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CANTAR ÀS ESTRELAS

CARLA LIMA
O Cantar às Estrelas é uma manifestação cultural, mas sobretudo religiosa, que encerra o período das celebrações do Natal. É comemorado em diversos pontos dos Açores, sendo o mais relevante na cidade da Ribeira Grande, na Ilha de S. Miguel.
O Cantar às Estrelas resulta de uma tradição secular assinalada na noite de 1 para 2 de Fevereiro que, na forma dos actuais cantares, remonta apenas ao século passado, mas que pode recuar, juntamente com outras formas de folia popular até ao Século XVI, altura em que Nossa Senhora da Estrela, a padroeira do Concelho da Ribeira Grande, já era festejada quer do ponto de vista religioso, quer do ponto de vista profano.
Quanto ao seu aparecimento, não se tem conhecimento da data precisa, sabendo-se que se canta sempre pela altura da celebração da festa em honra da referida Nossa Senhora da Estrela ou Nossa Senhora das Candeias. Daí ser um cantar de devoção a Nossa Senhora, com música própria e diferente da do dia dos Reis, como se pode constatar na seguinte letra: “Hoje é véspera das estrelas. Amanhã é o seu dia. Cantam os anjos no céu. Com prazer e alegria (ou) Ao lado da virgem Maria”.
O Cantar às Estrelas, além de uma tradição, também está associado à ideia de fertilidade e de boas sementeiras e pescarias.
Tendo começado por ser uma manifestação espontânea de grupos de homens, rapidamente se alargou a grupos maiores, de diferentes idades e estratos sociais, com mais instrumentos musicais e incluindo mulheres e crianças, mostrando-se assim como um evento de amizade, alegria e partilha.
Era de esperar que fosse uma tradição que se perdesse com o tempo. Mas aconteceu precisamente o contrário. Há cada vez mais grupos a surgir todos os anos e festeja-se cada vez em mais sítios dos Açores.
É costume dos grupos que participam nos desfiles do Cantar às Estrelas parar para cantar em casas particulares, onde são recebidos com um licor ou outra bebida quentinha, para aguentar o frio até ao final da noite. E com tanta cantoria a garganta deve ficar seca…
À Senhora da Estrela
“Olhei no céu as estrelas,
Tão lindas e todas elas
Em constante cintilar,
E delas, em carreirinhas
Vi tantas, tantas, miudinhas, 
Tentando também em brilhar.
E, lá longe, muito distante.
Uma delas fulgurante, algo tinha de divulgar,
Olhei-a assim com demora
E vi-a como que senhora 
De beleza singular.
Era linda aquela estrela,
Olhando o céu a revê-la
Nunca mais a encontrei,
Nela assim fiquei pensando, 
A ela fiquei rezando,
Ou por ela nem eu sei.
Tomei-a por minha guia,
Para que em cada dia,
Me ajudasse e assistisse,
E me fosse companhia
Mesmo que nunca mais a visse.
Mas em fria madrugada,
Em festa à Imaculada,
Coisa estranha aconteceu,
Olhei, e vi na capela,
A Senhora era a estrela, 
A que vira brilhar no céu.”
Laureano Almeida

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