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UMA AVENIDA DIRECTA PARA O BOM-JESUS

JOAQUIM DA SILVA GOMES
São várias as ocasiões em que nos deparamos com projectos que visam a construção de grandes obras públicas. Isso é visível a nível nacional (veja-se o caso do TGV ou do novo aeroporto em Lisboa) e também a nível local. Muitas delas, de tão megalómanas, não chegam a passar do papel. 
Esta situação vem a propósito do sonho que eclodiu em Braga, na parte final do século XIX, que visava a construção de uma enorme avenida, em linha recta, que ligasse a Avenida Central ao Santuário do Bom-Jesus, obra que ficaria, na altura, por cerca de 620 contos. 
A enorme religiosidade da época e a crescente importância deste santuário fez com que a Câmara Municipal de Braga, em sessão extraordinária realizada no dia 14 de Março de 1889 (o Presidente da Câmara Municipal era, nesta altura, o Conselheiro João Carlos Pereira Lobato de Azevedo), apresentasse uma petição dirigida ao Rei D. Luís, para que este patrocinasse a construção desta imponente obra. A importância desta petição, que foi publicada no semanário “Cruz e Espada”, (23 de Março de 1889) cujo redactor e director era Bernardino José Senna Freitas, justifica a sua transcrição na íntegra: 
“SENHOR
O Real Santuario do Bom Jesus do Monte, que se ostenta sobranceiro e magestoso, a 3 kilometros d’esta cidade de Braga, na encosta da collina, que se lhe defronta a nascente e que muito se recommenda a nacionaes e estrangeiros pela magnificencia do seu templo, pelo sublime e piedoso fim, que inspirou tão sumptuoso monumento e pelo pitoresco e aprasivel local, em que a natureza pompeia a mais luxuriante, graciosa, encantadora e rica vegetação, sobrepujando os esforços da arte nas obras de importantes melhoramentos, que alli se teem operado e continuamente emprehendido – tem sido sempre, é e não pode deixar de ser, para os munícipes bracarenses, o mais estremado objecto do seu afervorado culto e dos mais encandidos enthusiasmos, como é a mais prestigiosa e firme esperança do seu progresso e prosperidade, pelo incessante concurso de innumeros romeiros e visitantes, que de toda a parte alli affluem, attraidos pela piedosa fama d’este Santuario e pelo renome dos mágicos encantos e aprasiveis seducções, que o cercam e em que a natureza é exuberantemente prolifica.
V. M. e a Real Família, que alli residiram durante poucos mas para nós mui felizes dias, por occasião da real visita, com que muito nos honraram, em Outubro de 1887, tiveram ensejo de apreciar as magnificências do Santuário, as bellezas e encantos do local, e de observar o admirável horisonte, que se dilata largamente e a formosa paisagem, que se desenha no extenso valle; e por isso comprehende bem V. M. quão justificado e o sentimento de fervorosa dedicação, que todos nutrem pelo progresso do mesmo Santuario. 
Não é, pois, para estranhar, que os munícipes bracarenses, inspirados n’aquelle sentimento e na sempre ardente e nobre aspiração de vêr progredir e prosperar a capital d’este districto a par d’outras cidades do paiz, onde se teem realisado e estão emprehendendo notáveis melhoramentos à sombra vivificante e protectora do governo central, concebam o elevado pensamento de abrir uma grande avenida, em direcção áquelle Santuario e em linha recta, desde o campo de Santa Anna d’esta cidade ate ao pórtico das primeiras capellas, como indica o respectivo ante-projecto. 
O pensamento é abraçado com unanime enthusiasmo, a boa vontade manifesta-se em todos, vivida e impaciente, todos desejam cooperar, embora como sacrifício, para a realisação d’este importante melhoramento; porém a conjuncção da unanime e insistente boa vontade, dos esforços de todos e dos recursos municipaes, está bem longe de poder rivalizar com tão custosa obra, como mostram os orçamentos respectivos. 
Uma via de communicação, para o Santuário, ampla e fácil, como a projectada, é um melhoramento de há muito reclamado por todos os que conhecem a actual estrada, que em grande parte é de diffícil accesso e no seu todo de acanhadas proporções e muito mais depois que n’ella se estabeleceu a via americana de locomoção a vapor, tornando-se incommoda e até perigossisima na epocha de romagens e durante toda a estação de Verão e parte do Outono, em que o seu transito é muito frequente e numeroso.
SENHOR:
A câmara municipal d’esta cidade e concelho de Braga, no honroso desempenho das suas attribuições de promover e realisar os melhoramentos materiaes da sua circumscripção municipal, como legitima e fiel interprete dos seus munícipes perante os poderes superiores do Estado e em harmonioa e plena concordância com a sua vontade repetida e instantemente expressa e com as suas aspirações, de todo o ponto justas e nobres e que bem merece a attenção e deferimento por muitos títulos – resolve, em sessão extraordinária de 14 do corrente mez, fazer subir a Vossa Magestade a presente supplica, e solicitar a graça da mui valiosa e altíssima protecção de tão insigne, erudito, integérrimo e patriótico Monarcha, afim de que o seu governo, que muito solicita e sabiamente dirige os altos negocios do paiz, lhe faça a distincta mercê de cooperar na realisação da projectada avenida, encarregando-se da sua construcção, que pela sua parte este município obriga-se ás expropriações, que forem necessarias para o mesmo fim, sendo esta câmara de parecer que deverá adoptar-se a linha azul indicada no perfil longitudinal por muito mais economia e prestar-se a edificações.
Convencida esta câmara de que o seu pedido é plenamente justo, por que o Real Santuário do Bom Jesus do Monte é geralmente considerado como um dos monumentos nacionaes, que muito illustram o nosso paiz, e tambem porque, esta cidade, sendo a terceira do reino e a primeira da província do Minho, tem incontestavel importancia e bem merece o auxílio que solicita para o seu grande e utilíssimo emprehendimento; e confiada na regia magnanimidade tantas vezes manifestada em reiterados actos de notável munificencia.
Pede e espera, que V. M. lhe fará a relevante graça de lhe deferir.”.

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