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JÁ NÃO SOMOS NATUREZA

REGINA SARDOEIRA
Aproxima-se o Inverno, palavra que continuo a escrever em maiúscula porque nomeia uma época do ano – e qualquer nome merece esse atributo -, e observo como os dias minguam e o sol abandona o firmamento cada vez mais cedo. Curiosamente, quando a hora exacta do solstício chegar, os dias começarão a crescer, insensivelmente, a princípio e, a medida que o solstício oposto se avizinha atingirão o seu máximo, para imediatamente começarem a declinar. 
Escrevo deste modo, sem preocupações de exactidão ou rigor científico, porque o que me traz a este tema é a verificação de que, na natureza, tal como na vida humana, o auge pode coincidir com o declínio e vice-versa. Todos sabemos que o Inverno traduz o rigor do frio e da desolação com árvores despidas e céus encobertos. Apesar disso, por debaixo dessa crosta cinzenta, para além da neblina ou em harmonia com a violência da chuva, toda uma vida nova se acoberta e ganha energias para brotar, lentamente, até explodir na orgia primaveril. Não vemos essa espécie de milagre acontecer, porque vivemos acima da crusta ou perdidos em vários bulícios; mas a verdade é que, na natureza, a desolação e a morte são aparências ou momentos necessários para outras eclosões vitais. 
É por essa razão que, sendo nós seres da natureza, não percebo que ousemos sentir que somos velhos e que a seiva que nos corre na carne e a que chamamos sangue vai perdendo qualidades, com o tempo, tornando-se incapaz de ressurgir. Tudo, afinal, permanece em nós, tal como a força que fará brotar a flor e depois o fruto. Tudo o que somos hoje contém o que éramos e permanece a essência que faz de nós a especificidade individual que nos distingue. 
Porque decidem então os homens arrumar a energia num subterrâneo fechado a sete chaves, a partir de uma certa idade, e declarar que estão velhos e já não podem ser o que costumavam quando o nimbo da juventude lhes doirava o rosto? Porque desistem de apelar ao mundo novo que neles pulsa e depõem armas, persistindo no Inverno de si mesmos? 
Sei bem que a todos acontece ver transformações em si que conotam com a velhice. É o espelho que tem culpa e os olhares dos outros e o calendário e a certidão de nascimento e estigmas sociais de muitos géneros. Mas não aceitarão os homens, com demasiado conformismo ou com mal disfarçado desespero, essa condição? 
Soarão estranhas estas minhas palavras – mas eu não acredito na velhice humana. Não vejo razões para que, de um momento para o outro, alguém desista de si mesmo porque já não tem idade para ser quem é. Creio que se trata de uma mistificação e de um atestado de menoridade que passamos a nós mesmos. 
Estipulou-se que a vida humana cresce até atingir um certo auge. E depois, inevitavelmente, declina. Mas essa ruptura energética dar-se-á mesmo ou seremos tentados (ou forçados) a desistir porque a sociedade a tal obriga? Será a designada velhice um decréscimo vital da nossa natureza ou a súmula de atentados à vida que vamos fazendo porque, sendo humanos, realizamos percursos que nos deterioram a seiva e a carne? 
Tive um gato que morreu quando tinha quase dezassete anos. Era idoso, portanto. Se fosse homem, passaria o tempo estiraçado no sofá, usaria bengala, queixar-se-ia de mil infortúnios, usaria óculos…o meu gato, não! Toda a vida correu e brincou, toda a vida subiu para o alto dos armários, toda a vida teve o bom aspecto de sempre. 
Mas morreu! – dir-me-ão. Sim, aconteceu-lhe a doença e talvez que a própria enfermidade que o matou houvesse sido causada pelo factor humano a que foi sujeito desde que nasceu. Mas, no próprio dia da morte, esteve calmo e quieto, com o aspecto de sempre. 
E eu pergunto: porque mantêm os animais este fluxo energético ao longo de toda a vida e nós, humanos, desistimos da vitalidade e damos entrada à decadência? Porque não somos capazes de avançar no tempo, de solstício em solstício, sabendo que aos dias pequenos suceder
-se-ão os grandes, que as árvores nuas se encherão de folhas e o frio será rendido pela mornidão? 
A natureza não tem, para si, este conceito decadente que os homens inventaram. A natureza sabe renovar -se, buscando poderes e energias por debaixo do húmus e florindo continuamente. A natureza não sabe ser velha. Não inventou a velhice. 
E então, vendo velhos e velhas manquejando e sofrendo pelas estradas do mundo ou escondendo a ruga da pele como se de um estigma se tratasse, eu concluo que já não somos natureza.

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