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A FORÇA DA CRIAÇÃO

REGINA SARDOEIRA
O que me salva, a mim, e que talvez vá salvando outros, por aqui e por ali, é o surto criativo que bruscamente irrompe e me conduz à criação de novos mundos, onde antes existia desorientação e caos. Parece utópico, talvez enganador, dizer que crio ou que criamos mundos; talvez esteja tudo criado de uma vez por todas e os artistas se enganem quando crêem que inventam.
Por mim, sinto-me deslumbrada quando certas formas se organizam, sejam letras, traços, pinceladas ou sons, dando origem a universos inexplorados e, por isso, acrescentando mundos ao mundo. Regozijo-me por pertencer a esse domínio humano onde se dão as epifanias do espírito, onde pequenas ou grandes ideias irrompem, não se sabe de que zonas obscuras, e, no momento certo, entre si convocam outras sugestões – e nasce a obra. 
Não creio ser possível explicar este fenómeno. Não poderei nunca exprimir – e ninguém pode – a origem da força motriz do pensamento, que engendra e constrói, quantas vezes no silêncio mais profundo, a matriz da criação, mais tarde trazida para a luz e feita milagre – até para mim mesma que o criei, até para outro qualquer que o conseguiu. 
Escreveu Miguel Torga, num dos seus Diários que o artista é um possesso, um médium, guiado por invisíveis tropismos criadores. Ele declarou-se sempre ateu, desse Deus das religiões, adorado nas igrejas. Mas encontrou dentro de si, em momentos ímpares de lucidez extra-ordinária, a voz e a força capazes de se soltarem um hinos portentosos, fantásticos e inverosímeis, mesmo para si que os criara. E é assim mesmo o artista. 
Pode ser que precise de trabalhar, depois, o que lhe saiu, fumegante, ainda com a escória do parto apegada aos membros espúrios; mas, se não tivesse soltado a chamas, na hora de possessão, que haveria de trabalhar, depois, logo que regressasse a si? 
São vitais estes momentos de sublime exaltação, quando o embrião, o feto, o recém-nascido são pedaços informes de matéria. São necessários os arroubos demenciais de uma alma exaltada, a querer romper barreiras, para que um pequeno átomo de luz, com sombra dentro, gere, por fim, a obra inteira. E é por experiência própria que falo. Mas também tenho encontrado irmãos nesta saga, homens e mulheres que eu sei terem sido bafejados por semelhante sopro anímico. 
Com profunda e absoluta convicção afirmo que o mundo virá um dia a ser salvo: quando as vendas obscurantistas se romperem, e essa voz profunda dos génios criadores puder soltar -se sem peias ou amarras. Então, a humanidade terá encontrado realmente o seu rumo.

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