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É NECESSÁRIO CAMINHAR

REGINA SARDOEIRA
Quando a noite desce e o recolhimento surge como se fosse a síntese do dia, há milhares de pensamentos a povoar a mente desperta e todas as imagens e sensações colhidas na luz se misturam num cadinho insuspeitado. 
O dia esteve pleno de sol, um sol talvez demasiado quente para este Dezembro já com todos os sinais de um Natal que se aproxima, sem fervor, talvez, mas iludido em luzes, sons e cores que, invariavelmente, levam ao consumo. Iludido, sim, porque o verdadeiro Natal é outro. 
Ontem dei início à celebração da festa, portas adentro, e, olhando para o presépio e para a árvore que lhe associei, numa composição onde predominam o branco e o doirado, percebo que, deste modo, fujo ao arco-íris violento das luzes que encontrei lá fora. 
E penso: que tipo de pensamentos e/ou sentimentos terão levado à criação de uma orgia folclórica de muito mau gosto que pretende enfeitar, para a festa, as ruas da cidade? 
De imediato penso que talvez não tenha havido pensamento ou sentimento, talvez tudo tenha sido atirado ao acaso, de acordo com uma certa moda estabelecida algures. E este recolhimento, perto do meu presépio branco com luzes doiradas, mostra-me que os homens, lá fora, perderam decerto a noção dos limites, deixaram de entender que existe um ponto para além do qual, a ousadia passa a ter o nome de loucura. 
Eu própria me sinto enovelada nesta teia insana que percorre todo o tipo de ruas, sejam reais ou virtuais; e muitas vezes questiono se o isolamento a que gosto de aceder, após um dia trepidante, fará de mim a louca da história. É que as pessoas gostam de ajuntamentos e de ruídos, não lidam bem com a sua própria companhia, e, quando estão juntas, invariavelmente falam muito e muito alto. Torno-me reservada, acedo ao silêncio, busco em mim motivos para o deleite do espírito – que é como quem diz, do intelecto, da mente – e, muitas vezes, alcanço a serenidade. Nem sempre , confesso. É que existe uma grande hipótese de ser contagiada pela euforia irrazoável de coisa nenhuma – e não sou de todo imune ao som das fanfarras. 
É então que medito na condição humana, esta que todos partilhamos, apesar das diferenças, e vejo que nos deixamos enganar por aparências de grandezas – que almejamos possuir – por vínculos afectivos – que cremos serem o que nos parecem – por missões e objectivos sublimes – que achamos definirem a nossa razão de estar aqui – na Terra. 
Mas existirão acaso, e realmente, como factos tangíveis, as grandezas, os afectos, as missões e os objectivos que vão norteando a vida dos humanos? 
Por certo surge um momento na vida, uma hora qualquer, em que damos conta que tudo é vão. Mas também é certo que, apesar dessa suspeita, parar no caminho e nada realizar não é a solução da vida dos homens. Somos, inevitavelmente, compelidos a agir, a existência não acontece se não tomarmos decisões, se não estabelecermos metas, se não nos centrarmos em tarefas.
Logo, mesmo sabendo que, por mais que façamos, por melhores que nos revelemos nas respectivas actividades, nada de muito substancial acrescentaremos ao tempo, ao espaço, ao universo, ao cosmos – seres viventes, pensantes e actuantes que somos é-nos necessário caminhar.

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