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OS VERÕES NA ALDEIA

HELDER BARROS
– “Fogo atrás do beiral dos moinhos!”, gritava a Rosa das Fulgosas, moça linda do lugar e esperta como uma raposa, com a vivacidade própria da sua formosa juventude. Estávamos numa tarde típica de agosto, de abafado calor de Verão, de dias de longos estios, quando, a tarde pachorrenta foi, inopinadamente, interrompida pelos gritos daquela jovem que, com a sua voz aguda e estridente, tudo despertou e agitou. E vinham de todas as quintas e casais, homens e mulheres com enxadas que, rapidamente rodearam o fogo, cortando e olhando os matos, atacando evolução do incêndio no seu começo. Estávamos nos anos oitenta, não havia telemóveis, pouca gente tinha telefone fixo e quando os bombeiros finalmente chegavam, o rancho de povo já tinha extinguido completamente o incêndio. Havia um forte sentido de comunidade, as aldeias estavam cheias de gente, os jovens pululavam nos campos, caminhos e terreiros.
Ou então, numa noite de calor do mesmo mês, num ano próximo ao evento anterior, sai o Serafim disparado da cama, de camisa de dormir, porque ouviu a mesma rapariga a gritar: – “Fogo na pedreira, já vai quase na vinha nova!”. O Serafim do Rio saltou num ápice da sua cama, e desatou a correr pela porta fora, em camisa de dormir. Perante o ridículo da situação, diz a Leonor, mulher do homem: “Oh Home, tu vais de fraldas!”. E lá foi o homem que se juntou a outros valentes, com enxadas e roçadouras, lá apagaram um fogo, que não teve direito a bombeiros, por estarem ocupados com um enorme fogo no Marão. O nosso Marão que, naquela década de oitenta, ardeu todo, assim como a sua riqueza, medida em milhares de toneladas de madeira, de resina e de material biocombustível.
E naquela tarde de Primavera em que o padeiro caiu na sua carrinha à ribeira de Fregim. Todos quanto trabalhavam à volta foram atraídos, como que por um íman à ponte do rio, no fundo do vale. Eu, miúdo, ia pela mão de minha mãe, da Mó, onde então residíamos, para a Cidreira e quase chegados ao rio, ouvimos o estrondo que foi a carrinha a cair. A carrinha tinha acabado de passar por nós na estrada, então de terra, a grande velocidade. A Rosa deu o alerta, aos berros de “eles afogam, eles afogam!” e os homens chegaram e tiraram os dois ocupantes da viatura, de baixo da mesma e da água. Recordo os corpos ensanguentados, uma imagem que jamais esqueci, mas soube-se depois que, chegada a ambulância, uma hora mais tarde, os homens foram para o antigo hospital da vila e os seus ferimentos não passaram de golpes superficiais e alguns hematomas sem grande importância.
E quando numa bela tarde de junho, os homens que trabalhavam na Quinta de Pousada, decidiram fazer a poça de consortes, para armazenamento e divisão de águas, mais cedo que o previsto e sem conhecimento prévio dos outros consortes, foi o bom e o bonito. Serafim e Leonor saíram de forquilha para quatros homens rijos e, estes, perante a fúria do casal, subiram para o trator e trataram de fugir enquanto a fúria não abrandou. O povo em volta desceu ao rio e tratou de arrefecer os ânimos do casal que, sentindo-se injustiçado e lesado nos seus direitos, dos usos e costumes agrícolas que passaram de geração em geração, sempre respeitados.
Só havia uma coisa que amedrontava a Leonor, as cobras do campo, do rio ou dos montes. Quem quisesse ouvir a Leonor berrar era quando ela avistasse um desses répteis, castanhos ou esverdeados que tão bem se dissimulavam na ecologia do campo. Certa vez a regar, no meio da levada para virar as águas, Leonor, como sempre, descalça, sente o toque numa perna, de uma cobra escorregadia e ziguezagueante e desata numa berraria que alvoroçou toda a vizinhança, levando-os a pensar que alguma grande desgraça tinha acontecido no rio. O Serafim e os filhos riam-se à gargalhada, enquanto um deles apanhou a cobra e andou com ela a assustar a mãe, numa grande algazarra, que recrudescia sempre que sentiam o pânico da Mãe a aumentar.
Uma mulher e um homem que cortavam e calcavam um carro de mato descalços, que eram imunes ao frio do inverno, pois, normalmente não se calçavam para sair de casa e para realizar os árduos trabalhos agrícolas. Tinham calçado, não se tratava de falta de meios para se calçarem, vestirem ou comerem, mas ambos foram habituados assim. No final do dia era vê-los a lavarem os pés no rio, tanque, levada, ou na torneira exterior à casa, fosse verão ou inverno. Só havia exceções, nas idas à missa dominical, ou cerimónias familiar ou comunitárias: casamentos, batizados ou funerais. Aí vestiam as suas melhores roupas, ficando quase irreconhecíveis.
O casal guardava uma pipa de vinho tinto no beiral e quando tinham sede, tiravam os esquisso e deitavam o vinho tinto de casa diretamente para uma malga e toca a beber do néctar caseiro. Normalmente, a seguir, iam cortar erva para o gado, ou roçar as bordas de mato e cantava o Serafim: “Estás aí oh Leonor; mulher da minha vida; és todo o meu amor; minha Senhora da Aparecida!” e respondia ela: “Estás aí oh Serafim; homem com quem casei; tu gostas tanto de mim; que três filhos eu te dei”. Ouvi-los cantar era uma delícia, mas sem eles darem conta. Saiam grandes rimas, numa mostra de afeto, em forma de versos ritmados.
Mas eram um casal de uma simpatia infindável, apesar da sua vida dura, dispensavam sempre um sorriso e uma alegre troca de palavras, sempre que se cruzavam com alguém. Tinham sempre a sua cozinha aberta, para que quem passasse quando almoçavam ou jantavam, pudesse partilhar com eles o momento. Bem haja, para este maravilhoso casal que tive o prazer de conhecer.

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