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HISTÓRIA LOCAL – AS MONOGRAFIAS

MÓNICA AUGUSTO
Homenagem a Vasco Moreira
Para que se possa fazer investigação histórica há que partir sempre das fontes, sejam elas de que género forem. Nada se pode afirmar partindo apenas da própria intuição do historiador, há que fundamentar e documentar as afirmações que se fazem. Assim, as fontes são o ponto de partida e de chegada da investigação histórica: ponto de partida porque vão dando pistas acerca do que se passou, pistas que o historiador vai seguindo, desenvolvendo o seu trabalho, e ponto de chegada pois conferem validade à investigação.
Na História Local e Regional a análise e interpretação das fontes torna-se ainda mais complexa particularmente no caso de o historiador investigar a sua região de origem, já que é obrigado a um maior esforço de isenção. Caso tal não aconteça poderá cair no erro de se deixar levar por lendas e dados que teve desde sempre como verdadeiros. Contudo, este tipo de investigação torna-se, ao mesmo tempo, mais aliciante na medida em que o investigador pode não só obter um conhecimento mais aprofundado acerca do meio em que está inserido como também pode partir para o questionar e eventualmente, reformular as convicções dominantes. Neste sentido, torna-se necessária uma análise e crítica cerrada das fontes utilizadas e sobretudo isenção.
Entre as várias fontes possíveis, de diferente tipologia, procedemos a uma breve análise de uma monografia, mais concretamente a Monografia do Concelho de Tarouca da autoria do Padre Vasco Moreira e que data de 1924. Desta fonte podemos retirar informações a diversos níveis e âmbitos, dependendo da forma como forma analisada. A “Monografia do Concelho de Tarouca” foi produzida pelo Abade Vasco Moreira em 1924. Parece-nos que quando se inicia um trabalho de investigação este tipo de fontes serem de grande utilidade pois servem como ponto de partida, ao pretenderem transmitir uma visão global da evolução de uma determinada comunidade. O historiador deverá analisar este tipo de fontes tendo em conta o contexto em que esta foi produzida, as características do autor e eventuais intenções disfarçadas e nunca tomar este tipo de fonte como completamente fidedigna. Se assim fosse nada mais haveria a dizer acerca de um concelho ou de uma freguesia, o trabalho histórico abandonaria a sua pertinência.
Esta monografia foi elaborada em 1924 e, por isso, poder-se-á inserir numa fase de transição do país, em que o movimento regionalista vai ganhando adeptos. Numa época em que o concelho de Tarouca tinha já os seus limites bem definidos, ainda que não há muito tempo: o concelho havia sido restaurado em 1898.
Durante a década de 20 do século passado a produção de monografias foi maioritariamente levada a cabo pelos párocos e vistas com desconfiança pela comunidade científica. O mesmo sucedeu com a monografia de Tarouca, também ela produzida por um pároco, facto que a pode condicionar. O Padre Vasco Moreira (1879-1932) nasceu em Sernancelhe e estudou no Colégio de N. Sra. Da Lapa, no Liceu de Lamego e em 1898 (ano da restauração do concelho de Tarouca, à qual assistiu), matriculou-se no Seminário de Lamego. Em 1901 ordenou-se presbítero. Paroquiou a freguesia de Paçô, concelho de Moimenta da Beira, e em 1904 foi colocado como Abade de S. João de Tarouca, facto que julgamos ter condicionado toda a obra, onde permaneceu até falecer. Escreveu artigos em vários periódicos regionais e em jornais de Lisboa. Para além da “Monografia do Concelho de Tarouca”, escreveu em 1929 a obra “Terras da Beira”. Em 1911 foi nomeado diretor e organizador do Museu Regional do Concelho de Lamego, cargo ao qual renunciou em 1915, sem ter tomado posse. Colaborou com Leite Vasconcelos que a seu pedido se encarregou das escavações arqueológicas do Castro Mondim-Paçô. De salientar que Leite Vasconcelos dedica a sua edição de 1932 das “Memórias de Mondim da Beira” ao seu amigo Vasco Moreira, falecido nesse ano. Em 1929 Vasco Moreira teve a seu cargo a regência da cadeira de Arqueologia do Seminário Diocesano de Lamego, facto que comprova que seus conhecimentos no âmbito da arqueologia seriam respeitáveis, tal como a sua eleição, no mesmo ano, para sócio da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Faleceu em 1932 em S. João de Tarouca, partida que, segundo Leite Vasconcelos, causou grande consternação e tristeza na população.
À semelhança de muitas outras escritas sobre diferentes zonas do país e que, de resto, seguem mais ou menos a mesma estrutura, esta monografia é uma fonte importante e curiosíssima por despertar o investigador para a reflexão acerca de variadas questões. Para além de ponto de partida, esta é também um elemento de fomento da curiosidade histórica. 
Fica a homenagem ao seu autor, que levou a cabo um trabalho exaustivo e o desejo que esta obra receba a devida valorização e notoriedade.

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