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AS PALAVRAS

REGINA SARDOEIRA
Escrever sobre as palavras, com palavras, é, potencialmente, um paradoxo. Porém, é o tema sobre o qual, hoje, me apraz reflectir. 
Li, nas duas últimas noites, um livro de Stefan Zweig, cujo título principal é O Medo, mas se multiplica em vários contos.
Tal como na minha adolescência, quando lia às escondidas as obras deste autor austríaco dos inícios do século XX – diziam-me que elas não eram para a minha idade – também agora sinto o poder galvanizante das suas palavras. Hoje, provavelmente, procuro em Stefan Zweig outras sensações e releio-o porque sei de que modo ele foi (é) um escritor notável. Mas não tenho a certeza se a emoção que me acontece agora será essencialmente diferente do que me apaixonava quando tinha treze anos. 
Naquela altura, bebia nele um novo universo, nem sempre inteiramente familiar – que sabia eu da vida e do mundo com treze anos? – mas de uma intensidade tamanha que bem podia deixar escapar hiatos de compreensão: essas lacunas em nada prejudicavam o poder da fruição e o desejo de pegar nos livros que me estavam interditos e mergulhar em mundos fantásticos.
Continuei a relê -los, infatigavelmente; e, certos assuntos que a minha tenra idade e a minha educação rígida não absorviam, naquela época, foram, aos poucos, desvendados. Ora, se desocultei já os segredos, por que razão a eles regresso e continuo a experimentar sentimentos profundos quando leio as palavras inflamadas e precisas de um autor, tão perdido no tempo? 
É, exactamente, o uso certo das palavras, o modo como as tramas são criadas e apresentadas ao leitor, a argúcia de cada frase e a arte de me enviar, enquanto leitora, para os universos do escritor, acrescidos a uma beleza metafórica e a um domínio prodigioso do dom de escrever que tornam esta leitura uma aventura ímpar. 
Stefan Zweig soube escrever acerca de inúmeros temas e produziu biografias, contos, poemas, principalmente, textos curtos e obras extensas. Mas fosse qual fosse o género ou o tema, sempre tratou as palavras com suprema mestria. Nunca traiu o ofício – se é que escrever é, realmente, um ofício. (Agora que penso nisto, percebo que sim, entendo que a escrita, cujo material são as palavras é, de facto, um ofício; e ainda que, para dominá-lo, é necessário saber como se faz.) 
Escrever, e fazê -lo com a majestade de Stefan Zweig – e de muitos outros bons oficiais da escrita – exige um trabalho exaustivo que leva toda uma vida. Não basta ir à escola e aprender o modo correcto de usar a gramática, a sintaxe e a semântica. Não basta estudar as regras de composição da poesia, do romance, do conto ou do ensaio. É necessário ter uma predisposição (decerto inata) para observar o mundo, quer se trate das paisagens naturais ou humanas, quer incida nas atitudes fortuitas dos seres individuais, nos gestos com que se enunciam perante nós, nas peculiaridades, ou mesmo no jeito vulgar de ser. Mas também é necessário praticar, praticar muito. Essa prática envolve duas tarefas essenciais: o cultor das palavras, ou seja aquele que quer exprimir-se perante o mundo, usando esse veículo de comunicação, precisa de mestres; e eles estão, inteiramente, nas páginas dos bons livros. Quem quiser aprender a escrever, dando corpo ao talento que talvez possua, nunca o conseguirá se não fizer um intensíssimo trabalho de leitura. Lendo, absorve, aos poucos, a melodia encantatória da articulação das palavras em frases e logo em textos. Lendo, aprende a escultura das obras coesas, observa a pincelada exacta que une uma palavra a outra, apreende a arquitectura rígida dos sons e esvai-se na melodia harmónica do sentido. Une, nesta missão, todas as artes; e é por essa razão que a literatura oferece ao que a cultiva um campo indimensionável de sugestões, de cores, de sons, de linhas e volumes. Ao mesmo tempo e, provavelmente, imitando um mestre, a princípio, é necessário escrever, escrever muito. Escrever e pôr de lado, decerto rasgar e tentar de novo: o escritor precisa de encontrar a sua voz única, precisa de emancipar -se da influência do mestre e fazer a sua própria caminhada. 
Trata-se, por isso, de um ofício. Escrever, artisticamente, não é, tenho a certeza, comunicar uma mensagem, ser guia, servir de ajuda. Quem a tal se dedica faz manuais técnicos, e o escritor não é, meramente, um técnico, não é um artífice de regras de viver ou de slogans interesseiros. 
O escritor verdadeiro escreve porque antes leu. Escreve porque compreendeu que aquele que escreveu o que ele leu necessitou urgentemente de fazê -lo. E se sentir igual premência saberá que chegou a sua hora. 
Cuidará então de fazer sair o que armazenou em si; e as palavras certas acorrerão, umas vezes em ritmo jorrante, outras em penosa procura – porque nem sempre é fácil, mesmo para o iluminado, verter pensamentos em palavras. 
Hoje é difícil deparar com fenómenos extraordinários de arte e ofício como o que encontro nos livros de Stefan Zweig. Ou de Doistoievski. Ou de Saramago. (Quem puder e souber que acrescente nomes à lista.) Hoje é tudo descartável, feito à pressa ou por simples oportunismo. E dizem que o livro vai acabar e talvez já tenha acabado e um Stefan Zweig, um Dostoievski, um Kafka (…) sejam dinossauros extintos cujos nomes despertam somente uma curiosidade de museu. 
Por mim, continuo a deleitar -me com as palavras e amo todos aqueles que as usam com respeito – ou seja, criando universos tangíveis com essa matéria inestimável. E creio firmemente que o mundo tem empobrecido ao usar com leviandade o dom que nos foi outorgado, enquanto humanos, e que é, exactamente, a única conquista que realmente nos torna excepcionais no mundo a que pertencemos. Falo das palavras, é claro.

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