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ZOO HUMANO

LUÍS CUNHA 
As memórias são assim mesmo: guardamos algumas ciosamente, por vezes a tão bom recato que recusamos mesmo partilhá-las com quem quer que seja, enquanto outras, perdidas sem pena, nos visitam inesperadamente e sem que alguma razão verdadeiramente válida as tenha convocado. Sucedeu isso mesmo quando arrumava uma estante e deparei com um livro que há muito esquecera, Freaks, no qual é revelada uma curiosa coleção fotográfica de «aberrações humanas». Gigantes e anões, irmãos siameses, mulheres barbudas, hermafroditas e homens com cauda, entre muitos outros exemplos de humanas criaturas – a maior parte das quais ganhou a vida exibindo-se em feiras e circos – constituem o espólio recolhido pelo negociante de arte, Akimitsu Naruyama, e mostrado em Freaks.
Este livro, inesperadamente redescoberto, significou para mim dar uma trinca na madalena proustiana, salvo seja. Graças a ele reencontrei-me com uma das primeiras imagens de estranheza e fascínio de que consigo lembrar-me. Trata-se de uma memória de tal forma desbotada que se torna impossível distinguir as fronteiras entre aquilo que de facto vi e o que terá sido posteriormente acrescentado. Na cidade de província onde vivia chegou um dia, juntamente com outras atrações de feira, o «Gigante de Moçambique». Estou certo de que foi mais por curiosidade minha que por interesse próprio que meu pai me levou à tenda onde o «fenómeno» era exibido.
Julgo que se viveria então o começo dos anos 70, época em que atrações como aquela ainda agitavam o quotidiano das cidadezinhas de província. Não esqueço que vivíamos então num país esquisito, mais esquisito ainda do que o país em que hoje vivemos, mas ainda assim, olhando a esta distância, uma exibição como aquela talvez enfermasse já de um profundo anacronismo. De facto, os freaks do meu livro tiveram a sua época. Fizeram furor no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX mas desapareceram de cena tal como o «Emplastro Leão» ou o óleo de fígado de bacalhau. Sobraram todas estas fotos que agora olho, enquanto procuro, nos subterrâneos da memória, alguma imagem mental do «meu» gigante moçambicano. Vício de putativo e frustrado escrevedor, não posso deixar de pensar nas fantásticas possibilidades narrativas contidas naquelas vidas singulares. Acho que foi por esta razão, confessadamente interesseira, que procurei saber mais sobre aquele homem desmesurado que vi pela mão de meu pai. Algo descobri sobre ele, mas deixo de fora, nesta ocasião, os quase dois metros e meio de desmesurado corpo que lhe deram fama e sofrimento. É outra a questão que aqui me interessa.
No início do século XIX uma jovem bosquímana de nádegas salientes, apelidada de «Vénus hotentote», fez furor na Europa, sendo exibida ao público ao lado de outros «fenómenos bizarros». A particularidade anatómica que fez dela objeto de curiosidade – tanto de cientistas quanto do público anónimo – era vista como característica da sua «raça», facto que, está bem de ver, confirmava alguns dos estereótipos mais correntes acerca da sexualidade desbragada dos «selvagens». Muito embora fossem muitas as características e diversas as proveniências das «peças» expostas nos autênticos zoos humanos que eram os freak shows, pode dizer-se que uma parte importante dessa estranheza oferecida à curiosidade dos «povos civilizados» resultava do próprio processo colonial. Nativos seminus, pintados ou tatuados, falando línguas incompreensíveis, vivendo em palhotas e dançando seguindo o «ritmo do batuque», eram uma componente indispensável, por exemplo, em exposições coloniais ocorridas já em pleno século XX – como a de Paris (1931) ou a do Porto (1934).
A chegada desses homens e mulheres às metrópoles constituía, assumidamente, uma excelente oportunidade para generalizar e «democratizar» a experiência do exótico. O povo agradecia penhorado a possibilidade de admirar a impúdica nudez das pretinhas e até, quem sabe, a ferocidade domesticada de verdadeiros caçadores de cabeças. Bem sei que este contacto com odiferente não se circunscreveu aos nativos importados pelo colonialismo. De qualquer forma, o importante é perceber que tanto uma mulher barbuda, proveniente de uma qualquer província metropolitana, como um nativo do Império, cumpriam um papel muito semelhante. Ambos alimentaram o imaginário de várias gerações de homens e mulheres que a si mesmos se viam como «civilizados», mas, para lá disso, ambos podem ser vistos hoje como despojos de um mundo em mudança. Um mundo que aspirava a uma apaziguadora conformação, que devia abranger tanto a disciplina do corpo como o modo de sentir, tanto a experiência da fé como a confiança numa «civilização» redentora.
O que foi que sobrou desse imaginário? Será que dispensámos definitivamente esse circo do bizarro e do monstruoso? E, se o fizemos, como podemos nós passar sem esse imaginário que tão claramente nos situa e define por relação aos que nos são estranhos? Coloco a questão de uma outra forma: se esse nosso fascínio pelo que está para lá das fronteiras do que somos tem realmente importância para a nossa definição identitária, de que forma foi substituída a exibição despudorada de alteridade que encantou os nossos pais e avós? Qual o seu substituto funcional? Estou certo de que os media, pela revolução que imprimiram ao modo de ver e de evocar, são parte decisiva na resposta a essa questão. Podemos simplificar, falando de uma passagem do oral ao escrito – muito embora estejamos conscientes da insuficiência desse processo, nomeadamente se ele deixar de lado toda a espantosa multiplicação do que nos é oferecido ao olhar. Instrumentos como a fotografia, o cinema ou os videojogos, possuem a inequívoca capacidade de responder a essa fome de imaginário que hoje, tal como no passado, não dispensa da sua dieta a extravagante diferença que ao mesmo tempo nos seduz e ameaça.

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