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A UNIVERSALIDADE COMO CRITÉRIO ARTÍSTICO

REGINA SARDOEIRA
Não é fácil acertar nos critérios exactos que definem a obra de arte, por oposição aos produtos expostos pelos escaparates do mundo, com pretensões a tal. 
Há quem diga que semelhantes razões são subjectivas, que o gosto, por si só, define o valor de uma criação, seja pintura, romance ou poema. Porém, uma pequeníssima reflexão, levar-nos- á a abandonar o gosto, como critério, já que a maioria das pessoas não reúne condições para aferir acerca de uma questão tão complexa. 
A perfeição técnica é muitas vezes usada como referência do valor de uma obra. E assim, todo aquele que for capaz de reproduzir, com traço certeiro, as linhas de um rosto ou os cambiantes pictóricos de uma paisagem será tido como artista – porque imitou na íntegra aquilo que observou. Mas será a arte mera imitação ou simples requisito técnico? 
Nesse caso, um romancista que fosse capaz de contar uma história real, com a gramática correcta e as descrições exactas e objectivas dos pormenores da trama ou que, por outro lado, seguisse uma certa corrente literária em voga, imitando um estilo já consagrado, deveria ser visto como um artista. 
Ou ainda, alguém que, por esta ou aquela razão, produzisse obras cuja divulgação alastrasse rapidamente, um músico que atingisse os tops, um escritor de best-sellers e todo aquele que, nesta ou naquela área, reservada também aos artistas, agradasse a multidões, tornando-se um ídolo, esse seria, sem dúvida, tido como artista. 
Mas serão, quer a perfeição técnica, quer a adesão das multidões, os critérios por excelência da atribuição do título de artista àquele que produz obras? 
A multidão é anónima e nada representa enquanto aferidora dos valores: uma mera curiosidade, um espectáculo banal, um motivo medíocre ou escandaloso podem mover as massas, sem que isso assuma grande significado; a técnica pode aprender -se e treinar-se, a ponto de o técnico ser capaz de imitar o artista na perfeição. 
Kant, na sua Critica do Juízo, apresenta o critério capaz de julgar a obra de arte e designa-o como subjectividade universal. Conceito aparentemente contraditório; e contudo não encontrei até agora um modo mais adequado de caracterizar a arte. 
O juízo estético é subjectivo na medida em que é formulado por um sujeito e decorre da apreciação da obra, através de si; mas só a universalidade lhe garante a autenticidade e a permanência, na qualidade de valor, pelos séculos fora ou para sempre. 
De nada serve, no que à arte diz respeito, ser um técnico exímio ou empolgar multidões: a arte é a obra cujo valor resiste à efemeridade e pode permanecer apagada, até que o tempo certo e o sujeito exacto lhe descubram a universalidade. Desse modo persistirá e dará de si testemunho perene.

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