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NOTA SOBRE AS CARTAS DO POETA RAINER MARIA RILKE

MARIA ISABEL ROSETE
Cavaleiro solitário do poema, imerso na sua grande solidão interior, onde se absorve e contém durante quase toda a sua vida, sempre doente do corpo, em paciência com as mazelas do seu pobre coração despedaçado em des-amores, o poeta Rainer Maria Rilke (Praga, 1875 – Suíça, 1926) também se dedicou à escrita epistolar. Destacamos: “Cartas Natalinas à mãe”, “Cartas sobre Cézanne”, “Cartas a um jovem poeta” ou “Apaixonadamente” – um conjunto de cartas dirigidas à “sua” Magda Von Hattingberg” – em cujo conteúdo nos fixamos, hermeneuticamente, nesta nota. Rilke, sublinhe-se, é tanto um escritor de poemas como um escritor de cartas, também estas enlaçadas na mesma sensibilidade poética que caracteriza o espírito deste eterno viajante pelas múltiplas paragens deste Mundo imenso, que nem sempre o acarinhou.
Ler “Apaixonadamente”, com os olhos de Rilke e com os nossos, significa: 1. assistir ao “Aberto” de um espírito iluminado exposto dialogicamente, sempre pronto a manifestar o mais ínfimo pormenor de cada pedaço de si, a conduzir o leitor a rever-se em múltiplos dos seus estados anímicos, nunca antes meditados; 2. escutar o pulsar, cada vez mais vivo e intenso, de uma interioridade dada na inquietante estranheza do ser, do pensar, do estar, do sentir. Aliás, confessa o Poeta, nada é pensado antes de ser sentido. É o coração que sente. É o coração que pensa e expõe pelas palavras que a linguagem lhe disponibiliza, mesmo que de modo insuficiente, o que no seu íntimo aflora.
A ideia comummente perfilhada de que a razão é o “capitão do corpo”, jamais se enquadra no universo conceptual rilkeano que eleva, aos mais altos picos, as margens do sentir. Assim o escreve. Assim lê e vê o Mundo, qual espaço tão vasto que o rodeia e que sempre o atrofia. O Mundo é claustrofóbico para os espíritos mais sensíveis, para os seres puros. Já o havia afirmado Sófocles pela boca de “Antígona”. Também ela é um ente “atopos”: sem lugar, sem casa, sem pátria. Um ente inquietante, diria Martin Heidegger, que vê na morte – esse outro lado da vida que não se encontra virado ou iluminado para nós – a sua autêntica morada, depois do abandono do Mundo e dos Homens.
Extravasando este horizonte restrito da mundaneidade, desponta para o poeta, num ápice, um “amor indizível” que os corpos, em caloroso sentir, em feliz re-união, desejam manter eterno. Este amor «tornar-se-ia semelhante ao que se tem pelos mortos. Porque acontece que quando um homem conhece a sua felicidade e quer ficar com ela, ela morre, e ei-lo que se transforma como uma mosca em âmbar, um pequenino ponto negro e morto no bonito azul da sua felicidade morta.» Resta, portanto, a evasão. Subsiste o silêncio. Reina o indizível, o inefável, quando as palavras já não amolecem mais o coração dos homens; quando as palavras deixam de possuir essa “poção mágica” da Lira de Orfeu, eterno amante dos dois reinos, o da vida e o da morte, que até Hades foi capaz de comover.
Em «Apaixonadamente» reúnem-se as confissões abertas da alma de Rilke, em ininterrupto desassossego. Sempre na ânsia de comunicar com esse outro que realmente ama e que, tão-só por isso, pode compreender, com a clareza adequada, os seus estados de solidão, as suas angústias, o seu sofrimento e, até mesmo, o seu silêncio. O silêncio sente-se, pressente-se, nas entrelinhas. Emerge no vazio presentificado pelas pausas da escrita, pelos hiatos frásicos, onde tudo se torna manifesto, sobrenaturalmente presente, pelas fendas das palavras, cuja plenitude faz nascer “todas as angústias e aflições da vida”. Tudo o que é vida, existência e mundo, situam-se “sobre uma cena mais elevada, onde uma constelação e um deus se encontravam frente a frente, silenciosos.
Rilke experimenta essa fragilidade da linguagem e do dizer do seu silêncio. A potencialidade que a habita e habilita a exprimir de um modo mais autêntico, fidedigno ou simplesmente encantador, o seu sentir impaciente, fatigado, esgotado, que atravessa as montanhas do seu coração. Nelas ecoam todos os sons. São os lugares miraculosos de todas as escutas. Por elas caminhou, em constante sobressalto. Foi salvo pelos Anjos, captadores dos vários graus de angústia, das «ultra-radicações de felicidade que escapam aos humanos». Mesmo limitando-se a exprimir tudo o que lhe vem de cima, o seu sentir ferve no colo das suas próprias contradições. Só Deus pode saber se consegue fazer entender-se, quando o sentido do conjunto lhe escapa.
