pensamento, à necessidade imperiosa de movimento. A cama e a escuridão tornam-se as minhas carcereiras. E não adianta fechar os olhos, procurar a posição do conforto e decidir dormir, não adianta usar truques comuns de apelo ao sono ou exercícios respiratórios ou músicas de embalar. De repente, percebo que tenho que levantar-me e mudar de aposento, percebo que tenho que acender a luz e procurar um motivo para ocupar a mente que, no escuro, dispara em múltiplas direcções. 
Desperto outra vez a casa; e as gatas, já adormecidas nos seus poisos habituais, despertam comigo e com a casa e olham-me surpreendidas. E depois adaptam-se e acompanham-me na insónia. 
No dia seguinte, sei que o acordar será penoso e levarei mais tempo a desencadear o movimento habitual da minha rotina não rotineira. Mas também sei que, à noite, o sono descerá sobre mim como uma onda benéfica de suave esquecimento e que tudo se harmonizará, por fim. 
Ignoro se o que escrevi, afinal, faz algum sentido. Não voltei atrás para reler e, se o vier a fazer, não mudarei seja o que for: porque esta será, sem dúvida, a minha crónica para amanhã.

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