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O FRIO A QUEM TEM FRIO

ANABELA BORGES
As pessoas andam sempre em alaridos. Por tudo e por nada é uma agitação. Basta que as estações televisivas cuspam um qualquer fait divers, logo o alarido é tal que facilmente se assemelha aos insuportáveis alaridos próprios de miúdos de 12 anos quando têm de se expressar em grupo – mais propriamente para a manada. 

Agora é o frio.
Um pouco por todo o lado – na rua, no café, no local de trabalho, nas redes sociais – as pessoas escarnecem do frio, gozam, põem-no a ridículo. Não sei bem por que o fazem, mas sei que um dos motivos é o facto de os portugueses não saberem lidar com o frio, não estarem preparados para o enfrentar. Desta feita, começam a gozar daqui e dacolá, sobretudo a tentar fazer uma espécie de troça de quem se queixa do frio. Depois, temos a agravante de ainda uma grande parte das habitações e os edifícios no geral não serem construídos a pensar no frio. Depois, somos um país cheio de gripes, constipações e pneumonias.
Não há dúvidas de que vai um Inverno frio, mais do que qualquer Inverno, que eu me lembre, nos últimos 20 anos. Consecutivamente, nos três dias que antecedem a escrita deste texto estiveram 3 graus negativos às 8 horas da manhã. Não é nada de extraordinário, já que estamos no Inverno, dirão vocês. Certo, digo eu, mas isso não significa que eu deixe de sentir frio.
Tenho frio; tenho sentido muito frio; não gosto do frio; o meu local de trabalho é um frigorífico; estou farta do frio. Pronto! Acabo de me queixar do frio.
Há cerca de oito dias, no local de trabalho, queixei-me do frio – desabafei: que estava doente, com dor de garganta e de ouvidos, que tinha os pés frios. Vai daí, uma colega de trabalho, encasacada até às orelhas, arrebita a voz para dizer “frio está em Bragança. Lá é que está frio!”. Só sei que não me apeteceu rir, mas fiquei calada; não respondi. C’os diabos! só porque em Bragança está mais frio, já não podemos sentir frio em Marco de Canaveses? Eu, se fosse outra pessoa, ter-lhe-ia respondido “de certeza? Olhe que no Norte da Europa deve estar mais frio… veja, no Pólo Norte, se calhar… ou na Sibéria, veja lá…”. Depois de me passar o leve sentimento de indignação, tive pena da mulher, encasacada até às orelhas, que devia ter as mãos e os pés tão gelados quanto eu tinha. Pff!
Quando eu era mais jovem, nas décadas de 80 e 90 do século passado (dito assim, pareço uma velhinha, mas pronto, é assim), os Invernos eram exactamente como está a ser este – frios, longos e dolorosos. Acordava-se com um manto branco de geada a cobrir tudo – os telhados, os campos, os caminhos –; o chão estalava invariavelmente debaixo das nossas passadas, pedaços finos e escorregadios de puro gelo; os charcos, os ribeiros, as fontes, os tanques congelavam; e finos cristais pendiam das ramagens, das grades, dos portões, dos telhados; nenhum bicho – pássaro, rã, insecto – se avistava durante longos dias. Como agora. Exactamente como está a acontecer neste Inverno.
Quando era pequena, devido ao frio e ao facto de trazer muitas vezes os pés húmidos, costumava ganhar frieiras nos pés e nas mãos, motivo de grande sofrimento e sem grande remédio, deixando-me a suspirar pelo bom tempo que era quando as frieiras voltavam a desaparecer.
Hoje, rezo para que as frieiras não voltem. 
Está frio. E está frio sobretudo se se trabalha em locais frios, não climatizados.
Ao longo da vida tenho tido o azar de ter de andar por sítios frios. A cidade onde nasci e onde moro é bastante fria no Inverno; sempre estudei em escolas frias; e sempre tenho trabalhado em locais frios. Apenas registo a excepção do tempo em que morei no Porto (cidade mais temperada, menos fria que a minha) e o ano passado, já que o local onde trabalhei estava sempre aquecido, mas desconfio que era devido a avaria no sistema de aquecimento, que talvez por ser antigo não dava para regular.
Tenho para mim que as pessoas que se entretêm a falar levianamente sobre o frio nunca sentiram frio de verdade. Nunca trabalharam em ambientes frios. É um pouco aquele sair de casa para o transporte e deste para o local de trabalho, tudo sem ter tempo para sentir grandes variações de temperatura; sem permanecer ao frio. E depois há aqueles que acima referi que gostam de dar ares de durões, que não sabendo lidar com o frio, põem-se a subestimá-lo.
Sinceramente, eu não consigo entender esta birra com o frio quando há frio. Pois que se há uma vaga de calor no Verão, essas mesmas pessoas que andam a gozar com o frio, falam muito a sério do calor – aqui d’el-rei que estão 40 graus, aqui d’el-rei que não se pára com o calor; vamos morrer de calor.
E aqueles – e são muitos – que dizem que o frio é psicológico? Irra! Haja paciência! Nunca os ouvi dizer o mesmo do calor.
Posto isto, deixo uma sugestão para aqueles que brincam com o frio alheio: vão caçar gambuzinos! Mas façam-no em lugares bem frios. E, já agora, cuidado com as frieiras!

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