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ASSIM ME CONFESSO

«Uma coisa garanto porém: durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer de uma grande soma de factos. E são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade – mesmo quando ela é inverosímil.
A minha confissão é um mero documento.»
A CONFISSÃO DE LÚCIO de MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO in OBRA ESSENCIAL, E-Primatur (Letras Errantes Lda), 2016
ALVARO GIESTA 
Hoje a depressão assalta-me e abisma-me, para as profundezas de mim, fazendo-me mergulhar num poço de melancolia, daqueles cuja profundidade não se adivinha e é de tal ordem que do fundo nem me apetece sair. Apetece-me nele ficar “in saecula saeculorum” e acabar, de vez, com o suplício de enfrentar a página em branco. Malditos dias de morbidez! Nem sequer sinais há, hoje, daquele ponto morto existente entre este estado e o outro: aquele-outro em que a exaltação me assalta abruptamente, como a força do motor imóvel que faz mover, e cria em mim estados de euforia – entre um subir aos céus e descer aos infernos – nascendo-me a mais veemente e forte vontade de escrever. Esta morbidez que me afronta não é falta da musa inspiradora, coisa em que não acredito, pois de musas que me habitem para escrever está o meu estro arredado; é um “não-sei-quê” de vazio, gerador de pensamentos mil e desordenados, numa inquietude tal que me paralisa a vontade de criar, escrevendo.
Levei uma noite inteira sentado à minha mesa de trabalho, como as muitas em que aqui me debruço para escrever, numa postura amargurada de meditação à procura da palavra bastante e certa para começar a discorrer sobre um dos temas, dos muitos que em torvelinho me enevoam a mente nestas alturas; quão difícil é seu nascimento das areias movediças que a povoam!… mas, quando nasce a palavra saem de mim, de rompante, momentos quase mágicos de criação! É catastrófica esta melancolia, quase mórbida, que me impede, por vezes, de criar. Catastrófica e desoladora. Valha-me, ao menos, a faculdade de reconhecer, em mim, que, por enquanto, este estado mórbido (ainda) é passageiro; aflige-me a possibilidade de se tornar definitivo. Pois me (re)conheço como sendo dois no mesmo corpo como se de duas formas de ser eu fosse composto, embora ainda (me) governe aquela em que a vontade domina. Sou aquele em que, ultimamente, a melancolia já me vai invadindo sem misericórdia as entranhas, mergulhando-me num poço negro de recordações, algumas já difusas; mas, também o outro de cujas entranhas saltam bastas vezes, quase miraculosamente, as ideias e fazem fluir e crescer obra.
Eis que, de repente, desse ponto morto a ideia surge como se eu levitasse: idealizo-me, hoje, o contador de histórias fantasiosas, que sejam o reflexo do absurdo, esse realismo mágico e maravilhoso narrado em textos inverosímeis e imaginários, distantes da realidade dos homens, embora utilizando o nosso próprio mundo como ambiente adequado ao desenvolvimento das tramas. Sempre, assim, em tudo o que faço na vida: contemplativo mas repentino. Contemplativo, como se submergido de miragens, com o pensamento divagando por paragens desconhecidas – não sei se próximas, se longínquas, pois nunca as reconheço em minhas visões apocalípticas – tantas vezes habitadas pelo meu espírito em divagações; repentino, quando o estro, até aqui indolente, explode em força anímica às vezes difícil de conter… assim enfrento e venço o tenebroso pânico da página em que me debruço.
Como hoje: idealizo-me (sem que tenha a certeza de alguma vez concluir obra) o tal narrador de histórias absurdas ocorridas no nosso próprio mundo, em que os seus narradores-personagens são bichos (umas vezes monstros dominando o outro ser pela força, outras inofensivos utilizando a habilidade matreira para reinar e viver), numa visão sugestiva e apocalítica do que é a decadência da humanidade. E é neste pensar, quase esquizofrénico que penso histórias sem cabimento, quase inimagináveis – as tais histórias absurdas – ocorridas num mundo fantástico povoado por estranhos seres no lugar dos homens, pintando uma realidade distorcida: neste mundo de acontecimentos improváveis, embora tão real, onde somos animais e monstros, cegos e loucos, caminhando sem ver, num mundo de injustiça, cegueira e ilusão; uma realidade em que pessoas mundanas ignoram a Justiça e o Bem; onde, o ser “homem” vive um mar de futilidades sem fim no predomínio da inveja, do caos, da violência, da falsidade – onde o absurdo grita a “pergunta-resposta” do nosso fim trágico, na voz dos bichos-monstros que de nós próprios criámos, em que, de vontade própria nos transformámos. E a pergunta inpõe-se-nos, a nós, humanos que nas estórias nos vamos metamorfosear em seres irracionais: seremos nós, bichos, o futuro da humanidade, seremos nós, criação vossa, a governar o vosso próprio mundo, seremos nós, no vosso lugar de humanos, metamorfoseados bichos pela vossa imbecilidade em não reconhecerdes que a humanidade caminha, a passos firmes e decididos rumo à autodestrição – seremos nós, em tais bichos-monstros por vós-homens transformados, que teremos por missão impedir o autoaniquilament

o da humanidade?!

Nesta realidade distorcida, somos animais e monstros, cegos por não querer ver a nossa própria destruição, loucos caminhando, cegos, num mundo de ilusões; nesta futilidade contemporânea onde pensamos que somos alguma coisa, não sendo, na realidade, nada, porque metade da humanidade vive em função dos outros – e esse será o nosso fim trágico! Sonho estórias de entretenimento literário sobre uma realidade apocalítica com os seus monstros e realidades absurdas, como se já vivêssemos num mundo que já foi destruído, para criar um leitor de visão de imagens impressionantes, que conduza até os desinteressados na leitura a um interesse subconsciente pelo desordenado desconhecido.

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