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DIREITO À PREGUIÇA

LUÍS CUNHA
Vi com agrado que foi reeditado um curioso e útil livrinho, que talvez devesse tornar-se de leitura obrigatória nos dias que correm. Chama-se «O Direito à Preguiça» e foi publicado pela primeira vez em 1880, sendo seu autor Paul Lafargue, revolucionário franco-cubano, casado com uma filha de Karl Marx e com quem celebrou um pacto de suicídio que foi consumado em 1911. De uma forma muito simples e até redutora, diria que neste livro se procura devolver um sentido saudável à relação do homem com o trabalho, exercício que não perdeu atualidade, bem pelo contrário. Num fórmula de sonoridade quase bíblica, julgo poder dizer-se que a mensagem de Lafargue é a de que é o trabalho que existe para o homem e não o homem que existe para o trabalho. 
Claro está que este é um velhíssimo debate, de tal forma antigo que podemos remontar à «Bíblia» para encontrar um dos fios da meada. No «Evangelho de Mateus», no conhecido «Sermão da Montanha», são atribuídas a Jesus estas estranhas palavras: 
«Examinai de perto os lírios do campo como crescem! Não trabalham nem fiam (…) Não vos preocupeis dizendo “que comeremos?” ou “que beberemos” ou “que vestiremos”. Todas estas coisas os pagãos procuram. Sabe o Pai vosso, o celeste, que tendes necessidade destas coisas todas. Procurai, antes, primeiro o reino de Deus e a justiça d’Ele; e todas estas coisas vos serão dadas. Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã preocupar-se-á consigo mesmo» (Mateus, 6:28-34). 
Suponho que Jesus concordaria com a ideia de que estes «pagãos» que se entretinham com excessivas preocupações materiais têm muito mais a ver com aquilo que nós hoje somos do que com os verdadeiros «pagãos». Quanto a estes, pelo menos se atendermos ao que nos ensina Marshall Sahlins em «Stone Age Economics», obra publicada no já longínquo ano de 1974 mas que nunca foi, tanto quanto sei, traduzido em Portugal. Apetece dizer que Sahlins mostra com factos o que o «Sermão na Montanha» defendera pela doutrina: de bem pouco se precisa para viver, e trabalhar pouco não significa viver pior nem trabalhar muito significa ter boa qualidade de vida. Com base no que pôde observar, Sahlins constata que os povos ditos «primitivos» precisavam trabalhar bem menos que os «civilizados» ocidentais para garantir o seu modo de vida. A questão está, evidentemente, no modo de vida, quer dizer, na distinção entre o que é essencial e o que é acessório.
Bem sei que o encaminhamento para o reino de Deus, feito por Jesus no seu sermão, é bem diferente de um elogio desbragado da preguiça. Pese embora a diferença, do que se trata, em todo o caso, é da remissão de um pecado. Só que o pecado nem sempre está onde o dedo do cura o sinaliza. A incapacidade de ver como os lírios do campo vivem e se vestem de beleza sem trabalhar nem fiar é apenas um sintoma da nossa incapacidade de nos vermos como parte da natureza, beneficiando do que ela nos dá sem nos perdermos a lutar contra ela, numa guerra que fatalmente a destrói e nos destrói. É pois à mesma cegueira que Jesus e Lafargue se referem, não sendo por acaso que o primeiro evoca Deus logo no início da sua argumentação: 
«Uma estranha loucura está a apossar-se das classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista (…) Esta loucura consiste no amor ao trabalho, na paixão moribunda pelo trabalho, levando ao depauperamento das forças vitais do indivíduo e da sua prole (…). Homens cegos e tacanhos, pretenderam ser mais sábios que o seu Deus; homens fracos e desprezíveis, pretenderam reabilitar aquilo que o seu Deus amaldiçoara»
Mais adiante, para que não restassem dúvidas, Lafargue esclarece: «Na sociedade capitalista, o trabalho está na origem de toda a degenerescência intelectual e de toda a deformação orgânica». Escrevia assim no século XIX mas a razão que tinha mantém-se, acho eu: trabalhamos para consumir o que pelo trabalho produzimos, agarrados num círculo incessante e autofágico que nos rouba a vida, pois nos rouba o tempo que nos coube em sorte viver. Na sua configuração atual, a trabalho reduz-nos a peças cegas de uma gigantesca máquina, uma máquina tão voraz que um dia acabará por implodir por força da sua desmesura.
Desde há muito que a literatura nos dá sinais da cegueira que nos condena. Veja-se no remoto e célebre náufrago descrito em «Robinson Crusoe» (1719), o que sucede quando uma dessas peças cegas que nós somos se solta da máquina que nos aprisiona. O intrépido náufrago mostra o pouco que valemos para lá do trabalho que funda a nossa identidade: invertendo o que acima dissemos, no romance de Defoe é o homem que existe apenas e só para o trabalho. Dizendo de outra forma, Crusoe mostra que somos incapazes de nos pensarmos como homens sem esse trabalho que nos rouba a vida. Sozinho numa ilha, ante a generosidade de uma natureza que o dispensaria de aflições, o náufrago trabalha incessantemente; roda e gira num afã de uma máquina que já não existe e que no entanto está nele como uma pele. Uma disciplina de máquina que se entranhou de forma tão profunda nele e em nós que nos faz acreditar que nascemos para trabalhar, e que essa é a condição mais profunda da nossa construção como humanos. 
Inverter este entendimento, reverter este pecado que, afinal, nos desumaniza, obriga a um esforço contraintuitivo; obriga-nos a lutar contra o que parece óbvio, contra dogmas e doutrinas, contra hábitos e vícios de pensamento. Para a construção do que somos enquanto humanos, o trabalho deve estar para nós como a sede está para a fonte. Tal como a sede é o prazer da fonte, o trabalho deve ser reduzido ao que dele resulte em prazer. Se isto vos parece um disparate ou uma utopia, em verdade vos digo, pecadoras criaturas, que maior atenção deveis dar à loucura que à falsa sanidade. Sobre isto continuarei a escrever da próxima vez.

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