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O ANO NOVO

REGINA SARDOEIRA
Muitas palavras têm sido escritas (e faladas de viva voz) a propósito destes dias de festa cujo calendário termina no dia 6 de Janeiro. E eu sei, de uma certeza íntima, que nenhuma delas traduz, verdadeiramente, o seu valor intrínseco. Ao mesmo tempo, creio firmemente que toda a gente o sabe, tanto como eu, toda a gente percebe que, quando a meia noite anuncia o novo ano, um algarismo muda no final do número que enunciou o anterior e depois o tempo corre na rotina de sempre. 
Mesmo aqueles que festejam, em família, com amigos, no meio da multidão ou em locais de diversão, repletos de música, bebida e luzes intermitentes, fazem-no para se alienarem umas horas, posto o que, molemente, regressarão à vida de sempre. 
Fazem-se planos, tomam-se decisões, espera-se que o novo ano traga as alegrias e os sucessos que o anterior sonegou. Mas a rotina penetra na pele e no sangue, os antigos apelos acodem à memória e, em breve, nenhum plano vai em frente, nenhuma decisão é tornada acto e os acontecimentos, bons e maus, revelam a ordem sistemática do tempo e da vida dos homens. 
Nem sempre o mundo humano viveu neste ludíbrio; nem sempre os festejos do ano novo se revestiram deste carácter profano e fútil; nem sempre a bebedeira, a orgia, o banho de mar, e outras acções, levadas a cabo ainda hoje, foram, como são, desprovidas de conteúdo. 
Se perguntarem a qualquer um porque se despiu e tomou um banho de mar, no gelo da primeira madrugada do ano, ou porque perdeu a razão e os sentidos em festas desmedidas, a resposta que obterão será: Porque é tradição, ou hábito ou porque os meus amigos o fazem. 
E contudo, os povos primitivos, tão primitivos que remontam à mais ancestral humanidade, acreditavam realmente que o Ano Novo permitia o (re)nascimento do Homem Novo, liberto o homem velho, nos actos ritualísticos da passagem, de pecados e faltas e gravando os seus passos na Nova Era, realmente purificado. O banho representava, nessa hora, a libertação de uma espécie de sujidade total e que totalmente era limpa na imersão sagrada. Sagrada, por oposição às restantes lavagens profanas de todo um tempo ainda não resgatado; sagrada, porque vivida em união mística com os deuses e com a comunidade – pilares da substância humana desse tempo. 
Na véspera da transição, os excessos eram permitidos, as orgias tribais, consentidas pelos deuses e a euforia simbolizava o vazar por inteiro da maldade e do pecado. Quando se dava a catarse, a comunidade experimentava a paz e a alegria decorrentes de tal esvaziamento. 
No dia do Ano Novo uma nova Humanidade nascia, de facto, jovem, forte e ungida. 
Somos, actualmente, a mesma humanidade. Temos festas idênticas e passagens e rituais e celebrações. Proferimos muitas palavras, construímos, copiamos e repetimos até à exaustão dezenas de ladainhas pelas quais intentamos definir etapas. Comunicamos. Ou julgamos que comunicamos. E contudo, nada, nesses tópicos batidos, nos exprime verdadeiramente. 
Objectar-me-ão que assumo uma posição pessimista, que as festas de fim de ano (e outras) servem para melhorar a humanidade na união, instituindo a paz. Uma união e uma paz obtidas, em crescendo, no dealbar de cada ano: porque, afinal, já não somos hordas bárbaras de primitivos em orgias desenfreadas, rumo à catarse do banho ritual. 
Não somos?! Temos, claramente, um modo diferente de exprimir o nosso íntimo de bárbaros; exibimos, uns perante os outros, roupagens e adereços brilhantes e preciosos e inundamo-nos de perfumes; passeamo-nos por avenidas e mergulhamos em catedrais de consumo para aí rezarmos as nossas litanias civilizadas; sentamo-nos em mesas adornadas e refulgentes e degustamos iguarias delicadas com a ponta dos dedos. E, para retirarmos o peso do excesso, banhamo-nos em piscinas de mármore com óleos rescendentes e propomo-nos fazer dieta. E contudo, olhando bem no fundo este homem civilizado e observando os pormenores da sua pretensa superioridade, o que vemos é um primata de cérebro grande a patentear orgulho e a esconder, por detrás das arcadas da mente, um universo de pequenos nadas. 
Há muito tempo, tanto que não seria capaz de situá -lo, decerto houve grandiosidade no homem, advindo à consciência e deslumbrado com tudo o que poderia doravante conhecer. Decerto houve beleza autêntica nas obras e nos feitos dos que começaram a compreender a mãe natureza de onde souberam que vinham. Aqui e ali, vislumbram-se ainda parcos vestígios desses momentos áureos da acção dos homens, despertos para a sua condição. Porém, uma ânsia destruidora que aparentemente se apossou da humanidade, cedo arrebatará esses sinais de grandeza ou profaná -los-á para sempre no uso inadequado. 
Os exemplos estão aí, à vista de todos. O Homem Novo, que renasce todos os anos, poderá continuar em guerra? O Homem Lavado, nas águas de um qualquer oceano, poderá perpetrar crimes, cometer violações, espezinhar o semelhante? O Homem Purificado poderá ser traiçoeiro e malévolo, ignorar os que dele carecem, alardear superioridade e atirá -la à fronte dos humildes? O Homem Regenerado poderá praticar a mentira, cultivar o egoísmo, chafurdar nas lamas iníquas da corrupção, tecer tramas maldosas, espalhar o medo? 
E contudo, por mais festas de ano novo que façamos, por mais votos de felicidade que formulemos, por mais decisões que tomemos nesta hora de fronteira, o que continuaremos vendo será um cenário cada vez mais apocalíptico. 
Todos o vêem, bem sei. Por demais observo os homens, os seus actos e as suas palavras. E percebo que todos preferimos estar iludidos, encolher os ombros e caminhar por veredas que fingimos serem avenidas. E é por essa razão que me convenço, cada dia com maior acutilância que a humanidade, desperta para a consciência há milénios, se atolou definitivamente e já não quer e não pode reverter o caminho. É uma conclusão terrível, uma verificação dramática: mas nada vislumbro que me permita alimentar ilusões. Sei bem que há grandes Homens, grandes Gestos e grandes
Obras – mas representam a areia reluzente perdida no deserto árido. São a gloriosa e recôndita excepção que, em simultâneo, nos redime e crucifica. 
Neste segundo dia de 2017, quando o ano novo reentrou no ritmo normal e profano, retomando as linhas, ligeiramente quebradas durante umas horas, dos doze meses de 2016, não encontro palavras que melhor exprimam aquilo em que a humanidade a que pertenço se transformou.

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