Mantém a sua “alma solitária” no seio da imensidão do universo linguístico. Um “impulso infinito de dádiva” abraça, do mesmo modo que um “sobressalto fatal”, vagueando no abandono sem limites, traçado pelo “pressentimento do estuário infinito”. Apesar de ter aberto, por toda a parte, a sua alma aos mais poderosos espectáculos da Natureza e dos Homens, o seu íntimo permanece impregnado de “culpabilidade e de tormento”. Perdeu “todo o controlo, toda a segurança própria”, inclusivamente nesse recôndito lugar do seu coração que sempre havia sido, até nas piores vicissitudes, a sua Pátria.
Uma inquietante estranheza vive dentro de si e em todos os amargurados dias da sua vida. Sente-se tocar-se com as mãos de um outro. Sente-se permanecente numa “habitação miserável”. As belas arcadas edificadas pelo seu espírito “assentam sobre a mais precária das bases”. Em frágeis alicerces de madeira se apoiam, tão-só compostos por “duas ou três pranchas”. Talvez sejam estes in-sólidos fundamentos que o impeçam de construir uma nave, ou uma torre, «onde devia ser içado o peso dos grandes sinos (pelos anjos…)». Rainer Maria Rilke – qual “Zaratustra” sempre portador de uma mensagem outra – tão pensada quanto sentida – carrega consigo uma mundivisão determinada, reflectora dos interstícios do Ser e do Homem, capaz de penetrar na interioridade das coisas, de as des-velar no “Aberto”.
Em «Apaixonadamente» manifesta, precisamente e a um tempo, a essência do homem e do artista, alicerçada em múltiplas inquietações existenciais. Esta obra não é um mero relato epistolar dos estados de alma do Poeta, ou do seu modo visceral de sentir o Mundo e todas as coisas que o integram. Epifaniza, mormente, o nascer da sua escrita, os momentos que vive em estado de graça, sempre que é assaltado pela lucidez das palavras. Todavia, a sua arte não se enraíza no profundamente humano. Por isso mesmo se auto-interroga: «devo manter-me afastado dele (do humano), ignorá-lo? Nunca vir a conhecer a simples e inocente misericórdia, a serenidade e a energia íntima que ele tem para me dar?».
A resposta do Poeta é tão clara e tão contraditória, quanto as interrogações que ao seu espírito assomam: «sim, enquanto o humano não me disser respeito, tenho para com ele uma compreensão amigável, é-me, mesmo no seu horror, tão familiar que tenho a impressão que seria capaz de o retomar, de o amar». Contudo, de cada vez que esteve comprometido com o humano, ligado a ele, ficou paralisado, falhou, fugiu, com pavor, sem saber qual o rumo da sua evasão. Por fim, recusou tudo. Absolutamente tudo o que é humano. Ir ao encontro dos homens, confessa, exige um esforço suplementar, que o seu espírito não suporta mais. Caminhou para Deus, que esforço algum requer à essência sã da sua alma. Amou-o, silenciosamente, como assim o determinou a direcção imperante da sua natureza.
Escuta, então, os infra-sons, sempre que remove as entranhes da Terra, silente, à espera de acolhimento no seu coração, tão amplo quanto o espaço indeterminado do Mundo. Ama o Aberto, os Anjos, as Fontes e as Rosas. Percorre os “caminhos que não conduzem a parte alguma” no seio das florestas desertas, abandonadas pelas mãos dos homens, jamais salvaguardantes dos perigos castradores que aniquilam o seu ser originário. Está aí, em todos os lugares, apesar de ter escolhido ser “um guerreiro solitário do poema”, tal como se auto-retrata na obra “Querida Lou”, uma série de cartas escritas, em catadupa, a uma mulher que jamais vira, embora lhe peça socorro, ao mesmo tempo que a previne dos riscos que correrá se, algum dia, se vier a encontrar com ele. Não deixa, porém, de imaginar o seu primeiro e derradeiro encontro com essa “figura” – nele revê toda a sua vida, a sua concepção de amor não-vivido, num paradoxo quase infinito. São, na verdade, cartas-confissões, onde vemos nascer a indelével possibilidade de uma outra forma de ser do amor, quiçá inaudível, quiçá inconcebível, quiçá inexplicável e incompreensível: um amor que ultrapassa os limiares do humano; um amor outro que só o Poeta sabe sentir, nessa relação distante que é tudo e nada em simultâneo.

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