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…AINDA EM TEMPO DE NATAL

ANTÓNIO PATRÍCIO 
O Menino nascera há dez dias. A velha estrela vergara-se à missão de levar no seu encalço três Magos – Belchior, Baltasar e Gaspar – que, estudiosos do universo, não quiseram perder a oportunidade de desvendar aquele fenómeno que não sabiam explicar e que nunca e em tempo algum se havia manifestado.
Uma estrela de brilho resplandecente, sobressaindo entre as demais, movia-se de uma forma enigmática mas, precisa; como um chamamento, um sinal milagroso que os atraía. Seguiram-na e, depois de vários dias e noites, de muitas e variadas interrogações e reflexões, com duras e penosas caminhadas, encontraram um Menino deitado entre palhas, numa manjedoira, rodeado por José e Maria, venerado por gente humilde e das mais variadas profissões, aquecido pelo bafo de dois animais – uma vaca e um burro – ao tempo, muito comuns na azáfama diária das gentes mais modestas.
O “Natal pequenino” era-nos assim ensinado na sua mais pura forma e tradição.
Na mesa voltava a ser senhor e rei o bacalhau cozido, aconchegado entre batatas, couves e tronchas e decorado com umas cenouras que lhe emprestavam um ar senhorial. 
A alegria de festejar sobrepunha-se à vontade de comer e, ainda mal se tinha feito o molho – azeite, vinagre e alho – e já se ouviam, junto à porta, os primeiros acordes daquilo que viria a ser os “Réis”. 
Grupos, mais ou menos organizados, de rapaziada e ou gente mais crescida, acompanhados de alguns instrumentos cantavam, de porta-em-porta, as Boas-Festas em versos improvisados, de quadras simples e rústicas onde, aqui e ali, entravam “os senhores da casa” num apelo à sua e generosa boa vontade.
Os “Réis” eram uma forma subtil de angariar alguns proventos, no sentido de aliviar algumas necessidades económicas e, para aconchego, de alguns estômagos mais desamparados. 
Com o passar dos tempos tudo mudou e, hoje, já muito dificilmente se encontram grupos a cantar os “Réis” por modo próprio. Os “Réis” são cantados por grupos mais ou menos organizados, com fins previamente definidos e, normalmente, a favor de instituições de carácter sociocultural. No fundo o “espírito” é o mesmo – angariar fundos em prol de … – só que os meios e a forma são adaptados aos tempos que correm.
Esta época festiva de partilha da mensagem de Paz e Fraternidade, acompanhada de cantares com origem na poesia popular e, tantas vezes de improviso, marcam uma cultura e remonta-nos a um tempo de grandes dificuldades em que o Natal para uns existia mas, para outros, não passava de uma miragem dura e penosa. 
As nossas acções não podem nem devem restringir-se a esta quadra festiva e, os desejos de Paz e Fraternidade, devem ultrapassar as palavras e transformarem-se em práticas quotidianas e autênticas. 
A todos, que têm a paciência de ler estes pobres rabiscos ocasionais, apelo no sentido de uma prática autêntica de bem-fazer pois, só assim, seremos capazes de dar corpo à mensagem de Paz e Amor que, aquele Menino, há dois mil anos, nos legou.

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