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O HUMANISMO EM VERGÍLIO FERREIRA E A FONTE DO MISTÉRIO

O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas: é que, da nossa própria prisão, de dentro de nós mesmos, conseguimos extrair imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância.”
André Malraux, in “A Condição Humana”, 1933.
MARIA ISABEL ROSETE
Não basta a Razão para demarcar o humanismo de Vergílio Ferreira. Há dois universos paralelos do Sentir que parecem lutar, infinitamente, um contra o outro. A Razão, tão eterna e inquieta quanto o Espírito Humano Universal, revela a presença do Destino, da predestinação e do acaso, a pura contingência do Existir, determinante do fascínio de estarmos vivos na plataforma dos estádios transitórios do Tempo e da Morte na Vida.
O combate é inevitável entre o Tempo e a Morte, sobretudo quando é o próprio Homem que o instaura – como refere amiúde V. Ferreira – e abre-se como o grande desafio do Ser em relação ao seu limite desconhecido. Tempo e Morte são ilimitados. O Tempo é uma construção mental e o imperativo da sua instauração corresponde ao milenar sofrimento humano (permanentemente inacabado). Tornamo-nos escravos da hora, não só em homenagem àqueles que cumpriram o (seu) Ser-Tempo, mas mormente pela necessidade de nos regermos por fusos que nos fazem sair do Caos, pois sempre fomos avessos a ele, mesmo que nos lembremos do princípio grego, que data do início dos tempos, segundo o qual a ordem, o Cosmos nasceu do Caos, como do seu princípio originário.
A Morte, por seu turno, é outra construção mental, pois corresponde ao desejo da necessidade de explicação de um Universo do qual quase nada sabemos e, pelo qual, a nossa curiosidade arde de apoquentação permanente. Esse estádio não nos pertence e não nos pertence de tal forma que devêramos ignorá-lo, apagá-lo da nossa memória: rouba-nos aquela energia que deveríamos aplicar, por exemplo, na resolução de certos destinos menos misteriosos, mas mais conformes à nossa humanidade.
Intervaladamente, ou conjuntamente (quiçá!), eis o grande Mistério do Mundo, que não abarca apenas a Morte, mas toda a essencialidade divina, ou seja, toda a opacidade de Deus, ao mesmo tempo uma divindade tão misteriosa que, por mais que a nossa crença queira ignorá-la, permanecerá irremediavelmente como uma entidade, porém não apenas misteriosa, porque integra, em si mesma, a unificação de todo o Mistério Universal.
No pensamento virgiliano, o Mistério avulta como a essencialidade absoluta. É por isso que o autor jamais abdica da questionação: questionar o Mundo devia ser o nosso primeiro destino, em vez de nos mantermos no comodismo da pura passividade do dado, não obstante a nossa ânsia de clarividência, ou, como havia dito Aristóteles, o nosso desejo natural de saber, de conhecer a Realidade, de conhecer os Homens e de nos autoconhecermos, bem como o Mistério, a auréola enigmática que envolve tudo isto.
Dessa interrogação ao Destino – princípio que aplicou ao estudo biográfico dedicado a Malraux, uma das suas grandes influências teóricas, um dos seus grandes guias – ausculta-se sempre a premência da Morte e, por consequência, a do Mistério. É por ele que vivemos; é por ele que a esperança recusa abandonar-nos. O Mistério será, talvez, o último estádio do espírito, o último estádio da interrogação interminável.

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