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ENVELHECIMENTO ACTIVO E A INCAPACIDADE FUNCIONAL

GABRIELA CARVALHO
Relembrando a crónica de 06.01 sobre o Envelhecimento Activo: de acordo com a Organização Mundial de Saúde (2002) é definido como “o processo de optimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objectivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas” (OMS, 2005).
O envelhecimento é um fenómeno amplamente estudado na actualidade. Facto é que a população está a envelhecer. Neste sentido, importa cada vez mais pensar no envelhecimento na perspectiva de um envelhecimento activo, independentemente da condição da pessoa idosa.
Isto é, a tendência actual é as pessoas idosas experimentarem um maior número de doenças crónicas (uma vez que vivem mais anos), que a curto e a longo prazo, levam a uma maior prevalência de incapacidade funcional. Portanto, a capacidade funcional surge como um novo paradigma de saúde (Alves, Leite & Machado, 2008).
Assim, é importante existir a consciência de que uma pessoa idosa com uma doença crónica pode ser considerada saudável quando comparado com outra pessoa idosa com a mesma doença mas sem controlo desta e com sequelas incapacitantes associadas. Sendo assim, o importante é a capacidade para desempenhar as actividades e não as doenças propriamente ditas (Alves, Leite & Machado, 2008).
Evolutivamente, a definição de incapacidade funcional passou por várias fazes, sendo que apenas em 2001 a OMS estabeleceu uma nova abordagem conceitual para incapacidade através da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (International Classification of Functioning, Disability and Health: ICF) prevalecendo a componente da saúde ao invés da classificação de consequência da doença. Desta forma, a incapacidade funcional passou a referir-se quase exclusivamente a um declínio funcional (Alves, Leite & Machado, 2008; Ferreira et al., 2010; Ferreira et al.,2012).
Portanto, se por um lado a incapacidade envolve componentes como as condições físicas, mentais e emocionais; a incapacidade funcional relaciona-se apenas com o desempenho físico, podendo ser definida como uma dificuldade ou necessidade de ajuda por parte do indivíduo, essencial para a realização de actividades de vida diária básicas ou complexas, actividades na comunidade e mobilidade (Alves, Leite & Machado, 2008; Ferreira et al., 2010; Ferreira et al.,2012).
Operacionalizar a incapacidade funcional torna-se difícil, principalmente com pessoas idosas, sendo geralmente avaliada pelo auto-relato em conjunto aos instrumentos de avaliação de dificuldade e dependência (sendo estes mais fiáveis e mais utilizadas nos estudos) (Alves, Leite & Machado, 2008).
Portanto, o envelhecimento activo e incapacidade funcional, são questões que estão relacionadas com a identidade da pessoa idosa.
Anthony Giddens (2001, como citado em Silva, 2009) defendeu o conceito de identidade, afirmando que “A identidade como projecto reflexivo permite que as pessoas, em vários momentos da sua vida, se possam confrontar consigo, com o caminho que estão a tomar, reflectirem sobre ele e construírem e reconstruírem a sua própria narrativa (…) ”.
O desafio subjacente à adaptação permanece na identificação e estabelecimento de uma forma de vida, que é experienciada como correcta, para a produção de um sentimento de auto-realização, adaptação às novas rotinas e, conhecimento do potencial, limitações e desejos pessoais, ou seja, da sua causalidade pessoal (Dinis, 2006).
Cada indivíduo está geneticamente predisposto a compreender o mundo através das suas experiências. Cada acontecimento que o individuo vive adquire uma determinada importância correspondente à forma como o indivíduo vivenciou o mesmo (Dinis, 2006).
Por isso, as vivências de cada indivíduo contribuem para a integração de novos acontecimentos proporcionando a formação de objectivos de vida. É desta forma que a história de vida pode ser alterada em função das transacções entre o indivíduo e o meio ambiente transformando-se de forma a ficar mais congruente com os acontecimentos do passado (Dinis, 2006).
Ao nível da identidade, a literatura indica ainda que as pertenças geracionais são marcadas pelos acontecimentos sociais, políticos e económicos, por isso, construir simbolicamente um tempo social, é pensar sobre as marcas históricas e ideológicas colectivas nos percursos individuais (Silva, 2009).
Na passagem do tempo, cada geração partilha entre si acontecimentos, opiniões e valores que se tornam a base das memórias e histórias comuns e que influenciam e se constroem a partir dos percursos individuais. Neste sentido, Halbwachs defende que “toda a história da nossa vida faz parte da história geral” (1968, como citado em Silva, 2009). Assim, toda a identidade tem uma relação directa com os aspectos sociais, isto é, com a sociabilidade do indivíduo (Silva, 2009).
Por isso, não existe dúvida que o presente é parte fundamental na construção de uma geração: através do presente olhamos e explicamos o passado e as crenças de cada indivíduo. Os conhecimentos e as ideias que reconhecemos actualmente dão forma às memórias e à sociedade de ontem (Silva, 2009).
A identidade é então um conceito dinâmico que permite também compreender a inserção do sujeito no mundo e a sua relação com o outro.
Desta forma, a perspectiva de ciclo de vida permite uma análise integrada e contextualizada das oportunidades e das escolhas dos indivíduos, não sendo possível analisar o fenómeno do envelhecimento populacional e a dinâmica do Envelhecimento Activo (independentemente da existência ou não de incapacidade funcional), sem considerar as trajectórias de vida e sem esquecer que as pessoas (em geral) nos dias de hoje são mais autónomas na conduta do seu estilo de vida (Silva, 2009).
“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional proporciona vida aos anos.”
Referências Bibliográficas:

– Organização Mundial de Saúde (2005). Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde.
– Ribeiro, O., C. Paúl (2011). Manual de Envelhecimento Activo. Lisboa, Lidel – edições técnicas, lda.
– Torres, M. & Marques, E. (2008). Envelhecimento activo: um olhar multidimensional sobre a promoção da saúde. Estudo de caso em Viana do Castelo. Lisboa: VI Congresso Português de Sociologia.
– Vasconcelos, K. R. B. d., Lima, N. A. d., & Costa, K. S. (2007). O envelhecimento ativo na visão de participantes de um grupo de terceira idade. Fragmentos de cultura, 17, 439-453.
 

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