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AMOR MAIOR

ANA SILVA
Ela chegou primeiro. Vinha suja, cansada e faminta. O seu aspeto refletia que a vida lhe tinha sido madrasta. Ali passou a viver da solidariedade das pessoas que lhe deram abrigo e comida. Ia e vinha como bem lhe apetecia, passava dias sem aparecer. Era uma alma livre! Mas era também uma alma forte! Passou a defender aquela terra à beira rio plantada como se tivesse sido sempre dela! Aquele pedaço de paraíso que um portão sempre aberto e uns muros separavam da cidade… Acho que finalmente era feliz! Os longos passeios à beira rio e as pessoas que passaram a fazer parte da vida dela, davam-lhe toda a segurança e felicidade que precisava! Havia senãos claro, havia pessoas más, que achavam que ela não podia ser benvinda àquele local, mas tal como ela defendia aquela terra que não era dela, as pessoas defendiam-na como se toda a sua vida tivesse sido vivida ali…
Depois veio ele. Entrou no portão, sempre aberto mas agora guardado, encolhido e assustado. Ela deixou-o entrar, talvez por se recordar a si mesma há uns meses atrás. Deixou que recebesse os cuidados das pessoas que tão bem a receberam a ela e permitiu que também ele fizesse parte daquela “família” no paraíso à beira rio. Ele deixou-se cuidar, cuidando ele que amor melhor não havia! Tornaram-se inseparáveis! Eram um do outro desde ali, talvez para sempre, quem sabe… Ela, alma forte e independente tinha nele um seguidor para a vida! Ela, que se desenrascava tão bem sozinha, começou a ter de se desenrascar pelos dois! Ele defendia aquela terra tão bem como ela, mas só para se mostrar capaz e sempre na sua sombra… Os longos passeios à beira rio passaram a ser a dois. A vida dentro e fora dos muros era partilhada!
ELA CHEGOU PRIMEIRO
Ainda hoje existe amor, um amor benigno e sossegado… Não se trata de um amor maníaco, que não permite que vivam um sem o outro e que implica que se amem apenas um ao outro… Se ele se ausenta ela sobrevive, é forte o suficiente para não se deixar abalar. Ele, se ela se ausenta, procura o amor noutro ser, pela sua particular carência de afeto. Mas quando se reencontram é perfeito! Passe o tempo que passar, quando se vêm é como o primeiro dia, quando ela o deixou entrar naquele portão! O final desta história não interessa, acabe bem ou mal, o amor foi vivido aos olhos de quem quis ver! Podia ser a história de qualquer um de nós em qualquer altura das nossas vidas, mas não é! É a história de um cão e uma cadela, o Lindo e a Linda!
Não me digam que eles são incapazes de amar! Seja de amar outro da sua espécie ou o seu humano! São capazes sim, e só quem não se permite a observar com o coração é que não os acha capazes!
DEPOIS, VEIO ELE
A Linda hoje está mais longe das pessoas que a acolheram naquele dia, mas se ouvir um assobio, se sentir um cheiro ou qualquer outro sinal familiar, basta a reação dela para provar que ama, e que vai amar sempre os que lhe fizeram bem! Até acredito que se a Linda ou o Lindo ou outro qualquer cão virem o dono que outrora os abandonou são capazes de esquecer, perdoar e abanar a cauda como se aquelas fossem as melhores pessoas do mundo!
Não acham que este é um amor maior que o nosso?
Escrevo-vos como membro da Direção da Associação Ajuda Animais em Amarante e a todos os que permitiram que o Lindo e a Linda sobrevivessem, a Associação agradece! O Lindo já tem uma casa para sempre e a Linda está quase a conseguir uma também! 
Por eles tudo!!!

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