Home>BIRD Magazine>OBRIGADO, MÁRIO SOARES
BIRD Magazine

OBRIGADO, MÁRIO SOARES

MIGUEL TEIXEIRA 
Num interessante artigo de opinião publicado no Expresso on line no passado dia 7 de janeiro, Daniel Oliveira sintetiza num parágrafo, com a lucidez e distanciamento necessário, o percurso político de Mário Soares, justificando porque é um político verdadeiramente excecional: “o maior elogio que posso fazer a Mário Soares é aquele que poucos farão por estes dias, em que a canonização simula consensos que nunca existiram: ele está entre as figuras mais odiadas e mais amadas deste País. Como apenas acontece aos políticos que fazem escolhas difíceis. E as escolhas que Soares fez, que lhe garantiram sempre novos inimigos, marcam a história de Portugal nos últimos 50 anos. Soares escolheu o combate ao fascismo e os saudosistas não o suportam. Escolheu a descolonização e os retornados odeiam-no. Escolheu a democracia liberal e a CEE e os comunistas não lhe perdoam. E cada escolha sua deixou tanto ressentimento por ser quase sempre decisiva para o que somos hoje. Tem a sua cota-parte de culpa em tudo o que de bom e de mau nos aconteceu desde o 25 de Abril. Essa é a qualidade que ninguém lhe pode tirar: não é inocente de nada. Felizmente, porque não há maiores inúteis do que os políticos que se banham nas águas puras das ideias e morrem sem culpa nem obra”
Estava a poucos meses de completar onze anos de idade quando vi pela primeira vez Mário Soares ao vivo. Foi em Cabeceiras de Basto, mais propriamente na Praça da República num inesquecível “comício” realizado no dia 28 de Setembro de 1980 na campanha eleitoral para as eleições legislativas desse mesmo ano. O PS tinha feito no início de Agosto uma coligação com outros movimentos da esquerda democrática e concorria sob a sigla FRS (Frente Republicana e Socialista), para responder à Aliança Democrática, uma união de partidos da direita portuguesa. Até esse dia, eu que cresci numa família socialista, só tinha visto Mário Soares na televisão. O dia 28 de Setembro era, seguramente o dia mais importante da Feira de S. Miguel (festas do município) e, por ser fim de semana, a Praça da República estava cheia de gente. A caravana da FRS chegou por Outeiro (a estrada que dava acesso a Fafe e Guimarães) e recordo-me que o comício foi significativamente atrasado porque o trânsito não fluia. O meu pai Gaspar Teixeira, que era então o Presidente da Comissão Política local do PS e tinha presidido ao município até Janeiro desse ano discursou ladeado por Mário Soares, Sousa Franco da (ASDI) e Lopes Cardoso da (UEDS), nas varandas da Casa do Santo ( então propriedade do Sr. Manuel Sacristão) de frente para a sede local do PSD, numa época de grande confronto e tensão ideológica. Sá Carneiro outro grande estadista era líder do PSD e tinha vencido um ano antes as eleições autárquicas com a Aliança Democrática. Conta-me o meu pai que António Guterres, atual Secretário Geral da ONU e então Diretor de campanha da FRS, ao visualizar tanta gente em Cabeceiras de Basto lhe perguntou: “Ó “camarada” com tanta gente neste comício, aqui vamos ganhar as eleições, certo? ao que o meu pai lhe respondeu: “está enganado “camarada” , a maior parte destas pessoas está aqui, porque veio para a Feira”. Dias depois, a FRS viria a perder as eleições perante uma AD “imparável” e Sá Carneiro seria indigitado Primeiro-Ministro, vindo a ser vitimado meses depois num acidente aéreo que ainda hoje está por explicar. Nesse dia, ouvindo Mário Soares a discursar e a entoar por várias vezes a palavra “liberdade” , eu que ainda era um adolescente e ainda não me tinha apercebido da real dimensão do fundador e líder do PS, na minha ainda “precoce” cultura e formação política, fiquei convencido de que a minha família estava do lado certo e era ali que eu queria estar. Mais tarde, já com 17 anos assisti em Braga na Avenida da Liberdade ao Comício da primeira volta das eleições Presidenciais de 1986. A esquerda, fraturou-se no apoio a vários candidatos e Soares que tinha partido com apenas 8 por cento nas sondagens concorria com Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo para passar à segunda volta e defrontar Freitas do Amaral o candidato apoiado pela direita portuguesa. Lembro-me que o comício estava inicialmente agendado para o interior do “Teatro Circo”, mas como eram alguns milhares de pessoas teve que se realizar da “varanda” daquela sala de espetáculos, com Soares a discursar “rouco” e com a chuva a cair cá fora em cima de nós. Mário Soares, haveria de passar à segunda volta e vencer as eleições presidenciais por cerca de 120 mil votos, que na altura se comentou que correspondia à lotação do estádio da Luz ainda no tempo do terceiro anel.
Mário Soares, a par de António Guterres foram e são as minhas duas grandes referências políticas. O Portugal que hoje temos para o bem ou para o mal (sabemos que não é perfeito) e as conquistas sociais que obtivemos nos últimos 42 anos de democracia, na Saúde, na Educação, no trabalho e segurança social, na autonomia e desenvolvimento do poder local devem-se ao sonho de Mário Soares construir uma democracia pluralista ao estilo ocidental, com respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais, alicerçada no voto popular e no respeito pela diferença. A sua ação em Novembro de 1975 foi determinante para impedir que a nossa sociedade se radicalizasse e enveredássemos por um sistema de governo ao estilo soviético. Muito antes na sua juventude, como afirma Miguel Sousa Tavares “ele que é oriundo de uma família das mais tradicionais de Lisboa, com excelente situação económica, licenciado em Direito e podendo ter uma vida de conforto e sem grandes sobressaltos, optou pela via mais difícil e corajosa, no combate à Ditadura de Salazar. Defendeu como advogado dezenas de presos políticos opositores à ditadura, foi preso 13 vezes pela PIDE, esteve ao lado do general Humberto Delgado, foi deportado para S. Tomé e teve que partir para o exílio em França. Soares é seguramente a figura mais importante e marcante dos últimos 25 anos do século XX português e como diz o jornal “Washington Post”, “foi o Homem que trouxe Portugal para a democracia” e nos “empurrou” para a União Europeia.
“Libertar-se-á, como diria Camões, da “lei da morte” e seguramente, cedo ou tarde, figurará na galeria dos grandes heróis portugueses, do socialismo em liberdade e da social-democracia mundial.
Obrigado, Mário Soares!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.