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TRIBUTO AO “SENHOR GULBENKIAN”, UM HOMEM BOM

+PROF. Aníbal de Jesus
Crónica de Miguel Teixeira
Na tarde do dia de natal de 2016, despedi-me de um amigo e um dos cabeceirenses que ao longo de várias décadas do século XX exerceu, como representante e primeiro responsável pela Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian uma ação extremamente meritória no apoio à leitura levando o livro às freguesias e aldeias mais recônditas de Cabeceiras de Basto, incentivando hábitos de leitura em centenas de jovens e contribuindo para “democratizar” o acesso à Cultura, num concelho tradicionalmente “pobre, pequeno e com profundas marcas de interioridade”.
Tudo começou em 1958. O Serviço de Bibliotecas Itinerantes (SBI) foi criado nesse ano pela Fundação Calouste Gulbenkian, segundo sugestão de Branquinho da Fonseca.
Almejava abranger todo o território nacional, incluindo os arquipélagos. Tinha como objectivos “promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço.” O público a quem o serviço se dirigia era principalmente o de menor acesso à educação e cultura, habitando nas regiões mais desfavorecidas e estendendo-se a todas as faixas etárias. Todavia seria entre o público mais jovem que este projeto teria mais acolhimento e sucesso. Quis o destino que um pequeno concelho do interior do Minho como Cabeceiras de Basto fosse contemplado com uma biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, que circulava ainda por concelhos vizinhos. A inesquecível viatura cinzenta de marca “Citroen”, que estacionava quinzenalmente às sextas-feiras na “faixa do meio” da Praça da República começou a circular nas Estradas de Cabeceiras de Basto no final dos anos 50, transportando livros e parando nos principais centros urbanos das freguesias, abrindo as suas portas traseiras e permitindo aos jovens e menos jovens o contacto com os grandes clássicos da literatura mundial e com as melhores coletâneas de banda desenhada. 
O Professor Aníbal de Jesus, para mim, será sempre o “Senhor Gulbenkian” um verdadeiro “gentleman” de trato afável, extremamente culto e educado que me possibilitou desde o final dos anos 70 do século passado, o contacto com os melhores romances e autores da literatura mundial. Devido a ele e à Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, desde muito cedo pude ler “As aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn de Mark Twain, “O Conde de Monte Cristo” e “Os três mosqueteiros” de Alexandre Dumas, “Os Miseráveis” de Vítor Hugo, bem como o drama, as aventuras, cumplicidades e humanismo do “Gaitinhas” e “Gineto” e de um grupo de meninos de um bairro pobre junto ao Rio Tejo excecionalmente narrado por Soeiro Pereira Gomes nos “Esteiros”, a sua obra prima. E por isso, considero que fui um “privilegiado”. Tenho para mim que o nosso destino como seres humanos é em grande parte moldado pelo nosso esforço e determinação, pela luta e persistência na prossecução dos nossos objetivos de vida, mas há também uma parte importante que pode facilitar ou dificultar esse caminho e que depende das pessoas com quem nos cruzamos ao longo da nossa existência e que podem exercer uma influência positiva naquilo que somos, como transmissores de valores e princípios. Ora o Professor Aníbal de Jesus foi essa pessoa para o meu pai, acabando indiretamente por influenciar positivamente a minha vida e da minha família. Em Abril passado e depois de uma visita que fez ao Professor Aníbal no Centro Social e Paroquial de Cavez, onde se encontrava ainda lúcido, mas já debilitado fisicamente, o meu pai Gaspar Teixeira contou-me uma história que me deixou sensibilizado e que eu não conhecia. Por alturas de 1959/1960 , nas férias escolares do Colégio de S. Miguel de Refojos, com 15 anos de idade, colaborava voluntariamente com o Professor Aníbal de Jesus e com a biblioteca da Gulbenkian, nas suas incursões pelo interior do município de Cabeceiras. Tinha a responsabilidade de registar as devoluções e as saídas dos livros e ao final do dia era convidado pelo Professor para jantar na sua Casa do Esqueiro, continuando aí as suas conversas em refeições exemplarmente confecionadas pela D. Alda , sua esposa. Ora, quando o meu pai fez exames do antigo 5º ano do Liceu (hoje 9º ano de escolaridade), no Liceu Sá de Miranda em Braga e obteve aprovação com excelentes notas, o Professor Aníbal procurou a minha avó Deolinda e disse-lhe “que era uma pena que o rapaz não continuasse os seus estudos até à Universidade, com as notas que tinha e com as capacidades que revelava”. A minha avó Deolinda, que já estava a visualizar o meu pai como funcionário da mercearia do Sr. Aferidor na Praça da República, agradeceu ao Professor Aníbal a preocupação com o futuro do rapaz e respondeu que percebia tudo, mas a família infelizmente não tinha condições económicas para que o meu pai pudesse estudar em Braga e fazer o antigo sexto e sétimo anos do liceu. Além disso, em casa havia “sete bocas para alimentar e outras prioridades”. O professor Aníbal replicou que “a Fundação

Calouste Gulbenkian tinha um programa de bolsas de estudo a nível nacional, destinado a apoiar jovens com excelente aproveitamento escolar provenientes de famílias com limitadas capacidades económicas” e que “o Gaspar cumpria os requisitos exigidos”, pelo que iria “preencher os papéis e requerer a bolsa de estudo”, ao que a minha avó concordou. Com efeito, a bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian haveria de ser deferida, permitindo ao meu pai concluir os seus estudos secundários e a licenciatura em Ciências Geológicas pela Universidade do Porto em 1967, tendo sido “bolseiro da Gulbenkian” até ao fim dos seus estudos. O professor Aníbal podia não ter dito nada à minha avó. A minha avó não percebia nada e seguramente o meu pai percebia muito pouco de “bolsas de estudo”, nem da parte burocrática que era necessário transpor para que a candidatura fosse apresentada. Vivíamos então num país, cujo regime vigente “torcia o nariz” à “mobilidade social” e numa época (início da década de sessenta) em que fazer os estudos secundários e superio

res era um “luxo” a que só as famílias de bons recursos económicos podiam almejar, o que não era o caso da minha. No entanto, o professor Aníbal não desistiu e ao assumir essa atitude, acabou por condicionar positivamente o futuro do meu pai e consequentemente o meu e da minha família. E isso é algo que eu não posso esquecer estando eternamente grato, assim como a minha família a esta figura que exerceu durante a sua vida uma notável ação cultural em Cabeceiras de Basto.

Que a sua alma descanse em paz.

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