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TRIBUTO A MAMEDE MENDES

MIGUEL TEIXEIRA
O escritor e poeta argentino Jorge Luís Borges, de ascendência judaico-portuguesa, ensinou-nos que “a memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações”.
Hoje quero partilhar com os leitores da “Bird Magazine” um texto publicado na edição de Janeiro de 2011 do Jornal “O Basto” pelo senhor Mamede Mendes, um homem com uma memória pujante sobre o passado de Cabeceiras de Basto, que partiu neste mês de Janeiro aos 86 anos de idade. Durante os anos em que tive o privilégio de presidir à Direção da adbasto (associação de desenvolvimento técnico-profissional das terras de basto) entidade proprietária do Jornal “O Basto”, o Senhor Mamede foi partilhando com os leitores as memórias da sua terra no início do século XX e nas décadas de 20 a 50 do século passado. Em muitas dessas narrativas, que eu passava integralmente a computador antes de enviar para composição e impressão, sobressaem a recuperação da memória histórica do concelho nas primeiras décadas do século XX. Como cronista, cheguei a dizer-lhe pessoalmente, o Senhor Mamede tinha aquela particularidade que só está acessível aos bons escritores de narrar os factos, recriar o “modus vivendi” e muitas das personagens típicas de “Cabeceiras do seu tempo”, utilizando a técnica do “realismo descritivo”, fazendo com que, ao lê-lo estivéssemos como que a presenciar os acontecimentos e a visualizar as personagens das suas “histórias”. O artigo que reproduzo a seguir é um dos textos que mais me deu prazer ler e que traduz a habilidade do cronista em transportar-nos como uma viagem no tempo ao município de Cabeceiras de Basto nos primeiros anos de 1900, onde se percebe que era um dos municípios mais prósperos e já com um desenvolvimento económico, cívico e social assinalável no Distrito de Braga.
Cabeceiras no início do Século XX
Por Mamede Mendes
MAMEDE MENDES
“Na vila, havia escolas para ambos os sexos e, vejam bem, um Liceu Nacional cuja sede era na Casa do Instituto Comercial e Agrícola em Gondarém, legado do falecido capitalista Gomes da Cunha, feito à freguesia de Cabeceiras (S. Nicolau), onde havia nascido. O Liceu funcionava junto das repartições públicas e era frequentado tanto por alunos de Cabeceiras, como de outras terras circunvizinhas (…)Na vila havia a Misericórdia e a estação Telégrafo-postal e, ainda hotéis, farmácias, médicos, agências bancárias e de seguros. A filarmónica cabeceirense e a Tuna. Aos Domingos realizava-se o Mercado na Praça e no último Domingo de cada mês, o Mercado era nas Pereiras. Publicavam-se os Jornais Cabeceirense, Colosso, Folhas dos Caixeiros, Jornal de Cabeceiras e o Povo de Cabeceiras.
Nos princípios do século XX, Cabeceiras de Basto foi um próspero concelho do Distrito de Braga, situando-se então, entre os melhores.
A sua população total era de 16289 habitantes, sendo 7532 do sexo masculino e 8757 do sexo feminino, distribuídos da forma seguinte: Abadim (S. Jorge) 550 habitantes; Alvite (S. Pedro) 497 habitantes; Arco de Baúlhe (S. Martinho) 1093; Basto ( Santa Senhorinha) 744; Bucos (S. João Batista) 758; Cabeceiras de Basto (S. Nicolau) 1285; Cavez (S. João Baptista) 1704; Faia ( S. Tiago) 631; Gondiães (S. Martinho) 507; Outeiro (St. Maria Maior) 669; Painzela (Santo André) 765; Passos ( S. Sebastião) 288;  Pedraça (Santa Marinha) 953; Refojos de Basto (S. Miguel) 3078; Riodouro (Santo André) 1913; Vila Nune ( Santo André) 290 e Vilar de Cunhas (S. Lourenço) 464 habitantes.
O seu valor arqueológico consistia, por assim dizer, no Convento Beneditino e nas Casas de algumas nobres personagens. A vila tinha-se modernizado com elegantes edificações, bons prédios e um importante comércio. A respeito de instrução era em muito considerada, quase em todas as freguesias do concelho, com pequenas excepções, havia escolas primárias.
Na vila, havia escolas para ambos os sexos e, vejam bem, um Liceu Nacional cuja sede era na Casa do Instituto Comercial e Agrícola em Gondarém, legado do falecido capitalista Gomes da Cunha, feito à freguesia de Cabeceiras (S. Nicolau), onde havia nascido. O Liceu funcionava junto das repartições públicas e era frequentado tanto por alunos de Cabeceiras, como de outras terras circunvizinhas.
Na vila havia a Misericórdia e a estação Telégrafo-postal e, ainda hotéis, farmácias, médicos, agências bancárias e de seguros. A filarmónica cabeceirense e a Tuna. Aos Domingos realizava-se o Mercado na Praça e no último Domingo de cada mês, o Mercado era nas Pereiras. Publicavam-se os Jornais Cabeceirense, Colosso, Folhas dos Caixeiros, Jornal de Cabeceiras e o Povo de Cabeceiras.
O concelho caracterizava-se pela riqueza dos seus vinhos verdes. Para facilitar a sua venda, bem como para conservar o seu bom e apreciado tipo, fundaram um grande armazém a que chamaram “Adega Central de Basto”. Os seus proprietários dotaram esse estabelecimento com aparelhos próprios para o efeito, importados directamente da Alemanha. Para além de ser um armazém muito amplo, com vasilhame que comportava 300 pipas de vinho, tinha anexo uma oficina de Tanoaria, com máquinas próprias para serrar e aplainar madeira, em condições para fornecer qualquer quantidade de Barris para embarque. Todos os aparelhos eram movidos a electricidade, sendo também eléctrica a iluminação do escritório, armazém e adega. Nos anos 40 veio, neste edifício a ser instalada a separadora de volfrâmio, minério empregado na fabricação de aço, e hoje serve de oficina mecânica  da Firma “Fernando Gonçalves Ferreira e Herdeiros”.
Havia ainda perto do lugar da Sefra, uma fábrica de papel junto ao Rio Peio que aí laborou, cujo edifício ainda lá se encontra, sendo o sítio hoje conhecido pelo Lugar da Fábrica.
Também existia na vila o clube Cabeceirense ao qual estava afecto o Teatro, em cujo salão se representavam diversas peças de teatro, algumas revistas e até entremezes. Era seu encenador, o Sr. José Salreta.
Afinal, pelo que se poderá verificar, parece que comparativamente, Cabeceiras cresceu mais no princípio do Século XX, do que no Século XXI.


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