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FILOSOFIA DA POESIA: UMBILICALIDADE(S) CRIATIVAS

«Não nos espantemos, que uma coisa é o poeta a outra o filósofo ainda que sejam a mesma.»
Fernando Pessoa
ISABEL ROSETE
A Poesia como poiesis-sophia (entendida, a um tempo, como criação-de-sabedoria e sua expressão-desvelamento criativo) e a Filosofia (assim focalizada conceptualmente, apesar das dissemelhanças entre ambas, particularmente quando nos debatemos com a especificidade dos respectivos sistemas e géneros de escritura) possuem um entre-lugar habitante no debate sobre os conceitos de Verdade, de Autenticidade e de Existencialidade, prolongados na incumbência do devir perene da História, residentes historialmente desde os filósofos gregos (Heraclito, Parménides, Platão ou Aristóteles), sempre contemporâneos (no sentido Agamben), até à tradição Moderna do estudo da Obra de Arte, amplamente considerada, e da Poesia concebida, em concomitância, na sua particularidade e no seio de todas as formas da Arte se manifestarem. Assim emerge o seu visionamento a partir de Fichte, Kant, Baungartem, Schopenhauer, Schlegel, Novalis, Goethe, Wagner, Nietzsche, Auerbach, Heidegger, Sartre, Thomas Mann ou Bachelard.
Não obstante a especificidade exegética de cada um destes autores (entre outros que poderíamos mencionar) há, porém, algumas questões cruciais que se erguem em derredor desse relacionamento de umbilicalidade e/ou de primazia entre a essencialidade do ser-Poesia e do ser-Filosofia:
1. O que significa a Filosofia colocada em vigor e numa consonância com os mais estritos domínios da Poesia?
2. Como pensar, de forma contemporânea, a unidade relacional entre Filosofia e Poesia, se os desdobramentos históricos da “tradição” designaram a Filosofia como o discurso da totalidade do real e a Poesia como o discurso do eu-manifestante, o nomeado eu-lírico pelas escolas críticas?
3. Até que ponto estas conceptualizações fragmentam o sentido de reunião que o Pensamento teórico solicita?
Na contemporaneidade, é inviável pensar numa trajectória de reflexão teórica sem a experiência da negação da “culpa” ou do “pecado”, noções infligidas no Ocidente após o advento do Cristianismo. O viver sem “culpa”, enquanto manifestação do Ser, concretiza a experiência do rompimento ontológico com a tradição metafísico-cristã, ao mesmo tempo que faz emergir, inaugurando, o homem-poético como ponte e não como ponto. Só a vivência livre de “culpa(s)” pode proporcionar a respiração autêntica na ambiência da atmosfera da liberdade necessária à presença e à emergência da Obra de Arte (seja qual for a sua forma de manifestação) como mensagem-apelo de um dado mundo, de mundos vários, de visões-de-mundos diversificadas e inter-activas, inscritas nessa aura da poiesis-poética. Neste sentido, parece-nos evidente quer a invocação libertária da matriz schopenhauriana, quer da senda heideggeriana do erigir do Pensamento genuíno na sua originariedade, esse que que diz e nomeia, primogenitamente, as coisas-mesmas na sua verdade e na clareira do Ser, pastoreando-o na Linguagem des-veladora.
Só o Pensar poietico – entendido no seu acto de força criadora do erguer-obra em acontecimento inventivo/heurístico do desvendamento oposto à “mimesis” – pode tornar-se aberto, redondo, capaz de responder à invocação da Escuta primeira. Impõe-se, amiúde, a Orelha perante o Olho, a Audição face à Visão, alargando o paradigma do Ver instaurado desde Platão (que, neste sentido, traiu Sócrates e o primado da oralidade) ao paradigma da Audição (Hӧlderlin refere: desde que deixámos de ser Diálogo, deixámos de nos ouvir uns aos outros – evocando, assim, a problemática do silêncio surdo e, mormente, do ruído ensurdecedor). A presença da Escuta indica-nos a busca de uma correspondência entre o Pensar e o Poetar que, segundo a leitura de Martin Heidegger e a nossa, permite a formação de uma semântica vasta das noções de Pensamento/Linguagem/Poesia na sua conexão à Filosofia: “Mas pelo facto de a poesia, em comparação com o pensamento, estar de modo bem diverso e privilegiado ao serviço da linguagem, quanto se medita sobre a filosofia somos necessariamente levados a discutir a relação entre pensar e poetar.”
A passagem, note-se, de uma Filosofia sistemática para um filosofar de apreensão poietica do mundo é, iniludivelmente, um acontecer da Liberdade. As possibilidades alternativas que a Poesia possui, enquanto universo hermenêutico, reflectem o Cosmos do mito grego, aquele que resguarda os enigmas dos caminhos do campo em terra silente, nesse pastoreio do Ser advindo à Linguagem. O que o Pensador cria é fruto disso que, ontologicamente, lhe chega como Escuta e o convoca a pensar. Todavia, o que é que um sistema filosófico pode suscitar como paixão?
Uma poietica do reencontro, onde a Filosofia e a Poesia se estabeleçam como intermediárias da teorização, pode ser a fagulha de uma experiência pensante que permaneça como uma questão de vigor e cuidado, que mantenha as origens do filosofar enquanto potencialidade da interrogação e não como confecção de respostas conclusivas. Por sua vez, uma questão de vigor é, em si mesma, uma indagação em que o tempo insiste em semear de forma cuidadosa; é uma questão que exige promover, mesmo depois de uma resposta, uma nova questão. Trilhando os caminhos da poietica, a Filosofia continuará a despertar paixões vindouras, continuará a tecer os mistérios do futuro a partir do tecido enigmático da memória.
A poietica da apreensão e apego ao Sentido, qual raio e rasgo da temporalidade permanente do questionamento, imprime a forma privilegiada da educação do olhar, em prol de uma compreensão mais vasta do Pensamento e da Linguagem ontologicamente coligidas. A Linguagem enquanto modo de desvendamento ao serviço do Pensamento do Ser, dizendo-o pelas palavras-de-origem, exalta-se no seu esplendor poietico numa travessia que re-unifica

