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RITUAIS DA VIDA

REGINA SARDOEIRA
Lentamente, as cores da primavera disputam o espaço sombrio do inverno e uma certa alegria acolhe-se, primeiro, aos sentidos que a desfrutam e, aos poucos, aligeiram a mente e o ânimo de quem, sendo natureza, a ela se molda inexoravelmente. Falo dos homens, claro. Os animais intuem os rituais da vida e vivem a serenidade, sem queixumes, do ambiente que lhes dá o ser; as plantas conhecem, de um conhecimento intrínseco ( diferente, em tudo do nosso), a hora de florir ou de murchar; os homens precisam de motivos fortes para acederem à fruição. Alegramo-nos com a Primavera mas não conseguimos percebê -la no rigor do Inverno – que ela esteve sempre lá, afundada no manto do húmus. E permitimo-nos ficar saturados de chuva e de rajadas e das nuvens plúmbeas ao rés da tempestade. 
Somos a inquietação profunda de viver, devoramos o tempo, minimamente somos capazes de fruir o instante. Mas ele está lá, mesmo que o nosso olhar, embaciado na torrente das tarefas comuns, desdenhe o sinal enviado, cedo destruído pela forca do nosso peso. Somos pesados, sim, terrestres agarrados ao chão quotidiano, incapazes de levantar o véu que nos vai ocultando a semente do fluxo de viver. E quando a ave chilreia na madrugada, nem sempre sabemos ouvir a sua voz. 
A Primavera anda por ai, pouco lhe importa o calendário e não espera para exibir o seu triunfo. Em Dezembro soube que as flores amarelas das mimosas estavam ansiosas por explodir em cachos perfumados; mas depois, os temporais violentos e o frio, da época em que deviam ter saído para a luz, abrandou-lhes o fulgor. Elas souberam (de um saber diferente do nosso, claro) que, de ramos partidos e fustigados pala intempérie, não poderia ser dada à luz a euforia que lhes é própria. E impediram-se de florir. 
Vi os seus ramos vergados, depois da tempestade, e vim a perceber que as flores se recolheram, como se’ tacitamente, houvessem comunicado uma decisão colectiva. Certos sítios, por onde passo, revelaram-me este acordo vegetal de uma planta sensata que não se abre de todo porque não encontra o cenário adequado à sua apoteose. 
Nós, humanos, forçamos a natureza em nós. Incapazes de acertar o passo com o ritmo da vitalidade, na natureza que somos, revoltamo-nos com a tempestade, queremos exorcizar o frio, afrouxamos perante a neblina, alegramo-nos quando o sol brilha – se de tal dermos conta. Mas queixamo-nos sempre. E é este queixume milenar, este querer o que não está ali e não ver o que, estando, permanece oculto ou disfarçado, que faz de nós uma triste condição. 
Se assim me pronuncio, é porque observo. Há pouco, já de noite, vi que alguém saiu de um carro deixando lá dentro, sozinho, um cão. O alarme do automóvel tocava e eu aproximei-me. O animal fitou-me com laivos de apreensão no rosto triste, não fez qualquer movimento, não reagiu a mim, que tentei comunicar. Percebi que, na sua especifidade de cão, ele estava preocupado e infeliz por se sentir, daquele modo, abandonado. O cão comunicou-me uma série de pensamentos, uma multidão de sensações, naquele seu mutismo resignado por detrás do vidro do carro; o cão, privado da sua natureza e quase convertido a uma espécie inferior de humanidade, sabia que aquele abandono, no meio da cidade não lhe era conveniente. 
Ver este quadro produziu em mim uma impressão indizível. Imagino que, a estas horas, o animal terá sido levado para casa e dormirá no seu espaço de todos os dias; mas, o que sobrou em mim, na memória, foi o silvar agudo do alarme e a fisionomia triste do cão abandonado. 
Não faço ideia se escrevi, hoje, um texto profundo. Não sei se articulei, coerentemente, ideias e palavras. Para todos os efeitos, esta é, sem dúvida, a crónica do meu dia.

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