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O “CINEMA BU” DE ONDJAKI

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
No universo poético e narrativo de Ondjaki, cruzam-se as imagens e as palavras do universo cinematográfico. O “cinema bu” de Ondjaki percorre o poder mágico da oralidade, enuncia filmes imperdíveis, sequências inesquecíveis, atores inconfundíveis, imagens e desejos. As personagens rendem-se à magia e à alquimia do cinema e o narrador projeta um olhar cinematográfico.
Os pássaros projetam um imaginário cinematográfico, no universo hitchcockiano quando, em E se Amanhã o Medo, o cais cheio de gente precisa de voos rasantes de três mil ou quatro mil pássaros e, em O Assobiador, quando este atrai pombos e andorinhas à aldeia.
O imaginário cinematográfico define as vozes de Ondjaki porque os meninos de Bom Dia Camaradas adoram ver filmes do Trinitá, filmes de terror e de guerra; porque durante a fuga ao imaginado e mítico Caixão Vazio “parecia que as imagens iam correndo em câmara lenta, mas não era isso: éramos tantos a tentar sair pela porta que estávamos mesmo a andar devagarinho” (p. 69); porque a corrida da professora Isabel é descrita numa espécie de câmara lenta que estiliza e fixa o movimento. O cinema entra na narrativa quando o camarada António tem uma maneira de andar “quase tipo Charlot” (p. 75), quando, durante a despedida, Ndalu começou “a ver tudo em câmara lenta, como se fosse um filme a preto e branco: os copos a baterem, os sorrisos nas bocas de todos, a Petra com os olhos encarnados e, finalmente, o brinde!” (p. 112) e quando o narrador de Quantas Madrugadas tem a Noite compara as situações aos filmes de cobóis e ao suspense dos filmes de terror. Em Os da Minha Rua, a Irene “estava bem bonita com um vestido branco daqueles que o vento gosta de levantar nos filmes.” (p. 28). O conto Jerri Quan e os beijinhos na boca é o relato de uma ida ao cinema, de uma transgressão de dois namorados.
O mundo infantil gira à volta do imaginário cinematográfico. O Paulinho contava filmes do Trinitá, do Bruce Lee e dos ninjas, o Amílcar “tinha até uma pistola de madeira que parecia dos filmes do Trinitá” (p. 50) e o narrador fez um “poster de joelho no chão estilo filme cobói” com um chapéu que tinha “assim aquele estilo do Trinitá.” (p. 42). O bigode do professor de Geografia era “muito fininho tipo dos artistas dos filmes” (p. 83) e as suas atitudes são continuamente olhadas através do cinema – “as mãos dele fecharam a porta com estrondo e susto de filme de terror” (p.84). O camarada professor de Geografia tinha o bigode dos maus dos filmes.” (p. 85). O Nitó ia a caminho da escola de “fato branco e gravata azul, estilo lambreta de filme italiano a preto-e-branco. E o sorriso dele, esse já sem ser de estilo de filme tipo país mais nenhum, mas esse sorriso dele simples, aberto, tipo angolano mesmo” (p. 98).
O cinema entra na narrativa quando em Momentos de Aqui, depois dos ataques de Virgílio à capoeira, “tanto o discreto-abafado como o abrangente-exagerado, de uma maneira cinematograficamente instantânea” (p. 55); quando, em O Assobiador, na memória de KuMunuMunu, “as imagens passavam rápida e nitidamente do presente para o passado, detendo-se com alguma lentidão num episódio concreto da sua juventude.” (p. 73).
O cinema enquanto aprendizagem, enquanto símbolo de outros sonhos e de outras culturas, enquanto pretexto de outras identidades percorre o universo de Os da Minha Rua, A Bicicleta que tinha Bigodes e AvóDezanove e o Segredo do Soviético. Em AvóDezanove e o Segredo do Soviético, para o narrador, “dinamite era uma palavra dos filmes dos cobóis tipo Trinitá e o gordo Bud Spencer com as barbas dele.” (p. 18) e “Nos filmes de cobóis, dinamite é para rebentar comboios, casas ou mesmo grutas para encontrar o ouro.” (p. 19); o “SenhorOsório parecia motorista dos filmes a preto e branco” (p.88), o 3,14 “cruzou os braços, parecia xerife dos filmes” (p. 101) e o protagonista apaga a “luz da casa de banho para ninguém me ver de longe, aprendi isso num filme de guerra ou alguém tinha me contado.” (p. 22) e agita “para ele te bombardear com napalm dos filmes do Vietname.” (p.105).
Os Transparentes definem o cinema num espaço de diversão, de uma nova estética (a oitava arte) e de uma nova interatividade. Constrói-se um cinema “desoficial”, que não precisa de papéis, e que tem “sessões da tarde, com porrada e tal, uns bruce lins… e à noite algo mais quente, umas porno xaxadas, bilhete mais caro (p.146). O cinema GaloCamões define um projeto criativo, um espaço de arte, prazer, negócio, fascínio e necessidade. A oitava arte permite a fusão entre a imagem projetada e a génese vocabular de quem vive ao máximo aquela experiência “cinematografal”.
O percurso das estórias, do poder mágico da oralidade, dos imaginários transmitidos pelo ancião, pela raiz e pela origem, pela avó Catarina, a avó das “janelas abertas”, detentora do poder dos contos em vida e protagonista dos imaginários e dos mundos inverosímeis nas visitas criativas aos netos após a morte, também se rende à magia e à alquimia do universo cinematográfico, em Momentos de Aqui. Na idade adulta, os netos apercebem-se que a avó Catarina ainda tem o poder de contar histórias, as histórias que eles chamam de “cinema bu” – versão infantil de uma caverna platoniana: – “era o cinema mais barato e mais imaginário que conhecíamos. Acontecia quando faltava a luz. Íamos para a varanda e virávamo-nos para a parede. De longe, os carros que passavam injetavam na noite o poder luminoso dos seus faróis. Esses jactos de luz partiam do carro, passavam pelo arvoredo do jardim da nossa casa e projectavam sombras na parede. Essas sombras eram a alma do cinema bu. A interpretação era nossa. Foi nesse cinema barato, carente de muita imaginação, que vi pela última vez a avó Catarina (…) encontramo-nos com a Avó Catarina. Ocorre então uma coisa engraçada: apercebemo-nos que ela ainda tem o poder de nos contar histórias, Nós é que temos a mania de chamar a essas histórias, cinema bu.” (p. 88).
O cinema bu é a necessidade de criar imagens, de percorrer histórias, de eternizar memórias e de construir identidades. A magia do cinema – do cinema bu – projeta, em Ondjaki, a necessidade da criação literária.

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