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DEDICATÓRIA PARA GENTE-LUZ

HELENA COUTINHO
Quando eu era criança, do lado de dentro do meu olhar tímido mas largo, os homens assemelhavam-se a gigantes, a heróis de carne e osso, revestidos por armaduras impenetráveis e certezas intocáveis. O meu país parecia ter tamanho de mundo. Um mundo belo, misterioso e infinito. Depois, cresci. Amadureci! E percebi que, enquanto eu aprendia a envelhecer, algo mudou e alterou profundamente o mundo e os seus habitantes. Os homens, desiludidos com os outros e cansados de si, despiram as armaduras, venderam as suas certezas, e sepultaram sonhos e amores, fazendo mirrar aldeia por aldeia, cidade por cidade, pelo nosso mundo fora. Sem sonhos, sem amor e sem alegria, os homens perderam o rasto do sentido da vida e adormeceram, durante décadas, como se fossem árvores, a morrer aos poucos, de pé.
Tal como nas entrelinhas, e entre as notas, do fado, no mundo maravilhoso em que nasci, há quem ainda viva, existências inteiras, sem saber de onde veio e para onde vai. E é feliz assim. Há quem ainda sobreviva agarrado ao presente como se não houvesse futuro, sendo feliz, sem saber. Há, também, os que vivem somente para o futuro, absurdamente distraídos do presente. E os que morrem sem um pingo de vida no pensamento, depois de sobreviverem até ao tutano, tristes, sós, e a entristecer os outros. Na verdade, toda a gente se engana, com frequência, nos sentidos escolhidos e atribuídos durante a travessia social. De forma mais ou menos ingénua, sobrevalorizam-se os fins, à margem dos meios necessários para chegar aos objectivos pretendidos. Assim sendo, sinto-me uma afortunada por ter sido capaz de decifrar alguns enigmas essenciais, ao longo da minha caminhada, e de perceber que os homens afinal não são assim tão gigantes, embora alguns se agigantem, ocasionalmente. Aliás, parece-me bastante evidente que o mundo em que nasci, nunca testemunhou um tempo assim, tão estranhamente estranho e fustigado por ventos e incertezas selvagens que desassossegam e ofuscam o olhar de quem busca os segredos que habitam muito além da zona de conforto comum. E creio, com certeza, que nunca o mundo Terra, recheado de países por dentro, terá albergado gente assim, tão crua e transfigurável, sem eira nem beira moral. Felizmente, o joio semeado pelos que continuam a passar pela vida órfãos de rumo, ainda não descobriu a fórmula capaz de murchar as melhores sementeiras lançadas por gente-luz aos enredos dos outros e da própria História.
Tenho saudades do meu país-mundo e da utopia aventureira da sua gente mas, hoje, como outrora, continuo a acreditar que o nosso olhar é abençoado, à nascença, com os dotes característicos das mãos de oleiro. É, pois, um exercício individual, de sobrevivência, aprender a sentir e a moldar o que vemos e o que queremos, realmente, do mundo, para o mundo, e da vida. Cabe a cada um de nós escolher colher o melhor ou o pior do que conseguirmos semear no nosso tempo e no nosso fado. É fundamental reinventar o que nos poderá proteger o corpo e a alma, recuperar certezas, redefinir (e descobrir) sonhos e reconquistar o mais importante de todos os amores – o amor-próprio. Pois, duvido que alguém, por melhor vivente que possa ser, neste século ou noutro qualquer, consiga sentir o melhor da vida sem antes descobrir e moldar o melhor de si.

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