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DA ÚNICA AJUDA POSSÍVEL

REGINA SARDOEIRA
“Médico, cura-te a ti próprio: essa será a melhor forma de curares o teu doente. “, Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra
Cito esta frase do livro magistral de Nietzsche (uma das obras mais extraordinárias de todos os tempos) e penso nele, no autor, esse extraordinário filósofo, poeta, filólogo, músico, que viveu entre 1844 e 1900. Penso nele porque o encontro inteiro nesta frase, porque o sei inteiro em todas as palavras deste seu Zaratustra – e também, afinal, em todas as suas obras. 
Penso na exortação implícita nesta espécie de mandamento, pelo qual o autor nos reenvia para a nossa própria auto-superação, como que advertindo o presumível leitor da necessidade de cada um tratar de si, antes (ou em vez) de dar lições aos outros. Como podemos ter a pretensão de que ajudamos alguém, quando nem sequer somos capazes de ajudar-nos a nós mesmos? 
Neste domínio, só nós temos poder para nos auto-ajudarmos; que se desengane todo aquele que pensa ter capacidade para ajudar alguém a mudar a sua vida: aquele que muda fá-lo porque ouviu a sua voz interior e ela lhe segredou os passos a dar. E há, na vida, as alturas certas para a captação dos sinais íntimos que conduzem à mudança. 
Pode ser que alguém tenha dito uma palavra ou feito um apelo àquele que necessita de ajuda; pode ser que um amigo tenha proferido palavras sábias e emitido sábias sentenças ao ouvido de quem está carente de auxílio. E contudo, nada resultará, enquanto o som das advertências não vier do âmago daquele que sofre, tornando intrinsecamente sua a ajuda que ninguém, afinal, poderia dar-lhe. 
Não vás, por isso, ao médico, tu, que deves tornar -te no único médico de que necessitas; e cura-te a ti próprio, pela força, também ela única, da tua vontade. Mas esse grito interior despertará, se despertar, um dia: quando estiveres preparado para iniciar o caminho, o teu caminho. 
Quantas vezes desesperamos porque o nosso amigo não segue os conselhos que lhe damos e o vemos, dia após dia, afundado em problemas e desequilíbrios para os quais achamos ter-lhe dado a receita! E no entanto, é assim que deve ser – porque o som que o arrebatará em direcção ao seu próprio destino vem sempre do fundo do ser e nunca de uma voz alheia – por muito convincente e benévola que soe. 
Só aquele que se curou a si mesmo, num acto voluntário e íntimo, pode ser, afinal, um guia para os outros – mas na exacta medida em que serviu de exemplo e deixou a semente germinar no caminho. Pode ser que o que vem atrás se deixe contagiar; pode ser que a voz entre nas profundezas do outro e se torne sua, para impeli-lo a caminhar. Mas também pode ser que os olhos se mantenham cegos e surdos os ouvidos, tornando inúteis as palavras e os actos daqueles que triunfaram (de si mesmos, afinal). 
Se penso em Nietzsche, no homem Nietzsche, quando evoco esta sentença, é na exacta medida em que ele foi, nas peculiaridades do seu trajecto existencial, o exemplo fidedigno desta contínua demanda de si. Mestre da auto-superação ele foi, nas suas próprias palavras “um decadente, mas também o contrário de um decadente” (Ecce Homo) . O calcorreador infatigável de estradas árduas, em direcção aos cumes de si próprio, mas também o solitário enfermo nas sete solidões do eu individual. E queiramos ou não admiti-lo – porque temos medo de querer – cada um vive absolutamente murado no labirinto dos seus segredos de que ninguém pode apropriar-se ou moldar a seu bel-prazer. 
E necessário, pois, ouvir a voz – a nossa. Aquela que, sendo silenciosa, ecoa, potente, em certas horas para ser o clarim da alvorada do nosso destino – esse que, afinal, é a própria construção da identidade que vamos tendo. 
E com Nietzsche termino: “Médico, cura-te a ti próprio: essa será a melhor forma de curares o teu doente.” E o teu doente, não esqueças, és, absolutamente, tu mesmo – e não o resto do mundo.

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