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OS SEMELHANTES

«Conhece-te a ti mesmo,
torna-te consciente da tua ignorância
e serás sábio.»
(Sócrates)

MANUELA VIEIRA DA SILVA
Segundo Platão, só o semelhante conhece o semelhante. Também é comum dizer-se que os opostos se atraem. Tanto um aforismo como o outro são verdadeiros, quanto a mim, nas relações humanas, tanto familiares, sociais, amorosas, comerciais…, nas suas diversas formas. É comum verificar, por exemplo, uma pessoa calma com pouco sentido de humor simpatizar e gostar da presença de uma pessoa activa e divertida. Ambas gozam da presença uma da outra, a primeira porque sente admiração e prazer, a segunda porque se sente admirada e, por isso, o seu ego aumenta, e ambas são felizes nesta vivência centrada de opostos. Há uma atracção por necessidade (uma da outra), desprovida de conhecimento e de afinidades. Também acontece muito nas relações amorosas, mas estas levam algumas ao engano, acabando em frustração a médio ou longo prazo, porque teria de haver adaptação e cedências, difíceis por vezes. Enquanto numa relação familiar, entre pais e filhos e entre irmãos, são as semelhanças, no seio dos vários elementos, que constroem os afectos e direcção das atenções; entre irmãos e irmãs, são as brincadeiras e as cumplicidades. Não me vou alongar a esmiuçar estas questões tão delicadas, que serão mais do foro da psicologia, talvez numa outra crónica.
Como conhecer o nosso semelhante é, quanto a mim, uma questão difícil e que me tem ocupado a vida inteira. Na Bíblia, amar o próximo será o mesmo que amar o seu semelhante, uma das leis mais difíceis de cumprir. Como amar o que não se conhece?
Mais fácil será amar uma flor, um gato ou um cão. São seres simples e «simpáticos», apesar da sua complexidade. Talvez sejamos nós, humanos, que não esperamos mais do que aquilo que eles nos poderão dar. Porque não o esperamos, aceitamos a sua condição porque são diferentes de nós, por isso é fácil amar estes seres, que até nos dão um certo prazer e alegria, por vezes surpresas, pela sua espontaneidade e leveza. Não complicam a vida, são assim, e não exigimos senão uma certa disciplina básica. Seria de esperar que conhecêssemos bem toda a natureza, talvez. Mas não é isso que acontece, não conhecemos de facto, mas pensamos que conhecemos. Contudo, aceitamos.
E nós, conhecemo-nos uns aos outros? Conhecemo-nos a nós próprios, pelo menos? 
O aforismo grego «conhece-te a ti mesmo», citado e estudado na Filosofia e na Literatura desde a Antiguidade, tem tido diversas interpretações ao longo dos séculos.
Não podemos conhecer os outros se, antes, não nos conhecermos — por fora e por dentro — e é esta a verdadeira e fundamental questão do Homem, que continua a recusar a olhar para si próprio. Talvez porque se recusa a olhar para o outro, a conhecê-lo, a compreendê-lo, como Homem igual a si próprio, com os mesmos sonhos, com os mesmos desejos, os mesmos pensamentos. Hobbes afirma: «Mas para nos ensinar que a semelhança dos pensamentos e paixões de um homem, os pensamentos e paixões de outro, aquele que olhar para dentro de si e contemplar o que faz quando pensa, quando opina, quando raciocina, tem esperança, medo…, e sobre que bases ele deve, assim, ler e saber quais são os pensamentos e paixões de todos os outros homens sobre as ocasiões parecidas.» 
Os grupos são criados nas semelhanças dos elementos que os compõem, dos seus gostos e preferências, por exemplo os clubes desportivos, os partidos políticos, associações de interesses, comunidades, etc. Assim como os grupos de homens, mulheres e crianças que sofrem a fome, que precisam de comida, têm em comum a luta pela sobrevivência. Mas também quem tem o poder e a riqueza, que não passa fome, sabe e tem consciência que o outro não deve viver sem comer, como ele próprio não o conseguiria. Será fácil um rico saber o que o outro rico pensa e sente e até se medem na estatura, mas não é fácil um rico pensar o que sente um pobre, porque o seu pensamento está demasiado ocupado num nível autodestrutivo de humanidade, está demasiado ocupado a fazer contas sobre acumulação, perdas e ganhos, descaracterizando-se, fundindo-se com a matéria e a imagem; perdeu a sensibilidade e a profundidade interior e recusa-se a olhar para aquele que não se parece nada com ele, deixou de ser seu semelhante. Este homem não se conhece a ele próprio, conhece o que veste, a casa, o automóvel, a empresa, a família, como apoio e prolongamento de si próprio, mas não se tem, não compreende o mundo que não seja o seu, está fora dele. Se um dia cair em desgraça, então, terá de aprender a olhar para o outro e para si próprio e descer do seu pedestal até às suas cavernas interiores.
Também os grupos dos pobres se juntam na sua pobreza, desumanizados, numa luta incansável pela subsistência, entreajudando-se ou competindo na corrida do quem chega primeiro para apanhar qualquer coisa para comer. Também eles estão fora do mundo, desintegrados, não conhecem e não compreendem os ricos. 
Em ambos os casos há semelhanças — na desumanidade — que, de modo nenhum, se atraem, pelo contrário, estão em posições opostas, como duas margens que vivem em paralelo, que nunca se tocam nem aproximam. Não terão cérebros estruturados da mesma forma, mas terão com certeza pensamentos idênticos de vencer a todo o custo e sonham, não interessa que sonho, sonham igualmente. Entretanto, uns morrem por terem de menos, outros morrem por terem demais. Uns têm doenças devido às carências, outros têm doenças devido ao excesso. 
Quanta loucura entre as margens o rio acumula!!? É um rio negro e sujo que aguarda a redenção do olhar numa nova luz. Conhece-te a ti mesmo e verás por que razão há quedas financeiras a repousar no lago das tormentas. Conhece-te a ti mesmo e verás por que razão há quedas que são despertares obrigatórios, com vista à inclinação das margens, revolvendo o sangue e as luas antes de chegarem ao mar.
O filósofo Ralph Waldo Emerson escreveu um poema com o título «Conhece-te a ti mesmo». Acreditava que «Conhecer a si mesmo» significava conhecer a Deus, que Emerson dizia existir dentro de cada pessoa.

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