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A MINHA ADOLESCÊNCIA DOIRADA

ARTUR COIMBRA
Perguntaram-me, por estes dias, para um trabalho escolar, se me recordava da minha adolescência e como é que ela foi. Se gostei dessa fase da minha existência, se sofri de Bullying e que dicas gostaria de deixar para os adolescentes dos nossos dias.
O exercício permite-me regressar a um tempo e a um lugar que são apenas memória, luminosa memória, cujo lastro de felicidade se recorda ao longo da vida.
Claro que me recordo da minha adolescência, passada entre Serafão, freguesia do concelho de Fafe, onde morava nessa idade e os locais onde estudava. A adolescência, como a infância, são tempos e lugares que nos ficam na memória pela vida fora.
A minha adolescência foi normalíssima, igual a tantas outras de tantas outras pessoas. 
Passei-a tendo como base a minha terra de afectos, onde fiz a escola primária e onde apenas saí na juventude.
Era adolescente quando, com pouco mais de 11 anos, tive a minha experiência de trabalho infantil numa pensão em Guimarães. Fui criado para todo o serviço, durante um mês e meio, em que perdi mais que o que ganhei…
Pouco depois, parti para a Telescola em Garfe, a 4 quilómetros, que fazia a pé todos os dias, mais os meus colegas, fizesse sol ou chovesse a cântaros, passando por estradas e caminhos, mas também pelo meio de milheirais, que eram assombrosos, sobretudo de inverno, quando regressávamos a casa, noite cerrada, depois das 20h00, no final das aulas…
Depois, de Serafão parti para o Colégio de Fafe (que hoje já não existe) e mais tarde para o Liceu Sá de Miranda, em Braga.
Na minha adolescência em Serafão fiz o que todos normalmente fazemos: convivi com os meus amigos em festas, joguei futebol, tomei banho no rio em Fevereiro (e depois levava umas justas lambadas da minha mãe…), namorei, metia-me com as meninas, fiz asneiras, rasguei as calças a subir as árvores para ir aos ninhos, levei passarinhos sem penas para casa, que um ou dois depois morriam, obviamente. 
Fiz trinta por uma linha, como é normal…
Mas ajudava também (e muito) a minha mãe nas tarefas agrícolas, nas sementeiras, nas mondas, nas regas, nas colheitas, porque o pai estava emigrado em França, onde esteve quase um quarto de século, na primeira grande leva da emigração dos anos de 1960/70 do século XX. O que mais me custava era malhar centeio em Agosto, pelo imenso calor e pelas intensas nuvens de pó que entravam para a garganta e para os pulmões.
E aqui comecei, na adolescência, a escrever poemas. Foi na adolescência, em que muito li e escrevi, que começou a minha faceta de autor… Pelos meus 13 anos, comecei a publicar poemas num jornal de parede da Telescola de Garfe…
Gostei francamente desta fase da minha vida, em que as brincadeiras eram muitas e as responsabilidades muito poucas, além de ter de estudar, como é evidente. E, sem falsa modéstia, posso gabar-me de ter sido sempre um óptimo aluno (ao que me dizem os meus colegas e os meus professores dessa altura…). 
Sempre gostei de colocar o melhor que sou em tudo o que faço, na senda do poeta Fernando Pessoa. Quando era para estudar, era para estudar e não era para brincar ou para me distrair…
A adolescência é normalmente associada ao tempo do crescimento, nos mais diversos níveis, da diversão, da despreocupação. Também aconteceu isso comigo, obviamente…
Na adolescência (e depois também na juventude) moram as melhores memórias do que fui, os caminhos que percorri, os campos que atravessei, as brincadeiras que fiz, as travessuras em que participei, as amizades que cultivei.
Enfim, a adolescência está associada ao melhor de mim, à minha vida no campo, à liberdade, à amizade, e também à criatividade, pois é preciso lembrar que, ao contrário do que hoje sucede, éramos nós que tínhamos de inventar e fabricar os nossos brinquedos – de madeira, de verguinha, de borracha, etc. Porque na altura não havia dinheiro para brinquedos fabricados em série, nem havia televisão em cada casa, nem muitas vezes electricidade. E as crianças e adolescentes tinham de brincar, e faziam-no a maior parte das vezes na rua, nos caminhos, nas estradas (o movimento de carros eram muito pequeno…) ou nos campos.
Brincávamos o dia inteiro, quase nos esquecendo de comer!…
Na aldeia, dizia-se que, na adolescência, se passa de “pito para galo”. Como toda a gente nesta idade, começa-se a ficar um homem. Crescem os pelos por todo o lado, comecei a ter um bigodinho jeitoso, que depois foi uma imagem de marca, durante mais de três décadas, e agora é apenas lembrança…
Nessa fase da vida, começa-se também a “olhar para a sombra”, a gostar das meninas, a estar mais do seu lado. É o começo dos namoros, uns mais passageiros, outros mais prolongados.
É uma fase de turbulência interior, mas sempre de crescimento, de experimentação (vinho, tabaco…), de procura de novas sensações e emoções.
No meu caso, além da aparência física que se alterou, naturalmente, também cresci mentalmente e intelectualmente, fruto do estudo, das leituras, das conversas com os amigos e dos ensinamentos dos mais velhos.
Comecei a escrever os meus poemas nessa fase e uma outra coisa: a adorar a música. A partir das 12/13 anos, ouvia música todo o dia, na rádio, que era o único veículo que tínhamos à mão, além dos discos em vinil, caríssimos, em programas que passavam sobretudo a música rock. Dos Rolling Stones aos Black Sabbath, aos Ledo Zeppelin e aos nossos 1111, e tantos outros.

Toda a vida gostei de música, de todo o género, o que ainda hoje acontece.
É claro que nessa altura não se falava dessa coisa do Bullying.
Não me lembro de ter sofrido de Bullying em nenhuma fase da minha vida. Na minha adolescência ninguém falava desse conceito e dessa palavra e não me recordo de haver alguém, na escola ou na rua, que fosse humilhado ou ofendido, física ou psicologicamente. Havia brincadeiras e muitas vezes zangas entre nós, muitas vezes resolvidas à pedrada, ou ao bufardo, mas coisas momentâneas, nada que se parecesse com essa prática continuada de humilhação física e psicológica de outras pessoas como constantemente vemos na comunicação social.
Dicas para os adolescentes de hoje em dia?
Não é fácil, nem eu sou especialista, até porque não lido directamente com adolescentes. Os meus filhos já são bem adultos.
Em primeiro lugar, julgo que a regressa primordial será respeitarem os outros, todos os outros: os pais, os avós, os irmãos, os amigos. 
Que sejam tolerantes em relação aos seus colegas e amigos.
Que consigam um adequado controlo emocional, mental, para gerirem da melhor forma os conflitos que possam surgir.
Que sejam amigos dos seus amigos. Sinceramente.
E, já agora, que aproveitem esta fase da sua vida, que passa depressa, para se divertirem, positivamente, para brincarem, para ajudarem os outros e, também, para se empenharem a estudar, porque é da sua formação académica que depende o seu futuro.

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