a Poesia e a Filosofia como integração do pensar originário dos pensadores pré-conceptuais sem negar, entretanto, a potencialidade humana para formular conceitos e sistemas.

Na Poesia, a Filosofia adquire a concretude visível da leveza do versejar e, poieticamente, reencontra a harmonia de uma era outrora consagrada em exaltação perfeita, não obstante a sua contemporaneidade evidente, uma vez que o Poeta funda a permanência, fuda o que realmente permanece, antes que a Filosofia possa tomá-la como sua, antes que a Filosofia a pudesse ter perseverado na sua obstinada procura do que é permanente. A Filosofia inicia-se, justamente, como esse saber do canto do bardo e, nem sempre, deixa de se perder desse recanto, segundo algumas perspectivas comuns dos seus difamadores, as quais não subscrevemos, pois a inversão das separações ou fragmentações toma como guia, em última instância, a lógica da re-união, porque Pensar poeticamente integra as múltiplas experiências e visões do mundo na vastidão do saber e a saga da Linguagem, enquanto pensar poietico, direcciona-se para esse saber que requisita, per si, o re-unir como gesto necessário do Sentido e do conferir sentido ao Conhecimento e aos conhecimentos em ambiência de integração e de inter-acção inclusivas. O pensar poietico move-se, justamente, pela superação do estruturalismo conceptual, dos paradigmas cartesianos e metafísicos dualistas e das tendências do cientificismo, promotoras da percepção reducionista contemporânea pautada, de igual modo, pelo princípio da segmentação da Ciência.
A apologia imperativa do pensamento re-unificador, tal como se manifesta em Schopenhauer – em virtude, sobretudo, da proximidade tecida entre a musicalidade, a tragicidade e a Filosofia – e, principalmente, em Heidegger, pelo estreito vínculo da Filosofia e da Poesia, significa o estabelecimento de uma nova condição atribuída ao pensar: impera a permanência no Ser, qual solo natal evocado pelos Poetas, decifradores de enigmas e redentores do acaso, portadores da voz primeira, amigos da casa-do-mundo, quiçá visionários, quiçá criaturas aladas, errâncias entificadas e entretecidas na quadratura, no espaço do humano e do divino, do terrestre e do celeste.

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