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UNDERGROUND – ERA UMA VEZ UM PAÍS, DE EMIR KUSTURICA (1995) – MANIPULAÇÃO E DESENCANTO

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
Underground – Era uma vez um país, de Emir Kusturica é uma história de uma profunda manipulação e um eterno desencanto. É uma metáfora da ditadura e do desencanto pós-ditatorial.
O símbolo mais forte de Underground, a justificação do próprio título, é a cave, o abrigo subterrâneo onde as pessoas foram colocados em busca de sossego, para fugir aos bombardeamentos e às rusgas da Gestapo. Situada na casa do pai de Marko, em Belgrado, a cave é a entrada num processo de clandestinidade, uma forma inicial de resistência, mas torna-se, posteriormente, numa forma terrível de manipulação. Ao encerrar a comunidade na cave do pai, Marko, o manipulador supremo, orientou um quotidiano específico, de múltiplos espaços, centrado num trabalho exigido: o fabrico de armas para a resistência.
Na cave de Underground, a comunidade, manipulada, leva uma vida absurdamente normal. Estão todos unidos nos pequenos gestos do quotidiano, homenageando Marko, sem saber que estão a ser manipulados, convencidos de que o exterior é o inimigo. Marko manipula toda a comunidade presa na cave: fornece a alimentação, o vestuário, controla os horários, o tempo e as emoções perante a História. Através de todo um equipamento radiofónico e fílmico, Marko constrói notícias, difundindo imagens de operações militares, discursos de Hitler, canções de nacionalismo e de resistência. Só uma mensagem lhe interessa divulgar: a manutenção da ocupação alemã, a continuação da Segunda Guerra Mundial, vinte anos depois de ela ter efetivamente terminado, e o incitamento à resistência.
Underground concretiza uma das mentiras mais terríveis infligidas à comunidade da cave: a manipulação do tempo. A ação inicia-se em Belgrado, em 1941. Em 1944, durante a canção de homenagem a Tito, um velho de barbas atrasa o relógio cerca de três horas e meia, afastando-se posteriormente com ar resignado – “Em vinte anos, tirei-lhes cinco anos a todos. Imaginas o que são cinco anos a menos dentro de uma cave?”
Jovan, o filho de Blacky e Vera, nasce no escuro do subterrâneo, iluminado por uma ténue luz acionada por uma bicicleta. Não conhecerá outra luz natural até à idade adulta. Ivan, o irmão de Marko, sempre acompanhado de Soni, o seu chimpanzé de estimação, é um dos mais expressivos prisioneiros deste regime.
Uma terrível explosão, com origem num também simbólico tanque, provoca a saída dos prisioneiros e o eclodir de uma verdadeira consciência acerca da perversidade ditatorial. Os prisioneiros saem mas o contacto com o exterior é diverso.
Jovan nasceu na cave, viveu sempre no escuro, sem luz natural, e o seu conhecimento construiu-se a partir de relatos, de imagens cinematográficas, de transmissões de rádio e de desenhos. A saída para o exterior é uma nova aprendizagem. Jovan assusta-se muito com todos os ruídos, faz perguntas contínuas. Há um contacto traumatizante com a realidade. No escuro da noite, confunde um veado com um cavalo. Quando o pai o corrige, ele responde: “Eram assim os cavalos que me desenhavas”. O desencanto provoca o desespero e Jovan, procurando incessantemente a sua jovem esposa, morta por afogamento, suicida-se.
Ivan foge do esconderijo, após a explosão, e corre desesperadamente à procura de Soni perdido durante a confusão. Após uma elipse temporal que vai de 1980, ano da morte de Tito, até aos anos 90, aparece Ivan em tratamento, numa clínica de Berlim. É aí que se apercebe manipulação de que foi alvo, da violência da ditadura e da posterior guerra civil que devastou a antiga Jugoslávia. Nos subterrâneos de Berlim, Ivan e Soni procuram a saída para a Jugoslávia. Reparam, a certa altura, que escorre sangue pelas paredes do túnel. Atingem a superfície através de uma espécie de poço e encontram a sua pátria devastada por uma violenta e cruel guerra civil – o chão está juncado de armas, fogueiras, execuções sumárias e cadáveres mutilados. Perto de uma casa em ruínas, Ivan toma consciência da traição de Marko e do tráfico de armas por ele controlado. Enojado, Ivan bate compulsivamente no irmão até à morte, junto a um cruzeiro onde Cristo, crucificado, está virado de pernas para o ar: as imagens convencionais são subvertidas na crueldade da guerra. Ivan é a personagem do desencanto.
Em Underground, no plano seguinte ao do crucifixo, foca-se uma igreja em ruínas, onde o sino começa a tocar. O plano seguinte mostra Ivan enforcado na corda do sino, perante os gritos desesperados de Soni. Da torre da igreja, no meio de uma névoa, sai um ganso a voar. Ivan identifica-se com o ganso que se liberta através de uma alma que voa. Ele não venceu a luta contra o poder e a manipulação, mas o ganso libertado irá substituí-lo.
O suicídio de Soni não é o fim de Underground. As personagens mortas ao longo do filme encontram-se no fundo do rio, numa dança surrealista. É o reencontro post-mortem de todos os amigos, num corte totalmente definitivo com os ódios do passado. Enquanto dançam, o pedaço de terra onde se encontram separa-se e voga pelo rio, como a Jangada de Pedra. A frase final aparece no écran: “Esta história não tem fim”.

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