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INVERNO DOS SENTIDOS

HELENA COUTINHO
E se, por momentos, fosse possível trocar de década ou de século com a mesma facilidade com que se pode trocar de roupa? E se fosse possível reencarnar corpo, alma e vontade, no tempo de um antepassado nosso, como se fossemos o super-herói da nossa história, no Ministério misterioso do tempo? O que farias com essa oportunidade? Eis a questão!
O primeiro presente que o ser humano recebe, pré-nascença, é algo especial cuja função inata é proteger e aconchegar os órgãos, os ossos e a alma, desde o primeiro ao último minuto da existência terrena. É uma roupa, quase mágica, a que costumamos chamar pele. Trata-se de uma roupa genuína e intrínseca, adaptável ao tempo e à vontade. Estranhamente, nos entretantos da vida, por culpas e ambições diversas, muitos permitem que o que é intrínseco, por direito, passe a valer muito menos do que o que é, e sempre será, extrínseco, por imposição. Sobrevaloriza-se o que tem origem ou causa externa e, assim, se origina má-formação, ou deformação, no tecido existencial primário, sob as barbas de olhares distraídos. 
A rua é um dos poucos lugares em que, como espécie, ainda somos (todos) iguais. Iguais na impaciência de ser o que, afinal, nunca desejamos e na pressa de chegar aos mil e um destinos permanentemente ansiados. A rua é, portanto, o lugar onde ora caminhamos em passo de corrida ora vagueamos ao ritmo das dúvidas, com os ombros vergados por desaforos e desapegos que, em pesados silêncios, carregamos. E é na rua que, com cada vez mais frequência, nos cruzamos com os que vivem os dias como se fossem poemas paridos de imaginações indomáveis. Poemas que, sentidos ou plagiados acabam incompreendidos, como os homens.
Ao longo dos anos, e à medida que nos tentamos adaptar às roupas, às ideias e aos ideais de adulto, parece que a criança que outrora fomos tenta alertar-nos continuamente para os perigos invisíveis e indecifráveis das nossas ruas, para as consequências do medo e do julgamento, enquanto, por outro lado, teima em relembrar a importância das coisas simples e a plenitude de cada momento. No entanto, quando crescemos, mas não porque crescemos, a voz da criança que fomos parece tornar-se incapaz de alcançar a altura do nosso pensamento, que foi crescendo, sem lei, até se tornar do tamanho das nossas cegueiras. E, por fim, cativamos a morte quando deixamos de saber escutar o melhor de nós e o melhor para nós, encalhados no Inverno dos sentidos.

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